Em uma pequena cidade do sul de Minas Gerais, circula há tempos um boato: o queijo casamenteiro. Entre o folclore popular e a culinária, a história desse queijo de mofo azul, recheado com cream cheese, nozes e damasco ganhou força com a imagem de Santo Antônio — conhecido como o santo casamenteiro — estampada na embalagem.
Não por acaso, o produto volta a aparecer justamente em junho, quando o Dia dos Namorados e as festas de Santo Antônio reacendem tradições ligadas ao amor e a rituais afetivos. Em meio a jantares românticos e celebrações típicas da época, o Santo Casamenteiro encontrou espaço não apenas como item gastronômico, mas como um símbolo que mistura afeto, narrativa popular e experiência à mesa.
Para compreender melhor esse fenômeno, que se espalhou pelo Brasil e pelo mundo, a reportagem conversou com a mestre-queijeira da Cruzília, Maria do Céu, sobre o mito e a tradição do Queijo Casamenteiro.
O “casamento perfeito” do queijo mineiro
O que começou como uma brincadeira entre as produtoras de queijo da fábrica Cruzília, em Minas Gerais, acabou se transformando em uma lenda regional que, mais tarde, ganharia reconhecimento internacional.
A história teve início em 2008, em Cruzília, na Serra da Mantiqueira, quando o queijo chamado Santo Casamenteiro passou a ser fabricado artesanalmente e sob encomenda, próximo ao Dia dos Namorados e às celebrações de Santo Antônio. Na época, a equipe de produção do queijo — formada apenas por mulheres — apelidou carinhosamente o produto de “Santo Antônio”, em referência ao santo tido como casamenteiro.
A coincidência entre a criação e os casamentos entre as funcionárias da fábrica ajudou a alimentar a narrativa em torno do produto. Criado inicialmente como uma aposta criativa para concursos, o nome veio depois da união dos elementos, sendo posteriormente associado ao amor e à sorte que o cerca.
O que era apenas uma brincadeira interna entre as funcionárias passou a circular entre a população local, consumidores e visitantes, reforçando cada vez mais sua fama e a proposta de trazer sorte no amor.
“Quem comesse, casaria”, lembra Maria do Céu, mestre-queijeira da Cruzília e especialista em laticínios. Em entrevista, a especialista comenta, em tom descontraído, que várias produtoras da época começaram a se casar após a criação do queijo: “Elas começaram a casar depois que começaram a fazer o queijo — como reza a lenda”, afirma Maria.
Mesmo após entrar oficialmente na fábrica, em 2012, o Santo Casamenteiro manteve seu caráter artesanal, o que possibilitou seu reconhecimento em território internacional.
Além de famoso entre a população mineira, o Queijo Casamenteiro quebrou barreiras. Em 2021, foi eleito o melhor queijo do mundo no Concours Mondial du Fromage, na França, consolidando-se como um dos grandes símbolos da produção brasileira.
Queijo artesanal e com formato surpreendente
Ao se deparar pela primeira vez com o Queijo Casamenteiro, é comum sentir estranheza — e até certa dificuldade em entender como consumi-lo, como comenta Maria do Céu.
Pensado e executado para lembrar o formato de um bolo de casamento, o queijo é produzido artesanalmente, um a um. Com base de queijo de mofo azul recheado com cream cheese, nozes e damasco, a receita foi criada com o objetivo de inovar no mercado de queijos especiais — ganhando, posteriormente, o apelido de casamenteiro.
Com a imagem de Santo Antônio ilustrando a embalagem, a receita une a cremosidade e leveza do queijo de mofo azul e do cream cheese à crocância dos damascos e nozes.
“Além de chamar esse queijo de santo casamenteiro, eu considero ele um casamento perfeito”, afirma Maria do Céu, mestre-queijeira da Cruzília e especialista em laticínios.
A especialista associa a combinação a um ‘casamento perfeito’ entre os sabores. Segundo ela, as camadas fazem parte da própria experiência de degustação da receita: “A base de queijo azul de Minas é bem cremosa e de sabor suave. Ele não é um queijo ácido, de sabor muito forte, é a base dele”, explica.
“A mistura de creme e queijo com damasco e nozes dá muita crocância. Então, quando você come o queijo, consegue perceber as várias camadas de sabor que ele tem”, finaliza Maria.
Servido como um bolo de casamento, a proposta é oferecer uma fatia por pessoa para que todas as camadas e sabores possam ser sentidos em uma única garfada. Para reforçar seu possível “poder” no amor, Maria do Céu comenta sobre o formato escolhido: “O nosso pensamento foi fazer um formato como de um bolo — que remetesse a um casamento, que lembrasse Santo Antônio, traduzindo essa tradição através desse produto”.
Harmonização e conquista internacional

Diferente da maioria dos queijos, o Queijo Casamenteiro deve ser servido frio — contrariando a recomendação mais comum de servi-lo à temperatura ambiente. Segundo Maria do Céu, isso acontece por causa do formato em camadas e das texturas presentes na receita.
Por outro lado, a especialista explica que isso possibilita harmonizações específicas. Por conta da intensidade, cremosidade e contraste agridoce, as melhores bebidas a serem servidas são espumante e vinho branco.
“Uma porção de santo casamenteiro com um bom espumante gelado, para ser consumido a dois, eu posso te garantir que mesmo que não haja casamento, vai rolar muito amor. Porque a junção é muito perfeita”, comenta Maria, em tom descontraído.
“Um bom vinho branco gelado, não muito ácido, também é uma ótima opção — realmente a tradução disso é amor e afeto. Como um abraço”, finaliza.






