Apesar de não integrar o G7, bloco formado pelas maiores potências mundiais: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, o Brasil foi novamente convidado a participar da cúpula realizada na França. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) compareceu aos eventos a convite do anfitrião, Emmanuel Macron, com quem também discutiu acordos bilaterais.
Com uma fala diplomática, porém incisiva, Lula defendeu a soberania brasileira e, sem citar nominalmente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, direcionou recados a ele e saiu em defesa da posição global da China. “Faz muito tempo que o Brasil realiza licitações internacionais e os Estados Unidos e a União Europeia não participam. A China participa. A China ocupou um espaço que estava vazio. Eles não podem reclamar que a China está ocupando um espaço se ele estava vazio”, declarou durante a cúpula.
Repercussão no videocast O Estrangeiro
Considerado um sinal de grande prestígio por analistas, o convite para Lula participar novamente da cúpula do G7 é tema de análise do videocast de política internacional “O Estrangeiro”, apresentado pelos jornalistas Lucas Estanislau e Camila Salmázio, que recebe o correspondente do Brasil de Fato na Rússia, Serguei Monin.
Camila Salmázio destaca a postura contundente de Lula ao cobrar responsabilidade dos países do G7 em relação às nações em desenvolvimento. “Ele dá um puxão de orelha, principalmente para os países da Europa, por não estarem olhando para os países em desenvolvimento. E ele diz: ‘Vocês têm que se desenvolver, manter o conforto de vocês, mas a gente tem que crescer todo mundo junto’. Acho que é um papel interessante que Lula exerce nesse momento, com essa participação efetiva no G7. Ontem ele já tinha criticado [Elon] Musk. Não citou nomes, mas todo mundo sabe. Disse que essa concentração de renda é um absurdo. Criticou também que os países deixaram de combater a fome para investir em guerra. Ele disse que no ano passado foram investidos US$ 3 milhões em guerra e que isso daria para acabar com a fome em muitos países e, inclusive, a desigualdade”, avalia.
Lucas Estanislau elogia a habilidade de Lula em dialogar e, de certa forma, moldar seu discurso para estabelecer diálogos eficientes com países liberais. “Ele está falando com uma certa camada liberal europeia. E ele sabe onde tocar nesse setor político a questão da concentração de renda. Ele também sabe das rivalidades existentes entre a Europa e os Estados Unidos, toda a questão do financiamento da Otan. Então, em resumo, ele sabe repercutir essa questão com os europeus”, destaca.
Serguei Monin destacou que, depois de Lula, o líder que mais participou de reuniões da cúpula foi o presidente da Rússia, Vladimir Putin. O país era integrante do bloco até ser excluído em 2014 devido à anexação da Crimeia e sofrer sanções. “Percebemos ao longo dos últimos anos que não foi possível isolar completamente a Rússia nos fóruns internacionais, sobretudo com a participação de países como Índia, China, Brasil, que não cessaram suas relações prósperas com a Rússia, principalmente no âmbito do Brics”, avalia.
À margem da cúpula do G7, Lula se encontrou com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. Para Monin, isso é mais uma prova da influência do Brasil no contexto do Sul Global, expresso pelo Brics. “Talvez seja um indício de quem faz questão de se encontrar com Lula e trazer o Brasil para sua esfera de influência. Sem dúvida, demonstra um esforço. Vemos Zelensky oscilando muito na relação com o Brasil. Em um momento de atrito, fez declarações com farpas em relação ao país, porque o Brasil não oferecia apoio explícito e contundente à Ucrânia nem criticava diretamente a Rússia. O Brasil sempre se posicionou, não digo de forma ambígua, mas defendendo o diálogo e negociações de paz, sem tomar partido explicitamente. Isso incomodou Zelensky em determinado momento, mas em outro tornou interessante buscar essa aproximação com Lula”, avalia.







