O Gigante de Cerne Abbas, um dos mais célebres geoglifos da Inglaterra, está sendo submetido a um novo processo de restauração no sul do país. A colossal figura esculpida em giz numa encosta de Dorset está ganhando uma nova aplicação de carbonato de cálcio, visando recuperar o tom branco e o contraste que a notabilizaram ao longo dos séculos.
Com impressionantes 55 metros de altura, o monumento retrata um guerreiro nu segurando um enorme porrete sobre a cabeça. A figura é coloquialmente chamada de “Homem Rude”, numa alusão ao falo ereto presente no desenho. O contorno do geoglifo é formado por trincheiras cavadas na encosta e preenchidas com giz branco.
A manutenção está sendo executada pelo National Trust, uma entidade britânica focada na conservação do patrimônio histórico e natural. De acordo com a organização, a renovação do giz costuma ocorrer aproximadamente a cada década, garantindo a visibilidade do gigante na paisagem local.
“Recobrir o Gigante com giz envolve técnicas que permanecem inalteradas por gerações — remover com cuidado o material antigo e compactar manualmente o giz fresco numa encosta bastante íngreme”, explica Luke Dawson, guarda-chefe do National Trust, por meio de comunicado. “É assim que o preservamos visível há séculos.”
A restauração mais recente havia ocorrido em 2019. Contudo, logo após o término do serviço, fortes chuvas outonais carregaram grande parte do novo revestimento de giz. Agora, a equipe optou por realizar o procedimento no início do verão europeu, na expectativa de alcançar resultados mais duradouros.
Além dos temporais recentes, o National Trust constatou outro fator prejudicando a aparência da figura: a proliferação de algas sobre o giz branco.
“Percebemos que o crescimento de algas está começando a diminuir o contorno branco e brilhante do gigante”, afirmou Dawson em entrevista ao The Guardian. “Não podemos afirmar com total certeza o que está causando isso, mas condições climáticas mais quentes e úmidas podem ser um fator. Os invernos amenos e os verões mais chuvosos favorecem o seu desenvolvimento.”
O Gigante de Cerne Abbas integra um conjunto de geoglifos históricos distribuídos pelo sul da Grã-Bretanha. Muitos deles retratam cavalos ou formas abstratas, mas a figura de Dorset se sobressai pelo formato humano e pelos detalhes anatômicos acentuados. O desenho apresenta cabeça calva, traços faciais simplificados, costelas visíveis e um grande porrete na mão direita.
Durante muito tempo, arqueólogos e historiadores debateram a origem do monumento. Algumas hipóteses apontavam para a pré-história, enquanto outras sugeriam o período romano ou o pós-medieval. Houve ainda interpretações de que a figura seria uma caricatura de Oliver Cromwell no século 17.
Em 2021, no entanto, uma pesquisa liderada pelo National Trust trouxe uma nova datação para o geoglifo. O estudo concluiu que ele foi provavelmente esculpido entre 700 e 1100 d.C., durante a era saxã tardia.
Os resultados surpreenderam especialistas que previam uma origem muito mais antiga ou recente. “Não era o que se esperava”, declarou o geoarqueólogo Mike Allen ao The Guardian na época. “Muitos arqueólogos e historiadores pensavam que ele era pré-histórico ou pós-medieval, mas não medieval.”
Para chegar a essa estimativa, os pesquisadores empregaram uma técnica chamada luminescência opticamente estimulada. O método permitiu analisar as camadas mais profundas das trincheiras no solo e identificar quando elas foram expostas à luz solar pela última vez.
Conforme afirmou Martin Papworth, arqueólogo sênior do National Trust, em comunicado: “A arqueologia na encosta era surpreendentemente profunda — as pessoas vêm repondo o calcário no gigante há muito tempo”.
Segundo o National Trust, existem indícios de que o geoglifo tenha sido criado pelos saxões tardios, descendentes de grupos germânicos que migraram para a Grã-Bretanha séculos antes. Investigações mais recentes também levantaram a possibilidade de a figura ter sido inspirada em Hércules.
A datação, contudo, ainda gera questionamentos. O período indicado pela pesquisa coincide em parte com a fundação da Abadia de Cerne, um monastério do século 10 localizado na região. Estudiosos ressaltam que seria improvável que monges da época aprovassem a presença de uma enorme figura nua escavada na colina.
Como destacou Gordon Bishop, presidente da Sociedade Histórica de Cerne, ao The Guardian em 2021: “Obviamente, temos muita pesquisa a realizar nos próximos anos”.
O National Trust administra o monumento desde 1920. Na atual restauração, cerca de 300 voluntários e funcionários devem utilizar aproximadamente 19 toneladas de giz ao longo de duas semanas de trabalho. O material é misturado com água até formar uma pasta que é compactada manualmente nas trincheiras da figura.
A voluntária Chloe Baugh, encarregada de trabalhar numa das pernas da escultura, afirmou que o processo reforçou o significado histórico do monumento. “Isso realmente me fez refletir sobre todas as pessoas que trabalharam para fazer isso ao longo de centenas de anos.”







