Com um novo ultimato dos Estados Unidos ao Irã, que se encerra nesta quarta-feira (22), o estreito de Ormuz volta a ser o epicentro das tensões internacionais. Contudo, essa passagem já era considerada um dos locais mais delicados da geopolítica mundial antes mesmo do início do conflito atual no Oriente Médio.
A razão é que, por essa faixa marítima de apenas 33 quilômetros em seu ponto mais estreito, transita aproximadamente um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Essa característica transforma qualquer instabilidade local em um risco imediato para a economia global.
A região acumula episódios de violência que, ao longo dos anos, colocaram o mundo à beira de crises energéticas e confrontos militares de grande porte. A repetição desses eventos reforça a vulnerabilidade estrutural da área.
A Guerra dos Petroleiros
O conflito atual remete diretamente à chamada “Guerra dos Petroleiros”, uma fase brutal da Guerra Irã-Iraque, que se estendeu de 1980 a 1988.
Nesse período, os dois países passaram a atacar embarcações comerciais como estratégia para enfraquecer economicamente o adversário. Navios de nações neutras também foram atingidos, resultando em mortes, danos ambientais e interrupções significativas no tráfego marítimo.
O Iraque iniciou os ataques contra terminais iranianos, e o Irã retaliou, alvejando navios de países do Golfo que apoiavam Bagdá, como o Kuwait.
O resultado foi devastador, com centenas de navios comerciais de nações neutras atingidos por mísseis, minas e ataques de lanchas rápidas.
Além do enorme desastre ambiental provocado pelo derramamento de óleo, a crise forçou a intervenção militar dos Estados Unidos, que iniciaram operações de escolta a petroleiros no Golfo.
A presença militar elevou a tensão e resultou em confrontos diretos com forças iranianas, consolidando o estreito como uma zona de risco permanente.
Tragédia do voo 655 da Iran Air
Foi nesse contexto que ocorreu uma das maiores tragédias da aviação civil. Em 3 de julho de 1988, o cruzador americano USS Vincennes abateu o voo 655 da Iran Air após confundir a aeronave com um caça inimigo.
O Airbus A300 foi destruído no ar, matando todas as 290 pessoas a bordo, incluindo 66 crianças.
O episódio deixou marcas profundas nas relações entre Washington e Teerã. Embora os Estados Unidos tenham expressado pesar e pago indenizações às famílias das vítimas, nunca houve um pedido formal de desculpas, o que mantém o caso como um símbolo duradouro de desconfiança entre as duas nações.
Explosões em 2019
Décadas depois, a instabilidade voltou a se manifestar com força. Em 2019, explosões atingiram petroleiros próximos ao Golfo de Omã, área adjacente ao estreito. Entre os navios afetados estavam o petroleiro norueguês MT Front Altair e o japonês Kokuka Courageous, que sofreram danos após ataques misteriosos.
Imagens divulgadas pelos Estados Unidos mostraram supostos militares iranianos removendo minas não detonadas dos cascos das embarcações. O Irã negou envolvimento, mas os incidentes levaram ao envio de tropas adicionais à região e ao aumento dos custos de seguro para o transporte marítimo.
Conflito atual
Entre 2025 e 2026, o cenário evoluiu com a introdução de novas tecnologias no campo de batalha. Drones kamikazes e munições de precisão passaram a representar uma ameaça constante, ampliando o alcance dos ataques e dificultando a identificação de responsáveis.
A interrupção temporária do tráfego em 2026 reacendeu o temor de escassez global de combustível. O impacto imediato nos preços demonstrou, mais uma vez, o poder estratégico do estreito como instrumento de pressão geopolítica.
A geografia da região, aliada à presença militar intensa e às rivalidades históricas, cria um ambiente propício a escaladas rápidas e erros de cálculo. Esse conjunto de fatores explica por que crises se repetem ao longo do tempo, frequentemente com consequências globais.
Ao longo de mais de quatro décadas, o Estreito de Ormuz se tornou um ponto crítico em que interesses econômicos e disputas políticas se sobrepõem. A recorrência de incidentes mostra que a região permanece altamente instável.
Diante do cenário atual, diplomatas tentam conter a escalada e garantir a segurança da navegação. No entanto, o histórico do estreito sugere que qualquer trégua pode ser temporária.







