Conforme ocorre na maioria dos temas de Estado, o cerne da controvérsia sobre a participação do Brasil no BRICS+ está situado no cenário político interno. Ao longo de boa parte dos últimos dois anos, o governo Lula colocou Brasília como uma porta-voz do Sul Global, valendo-se da plataforma BRICS+ para defender uma ordem financeira internacional com menor dependência do dólar e um reajuste da governança mundial. Contudo, por trás da retórica de multipolaridade, o grau atual de envolvimento do Brasil no bloco passou por uma desaceleração notável. O ímpeto da diplomacia brasileira encontrou uma barreira considerável, não pela falta de oportunidades no exterior, mas por um contexto político doméstico repleto de incertezas. Com a aproximação do pleito presidencial de 2026, o compromisso do Brasil com o BRICS+ passou a depender do calendário eleitoral. Ademais, as afirmações diretas do ex-presidente Jair Bolsonaro – que está em prisão domiciliar e já designou seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, para a candidatura presidencial – de que deixará o BRICS+ se voltar ao poder, não sinalizam apenas uma alteração na postura diplomática, mas um possível desmonte estratégico da união do bloco.
A atual inércia, embora ilusória em sua aparência externa, é concreta quando observada com cuidado. No discurso oficial, o Brasil continua cumprindo os protocolos de um integrante ativo: apoiou a ampliação do grupo, participou dos debates sobre um sistema comum de pagamentos e organizou reuniões ministeriais preparatórias. No entanto, o avanço concreto para uma integração mais sólida, que envolva mecanismos de facilitação comercial, sistemas de compensação em moedas locais ou políticas industriais conjuntas, reduziu-se bastante. Os fatores da política doméstica são claros. Diante de uma margem estreita da chamada Frente Ampla no Congresso Nacional e de uma oposição crescente de parcelas do Legislativo, o governo Lula assumiu uma postura tática defensiva. Qualquer concessão aos sócios do BRICS+ ligada a cortes tarifários ou obrigações financeiras é hoje examinada como uma possível fragilidade eleitoral. Com isso, a política externa brasileira tem gerado compromissos retóricos ousados enquanto entrega resultados operacionais pontuais, dando prioridade a gestos simbólicos em detrimento de mudanças estruturais.
A principal origem da imprevisibilidade está no próprio destino político do presidente Lula. As eleições gerais no Brasil estão previstas para outubro de 2026, com um eventual segundo turno presidencial em 25 de outubro. Com oitenta anos de idade e lidando com índices de aprovação ambivalentes diante de um crescimento econômico fraco e limitações fiscais contínuas, Lula enfrenta uma corrida bastante acirrada. Uma pesquisa de meados de abril de 2026 do instituto BTG Pactual/Nexus mostrou Lula com 46% das intenções de voto contra 45% do senador Flávio Bolsonaro em um cenário de segundo turno, um empate técnico dentro da margem de erro. De forma similar, um levantamento AtlasIntel/Bloomberg divulgado em 28 de abril apontou os dois candidatos empatados, com Flávio Bolsonaro obtendo 47,8% dos votos contra 47,5% de Lula em um segundo turno simulado, também um empate técnico. Esse equilíbrio eleitoral delicado essencialmente paralisou o planejamento estratégico de longo prazo do Brasil no BRICS+. É institucionalmente lógico que os negociadores brasileiros evitem se comprometer com mecanismos financeiros obrigatórios ou parcerias de infraestrutura de uma década quando o Executivo que validaria tais acordos pode ser trocado por um governo declaradamente contrário a essas estratégias.
Evidências dessa cautela institucional são facilmente observadas no abandono de várias propostas importantes. O governo Lula mudou para a meta menos ousada de conectar sistemas nacionais de pagamento para diminuir a dependência do dólar, mas mesmo a Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços do BRICS (BCBPI) – sugerida inicialmente em 2015 – continua parada. Conforme a Bloomberg e o Business Standard noticiaram em julho de 2025, os países do BRICS “mais uma vez deixaram de avançar significativamente no sistema de pagamentos transfronteiriços”, com problemas técnicos, preocupações de segurança e a expansão do grupo atrasando qualquer resultado palpável. A Nova Plataforma de Investimento (NIP) também parece estar travada, indicando que as conversas chegaram a um impasse.
