O ‘cansaço’ do wellness

Já aconteceu de você acordar com a sensação de que o dia estava comprometido porque não conseguiu completar as oito horas de sono? Ou de sentir culpa depois de uma refeição fora do planejado, mesmo mantendo uma alimentação saudável no cotidiano? Para algumas pessoas, o autocuidado deixou de ser fonte de prazer e se transformou no chamado “cansaço do wellness”: virou exigência, lista de tarefas e mais uma área em que é possível falhar.

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Dormir adequadamente, treinar, alimentar-se com equilíbrio, meditar, dedicar-se à pele, fazer check-ups periódicos, administrar o estresse e acompanhar o funcionamento do próprio organismo são condutas que fazem sentido. O problema é quando todas essas frentes se acumulam e passam a ser encaradas como deveres.

Nesse momento, o discurso do bem-estar assume outra face. Em vez de proporcionar uma vida melhor, a busca pela rotina ideal cobra da pessoa um esforço contínuo para se corrigir, se controlar e se aperfeiçoar.

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Vinicius Esperança Lopes, psicólogo, psicanalista e antropólogo, formado em Ciências Sociais e pós-graduado em Psicanálise e Psicologia Analítica, enxerga exatamente nesse ponto o cerne da questão: o cuidado deixa de ser uma prática de saúde e vira um instrumento de avaliação pessoal.

“Cuidar de si deveria aliviar o peso da existência, mas, para muitas pessoas, converteu-se em mais uma fonte de cobrança. A saúde deixa de representar um vínculo de cuidado e passa a funcionar como uma espécie de prova cotidiana de competência. O sujeito passa a aferir o próprio valor pela capacidade de cumprir uma rotina ideal.”

Por trás da disposição

A noção de bem-estar parte de uma série de pré-condições que não estão ao alcance de todos. Disponibilidade de tempo, recursos financeiros, acesso a serviços e estabilidade são fatores que interferem na adoção de determinadas rotinas.

Vinicius alerta para essa inversão: “Há quem trabalhe em excesso, durma pouco, cuide dos filhos, enfrente dificuldades financeiras, viva esgotado ou simplesmente não tenha o tempo e os recursos exigidos por esse padrão. Quando tais condições são desconsideradas, corre-se o risco de classificar cansaço como falta de disciplina e sofrimento como incapacidade individual.”

O desfecho é que as dificuldades originadas na rotina e nas circunstâncias de vida passam a ser enxergadas como falhas individuais. O sono precisa ser otimizado, o estresse vigiado, a dieta planejada e o treino encaixado na agenda. Quanto mais itens na lista, maiores as chances de não cumpri-la.

“Nem sempre alguém está se cuidando de menos. Muitas vezes, a pessoa apenas tenta dar conta de uma vida pesada demais.”

O recorte perfeito

No campo da saúde mental, da estética e do corpo, as redes sociais potencializam o efeito das comparações. O recorte da chamada “vida perfeita”, em que todas as caixinhas aparecem preenchidas, faz com que tudo pareça simples e joga o indivíduo de volta para a culpa.

“A comparação não se dá entre duas vidas concretas. Ela ocorre entre a totalidade da nossa existência e uma fração bem selecionada da vida de outra pessoa”, explica Vinicius.

Tal mecanismo chega a modificar a forma como a pessoa reflete sobre o próprio bem-estar. Em vez de partir das próprias sensações, ela passa a se medir continuamente por um padrão externo.

“Aos poucos, isso pode alterar a pergunta que fazemos sobre nós mesmos”, observa o psicólogo. “O corpo deixa de ser experienciado internamente e passa a ser observado de fora, como se estivesse sempre abaixo do esperado.”

O ciclo da insuficiência

Há uma diferença clara entre adotar hábitos benéficos e estruturar a vida inteira em torno do pavor de perder o controle. Um comportamento saudável tolera pausas, adaptações e mudanças diante dos imprevistos.

Para Vinicius, certos sinais indicam quando a relação com o autocuidado se torna exagerada. “Se deixar de ir à academia gera culpa forte, se uma refeição diferente provoca vontade de compensar, se descansar parece derrota, é sinal de que algo endureceu.”

Também é preciso observar o quanto esse assunto ocupa a mente. Quando a pessoa passa grande parte do dia preocupada com peso, calorias, passos, sono, rendimento, exames e metas, o cuidado provavelmente está tomado pela ansiedade e pelo controle excessivo.

Isso se explica pelo fato de o corpo não ser imutável. Ele se cansa, se transforma, envelhece, adoece e apresenta necessidades diferentes em cada fase da vida. Uma relação mais saudável com a saúde exige tolerância a essas variações, sem enxergar qualquer desvio como um problema.

É esperado que, em uma temporada, a pessoa consiga treinar três vezes por semana; em outra, apenas uma; e que, nas férias, ela passe duas semanas longe da academia.

“Um bom hábito geralmente é flexível. Ele contribui, mas aceita interrupções, mudanças e contratempos”, afirma Vinicius.

O problema é que a autocobrança realimenta a dificuldade de cumprir as metas. “A pessoa se cobra, cansa, não realiza tudo e, por isso, cobra-se ainda mais. Em vez de ajustar a expectativa à vida possível, ela eleva o padrão de exigência”, explica o especialista.

Nesse contexto, a procura pelo bem-estar pode gerar uma impressão permanente de não ser suficiente. “Nunca basta estar razoavelmente bem. É preciso estar sempre evoluindo, remendando e refinando algo.”

Esse quadro é difícil de identificar porque se disfarça de responsabilidade. Em vez de notar que a cobrança é alta demais, a pessoa conclui que precisa de mais força de vontade.

Cuidar sem se cobrar

“Não existe corpo que opere bem o tempo todo, mente que jamais se angustie ou rotina que se mantenha organizada todos os dias”, afirma Vinicius. Para ele, o cuidado genuíno envolve reconhecer necessidades, respeitar limites e fazer escolhas possíveis dentro da realidade de cada um.

Assim, o mesmo hábito pode ter sentidos diferentes em diferentes fases. Em certos dias, o exercício é benéfico; em outros, o repouso é mais indicado. Há momentos em que insistir ajuda e ocasiões em que parar é a alternativa mais sensata.

Algumas perguntas auxiliam a perceber essa diferença: esta prática está ajudando ou sobrecarregando?

Para Vinicius, a resposta está nos efeitos produzidos pela prática: “Quando o autocuidado gera mais presença, prazer, disposição e autonomia, tende a ser positivo. Quando desperta medo de errar, rigidez e cobrança constante, provavelmente deixou de ser cuidado.”

A ideia não é abandonar os hábitos saudáveis, mas retomar a liberdade de escolher quais deles são realmente significativos. O corpo não existe para cumprir metas. “Saúde não é subjugar o próprio corpo. É conseguir viver com ele sem tratá-lo o tempo inteiro como algo que precisa de conserto.”

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Redação
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Redação representa o esforço colaborativo de toda a equipe de jornalistas e editores dO Capixaba. Por meio de um trabalho integrado e multidisciplinar, contextualizando as informações e acompanhando as novidades do momento com agilidade e rigor.

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