Os BRICS estão em processo de desenvolvimento de um sistema de pagamentos que tem o potencial de alterar a circulação de recursos entre as principais economias emergentes do planeta. O banco central indiano, Reserve Bank of India, sugeriu na última reunião de cúpula a formação de um mecanismo de pagamento coletivo entre os integrantes do grupo, que funcionaria com moedas digitais nacionais. Isso viabilizaria transações diretas entre nações, sem a necessidade de recorrer a sistemas financeiros ocidentais como intermediários. A inspiração declarada para essa plataforma é o PIX brasileiro, e o assunto será debatido com ênfase durante a 18ª Cúpula dos BRICS, que a Índia sediará em 2026. O que está em discussão vai além de uma simples plataforma de pagamentos; trata-se de uma medida concreta para diminuir a dependência global do dólar americano.
As relações comerciais entre os membros dos BRICS já seguem esse caminho. Até 65% das transações comerciais dentro do bloco são feitas em moedas locais. China e Índia, respectivamente a segunda e a quarta maiores economias do mundo, já realizam 80% de seu comércio bilateral sem utilizar o dólar. Contudo, a maioria das moedas dos BRICS, com exceção do yuan chinês, ainda enfrenta problemas de liquidez limitada, e os sistemas de liquidação atuais permanecem integrados à infraestrutura financeira ocidental. O sistema de pagamentos proposto pelos BRICS busca solucionar precisamente essa contradição: os países já negociam em moedas locais, mas ainda dependem de plataformas controladas pelo Ocidente para processar esses pagamentos.
Funcionamento prático do sistema de pagamentos dos BRICS
Conforme informações divulgadas, o modelo proposto pelo bloco não é uma moeda comum, como o euro, mas uma solução distinta e possivelmente mais factível. O sistema interligaria moedas digitais soberanas de cada país participante, permitindo que os bancos centrais liquidem transações diretamente entre si. Isso ocorreria sem a necessidade de conversão para dólar e sem o uso de plataformas como o SWIFT, que é controlado por instituições ocidentais e pode ser empregado como instrumento de sanções. Na prática, se o Brasil precisar pagar a Índia por uma importação, a operação será realizada em real digital e rupia digital, com conversão automática entre as duas moedas.
A Força-Tarefa de Pagamentos dos BRICS já progrediu na definição da “interoperabilidade” do futuro sistema. A Declaração de líderes assinada durante a Cúpula do Rio em 2025 classificou o desenvolvimento do sistema como “prioridade estratégica”, encarregando ministros das finanças e governadores de bancos centrais de prosseguir com as discussões. O documento reconheceu o progresso obtido na identificação de “possíveis caminhos para apoiar a continuidade das discussões sobre o potencial para maior interoperabilidade dos sistemas de pagamento dos BRICS”, uma linguagem diplomática que reflete avanços técnicos reais.
Motivos pelos quais o PIX brasileiro inspira o sistema
A escolha do PIX como referência não é casual. O sistema de pagamentos instantâneos brasileiro é visto como um dos mais bem-sucedidos globalmente, contando com mais de 150 milhões de usuários e capacidade de processar transações em segundos. Ele opera sem intermediários bancários tradicionais e com custo praticamente zero para o usuário. O PIX mostrou que é viável criar uma infraestrutura de pagamentos eficiente, barata e acessível em um país de dimensões continentais.
Para os BRICS, a lógica do PIX se adapta a uma escala internacional. Se um sistema consegue conectar milhões de pessoas dentro de um país em tempo real, a mesma arquitetura pode ser ajustada para interligar bancos centrais de diferentes nações. Isso permitiria que transações transfronteiriças fossem tão rápidas e baratas quanto uma transferência via PIX entre dois brasileiros. A diferença é que, em vez de reais, o sistema funcionaria com moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) de cada membro dos BRICS, convertendo automaticamente entre as moedas e eliminando a necessidade do dólar como moeda intermediária.
O papel da China e do yuan digital na iniciativa
A China é o membro dos BRICS mais adiantado no desenvolvimento de moedas digitais de banco central. O yuan digital (e-CNY) já superou a marca de trilhões de dólares em transações, de acordo com dados do Atlantic Council. O país também investe em plataformas como o mBridge, originalmente desenvolvido com apoio do Banco de Compensações Internacionais, que permite liquidações diretas entre bancos centrais sem moedas intermediárias.
Para o sistema de pagamentos dos BRICS, a experiência chinesa representa ao mesmo tempo uma vantagem e uma fonte de tensão. A liderança tecnológica da China em CBDCs pode acelerar o desenvolvimento da plataforma, mas outros membros do bloco receiam que o yuan digital acabe dominando o sistema, transformando a desdolarização em uma “yuanização”, ou seja, trocando a dependência de uma moeda dominante por outra. O modelo de interoperabilidade entre moedas soberanas, em vez de uma moeda comum dos BRICS, é justamente a resposta para essa preocupação: cada país mantém sua moeda, sua política monetária e sua soberania econômica.
Significado da desdolarização para os países do bloco
A redução da dependência do dólar é um objetivo declarado dos BRICS há anos, e o sistema de pagamentos é o instrumento mais concreto para alcançá-lo. Os países do grupo somam juntos aproximadamente 30% de todo o comércio mundial, e cada transação que deixa de ser intermediada pelo dólar diminui a influência dos Estados Unidos sobre o fluxo financeiro global. Para nações que enfrentaram ou temem enfrentar sanções americanas, como Rússia e Irã, essa independência financeira é uma questão de sobrevivência econômica.
Para o Brasil, a desdolarização traz implicações práticas. Transações em moeda local reduzem custos de câmbio para exportadores e importadores brasileiros, que atualmente precisam converter reais em dólares e depois em yuan, rublo ou rupia para comercializar com parceiros dos BRICS. Um sistema de pagamentos direto eliminaria essa dupla conversão, economizando bilhões em taxas de câmbio e reduzindo a exposição da economia brasileira à volatilidade do dólar.
Desafios para a implementação do sistema
Apesar dos progressos, o sistema de pagamentos dos BRICS não é inevitável. A maioria das moedas do bloco sofre com liquidez limitada no mercado internacional, o que significa que converter grandes volumes de rúpia indiana em rand sul-africano, por exemplo, ainda é difícil sem usar o dólar como referência de preço. Resolver esse problema de liquidez é o principal desafio técnico que a Força-Tarefa de Pagamentos precisa superar.
Existem também obstáculos políticos. Harmonizar regulações financeiras entre 11 países com sistemas jurídicos, políticas monetárias e níveis de desenvolvimento tecnológico muito distintos exige negociações que podem levar anos. A interoperabilidade técnica entre CBDCs depende de padrões comuns que ainda estão sendo definidos, e cada nação tem incentivos diferentes para acelerar ou retardar o processo. Ainda assim, o fato de os BRICS já comercializarem 65% entre si em moedas locais demonstra que a demanda por um sistema de pagamentos próprio é real, e a 18ª Cúpula na Índia deve apresentar avanços concretos.