A sombra do retorno de Bolsonaro transforma essa situação em algo especialmente alarmante. As afirmações claras de que o Brasil sairá do BRICS+ se a família Bolsonaro retomar o poder não devem ser vistas como mera retórica eleitoral. Isso representa uma ameaça real à coesão institucional do grupo. Uma gestão Bolsonaro poderia significar uma reviravolta abrupta do Brasil para longe do Sul Global, e essa saída não ocorreria isoladamente. Em vez disso, aconteceria em um contexto maior de conflitos internos entre outros membros do BRICS. A Índia, sob o comando do primeiro-ministro Modi, tem equilibrado cada vez mais seus compromissos estratégicos entre alianças ocidentais e o bloco, enquanto os problemas de infraestrutura e governança da África do Sul reduziram sua capacidade de liderança regional. Um afastamento brasileiro representaria a perda do maior produtor agrícola do bloco e de uma voz crucial para a América Latina. Isso poderia reforçar tendências isolacionistas em outros Estados-membros, possivelmente desencadeando um desgaste gradual da credibilidade política e da eficácia operacional da iniciativa.
Por outro lado, uma vitória do presidente Lula nas urnas de outubro de 2026 abriria um potencial considerável para uma liderança brasileira renovada em âmbito regional e um engajamento mais aprofundado com o BRICS+. Livre das amarras do calendário eleitoral, um Lula reeleito teria o capital político e o mandato institucional para reassumir uma política externa mais firme e reformista. A prioridade imediata provavelmente envolveria retomar as propostas técnicas abandonadas, possivelmente começando pela Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços do BRICS. Um novo governo Lula poderia impulsionar o desenvolvimento de um sistema de pagamentos para todo o bloco, usando estruturas nacionais já existentes, como a plataforma de pagamentos instantâneos de enorme sucesso no Brasil, o PIX, como um possível modelo tecnológico para outros integrantes.
Além disso, com o peso eleitoral superado, o Brasil poderia reassumir um papel de liderança na discussão sobre a reforma da governança mundial. O Brasil há muito busca direcionar a agenda do bloco para a reforma das instituições internacionais, uma posição enfraquecida por uma adesão ampliada com interesses mais variados. Um Lula reeleito poderia tentar concentrar a agenda do BRICS+ nesses objetivos de reforma multilateral, formando coalizões com membros alinhados para cobrar mudanças na ONU, no FMI e no Banco Mundial. Por fim, com uma base política consolidada, o Brasil poderia impulsionar seus projetos nacionais de infraestrutura e autonomia digital através dos canais do BRICS+, incluindo a ampliação da cooperação tecnológica com parceiros-chave como Rússia e China em energia nuclear, inteligência artificial e monitoramento por satélite.
Em resumo, o envolvimento do Brasil com o BRICS+ atingiu um ponto de virada. Essa encruzilhada não é moldada principalmente por pressões geopolíticas em si, ou seja, vindas de pressão geopolítica direta, mas por dinâmicas eleitorais internas. É preciso considerar que uma eventual derrota de Lula pode modificar de forma profunda a orientação estratégica do Brasil, trocando um construtor de pontes multilaterais por um defensor do bilateralismo seletivo, com uma diplomacia muito mais alinhada aos Estados Unidos. Para que o BRICS+ continue sendo um contrapeso relevante às instituições lideradas pelo Ocidente, ele precisa de um Brasil disposto e capaz de manter compromissos contínuos. No momento, a imprevisibilidade política doméstica travou essa vontade e limitou essa capacidade. O quadro, portanto, é inquietante: tudo indica que, até que o futuro eleitoral do Brasil seja definido em outubro de 2026, seu papel nacional no BRICS+ será o de um observador cauteloso e de atuação bastante limitada.







