Todo adulto já passou pela adolescência. No entanto, há algo nessa fase que parece se perder na memória. Frequentemente, olhamos para os jovens atuais como se suas preocupações, ansiedades e desafios fossem apenas uma versão exagerada do que vivemos. Contudo, crescer em um mundo hiperconectado, marcado por crises e pela lógica da excelência, é uma experiência distinta daquela que as gerações anteriores enfrentaram.
O Brasil abriga quase 15 milhões de adolescentes. Esses indivíduos estão em processo de construção de uma vida que se estenderá por mais 60, 70 anos, possuindo, por isso, muito a compartilhar sobre o futuro que se aproxima. A pesquisa “Ado(r)lescência”, realizada pela BALT em colaboração com a AlmapBBDO e apresentada pela pesquisadora Rita Almeida, coletou dados e vozes dessa geração em torno de um diagnóstico pouco confortável para os adultos. Sete em cada dez adolescentes sentem que suas emoções não são levadas a sério. Não por falta de amor. 98% afirmam amar seus pais. Amar e ouvir, no entanto, são aspectos distintos.
Lucas Fraga, responsável pela estratégia e cofundador da BALT, acompanhou de perto o trabalho de campo da pesquisa e acredita que os dados oferecem uma visão sobre mudanças que não se refletem apenas nas estatísticas.
“A adolescência é um período repleto de transformações, em busca de autenticidade e propósito no mundo. É um momento em que a pessoa se define em contraste ao Outro. A psicologia nos ensina que normalmente construímos nossa identidade pela negação: ‘Eu não sou isso, portanto sou aquilo’. Esse Outro é, inicialmente, nossos pais e familiares, mas depois essa configuração se torna mais complexa”, explica.
Segundo ele, a questão principal não reside na tecnologia, embora ela esteja presente no contexto. “O problema é que, em um mundo hiperconectado, onde os adolescentes vivem em bolhas, não existe esse Outro. Dentro das bolhas algorítmicas, as pessoas compartilham as mesmas referências e, com isso, acabam se tornando semelhantes. Sem um Outro, não há identidade. Como se diferenciar e se constituir como pessoa quando se vê, diariamente, milhares de indivíduos parecidos consigo?”
Talvez a questão não seja o que mudou nos adolescentes, mas o que mudou no ambiente em que precisam crescer.
O silêncio também comunica
Quase um terço dos adolescentes revela que a relação com seus pais piorou ao longo da adolescência. Raramente, isso está ligado à falta de afeto. O estudo compila relatos que ilustram essa mesma dinâmica. Quando eles compartilham algo mais profundo, a situação frequentemente termina em discussões ou é desvalorizada. Assim, eles param de se abrir. O silêncio, nesse cenário, funciona como uma forma de proteção contra esses possíveis julgamentos.
O adolescente antecipa o sermão, as comparações com “o meu tempo”, uma interpretação apressada que se baseia apenas na idade e conclui que é mais seguro guardar suas emoções para si. Externamente, os pais mantêm uma perspectiva positiva sobre a convivência. Internamente, o adolescente aprende a se calar.
Lucas Fraga observa que essa dificuldade em escutar não é exclusiva das famílias. É um problema estrutural do momento que vivemos. “O brasileiro, de modo geral, lida com diversas crises: de confiança, de identidade, de propósito. Para o adolescente, que ainda está em formação, essa situação é ainda mais desafiadora”, argumenta.
“Ademais, eles estão imersos em um ambiente digital onde todos falam, mas poucos escutam. Por isso, buscam ser ouvidos e validados, começando pelos pais, que muitas vezes também enfrentam suas próprias crises e estão sobrecarregados nas atividades diárias, resultando em pouco tempo para os filhos. Ouvir um adolescente é complicado, pois requer entrar em um universo distinto, escutando sem pré-julgamentos, o que muitas vezes se torna desafiador. Entender a adolescência de hoje é fundamental para ter uma conversa com os jovens”, complementa Lucas.
O peso de ter que dar certo
O retrato que emerge dos dados é de uma geração que carrega mais do que deveria. Oito em cada dez adolescentes já vivenciaram mudanças abruptas de humor. 66% se sentem solitários por vários dias seguidos. Mais da metade já enfrentou bullying ou cyberbullying. Enquanto muitos adultos imaginam um jovem que “não se importa com nada”, a realidade que eles descrevem é repleta de pressão e medo de fracassar. 61% sentem-se pressionados a ter sucesso e 58% já passaram por crises de ansiedade ou pânico.
A origem desse fenômeno não reside apenas nas redes sociais, embora elas amplifiquem essas questões. Está atrelada a uma lógica de desempenho que, como observou o filósofo Byung-Chul Han, torna as cobranças tão intensas que o próprio indivíduo as internaliza, passando a se exigir ao máximo. Em vez de motivar, a expectativa se torna paralisante. É nesse contexto que surge o adolescente isolado em seu quarto, relutando em se comunicar, preso diante de uma régua que acredita ser inatingível.
Lucas Fraga caracteriza o impacto que essa dinâmica exerce sobre a formação de sua identidade. “As redes sociais apresentam aos adolescentes ideais de identidade, definindo o que é ‘aceitável’ e o que é ‘cringe’. Sem mencionar os adolescentes coaches e influencers mirins que, ainda em tenra idade, já são milionários e bem-sucedidos. Tudo isso gera uma pressão imensa por conformidade e sucesso precoces. O desafio para os adultos é compreender que, para os adolescentes, a vida digital é também vida. Para eles, não há mais separação entre o online e o offline. O que observam nas redes sociais é tão real quanto a realidade física. Às vezes nos esquecemos disso.”
Por que sonhamos menos
Quando questionados sobre seus sonhos, os adolescentes surpreendem. Entre os dez sonhos mais mencionados, oito estão ligados à carreira, aos estudos e à estabilidade. Quando um jovem sonha de maneira tão concreta, almejando um trabalho, uma casa ou uma vida financeiramente estável, ele está respondendo à incerteza que sente internamente. O que antes parecia garantido para uma geração tornou-se incerto, levando o sonho a se ajustar a essa nova realidade.
Lucas Fraga foi profundamente impactado por esse dado durante a apresentação da pesquisa. “Para mim, esse foi o dado mais significativo. Ao ser apresentado o estudo e essa ‘falta de sonhos’ dos adolescentes, refleti sobre que futuro eles projetam para si. Parece que um futuro incerto, onde o que mais importa é a profissão, a carreira e o dinheiro. Acredito que precisamos ajudar os adolescentes a perceber que essa é a fase de sonhar, de imaginar além dos padrões estabelecidos pela sociedade voltada para a performance. Embora seja uma tarefa desafiadora, acredito que envolve apoiar os jovens a explorar novas possibilidades e ampliar seus horizontes, conhecendo melhor o mundo.”
54% afirmam que é muito difícil fazer planos para o futuro. 28% ainda não têm clareza sobre seu papel no mundo. Sonhos limitados restringem exatamente aquilo que a adolescência possui de mais valioso: a capacidade de imaginar outras trajetórias e experimentar opções.
Escutar é diferente de responder
Para fazer um adolescente se abrir, muitas vezes não é suficiente iniciar uma conversa. Rita Almeida, ao compartilhar essa percepção durante um debate que seguiu a apresentação do estudo, foi clara. A técnica consiste em suportar o silêncio. Perguntar “e aí, tudo bem?”, ouvir um “tudo” e resistir à tentação de preencher a pausa. Muitas vezes, é nesse espaço que a conversa realmente começa.
Quem consegue aguentar esse silêncio sem ansiedade tende a ser procurado para ouvir mais tarde.
Lucas Fraga traduz o que essa situação exige na prática, sem romantizar o processo. “O estudo mostra que a melhor abordagem é ouvir. Isso exige paciência, pois os adolescentes nem sempre se expressarão de forma clara. Por vezes, vão ‘comunicar-se’ pelo silêncio ou por frases truncadas. No entanto, estar presente, demonstrar empatia e interesse por suas vidas e problemas é crucial para restabelecer a confiança que eles vêm perdendo. Acredito que essa é a principal atitude que mães, pais e responsáveis podem ter.
O adolescente não espera que o adulto concorde com tudo que diz. Ele espera que suas emoções sejam reconhecidas. Validar não significa abdicar de educar. Significa entender que uma dor pode parecer irrelevante para quem a observa de fora, mas ser imensa para quem a vivencia.
Um dado da pesquisa que merece destaque: 40% dos adolescentes entrevistados já consideraram tirar a própria vida. 37% já se feriram intencionalmente. Esses números demandam uma resposta da sociedade adulta que não se baseie na negação.
A pesquisa conclui lembrando que a vida é longa e que pouco precisa ser decidido agora. Talvez um dos maiores presentes que os adultos possam proporcionar seja devolver aos adolescentes o direito de errar, experimentar e mudar de ideia. Isso começa com uma atitude simples, embora desafiadora: suportar o silêncio o tempo suficiente para que eles encontrem suas próprias palavras.







