O trabalho remoto continua em crescimento nos Estados Unidos. A proporção de profissionais que atuam de casa saltou de 7% em 2019 para 28% em 2023, impulsionada em grande parte pela pandemia de covid-19.
Trabalhar fora do escritório sempre foi uma aspiração de muitos. Entre os benefícios estão um melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional e a redução dos conflitos típicos do ambiente corporativo.
Pesquisas mostram que pessoas aceitam ganhar de 4% a 10% menos para ter a flexibilidade do trabalho remoto. Cerca de 55% dos entrevistados consideram o modelo híbrido o ideal, enquanto 24% preferem o trabalho totalmente remoto. Embora existam diversos estudos sobre o impacto do home office na produtividade, ainda se sabe pouco sobre seus efeitos na saúde mental.
Um novo estudo investigou os hábitos de trabalho, o isolamento social e a incidência de transtornos psicológicos e psiquiátricos em 588.322 pessoas entre 2011 e 2024. Os dados de 2020 e 2021 foram excluídos por representarem o auge da pandemia de covid-19.
Grupos analisados e metodologia
Os participantes foram divididos em dois grandes grupos: trabalhadores que não podem atuar remotamente (como enfermeiros) e aqueles que podem (como programadores). Cada grupo foi subdividido entre pessoas que moram sozinhas e as que vivem com familiares.
Esses quatro segmentos foram acompanhados por 13 anos para responder a duas questões principais: houve aumento do tempo passado sozinho durante a semana? E como evoluiu a frequência de estresse psicológico e doenças mentais em cada grupo?
Os resultados indicam que, antes da pandemia, apenas 10% dos profissionais com cargos passíveis de home office trabalhavam exclusivamente remotamente – número que subiu para 30% após a crise sanitária. Nesse grupo, as horas diárias de solidão aumentaram de 5 para 8.
Entre aqueles que precisam comparecer ao escritório, o trabalho totalmente remoto era de 2% antes da pandemia e passou para 6%. O tempo de isolamento subiu de 4 para 5 horas diárias.
Ou seja, após a pandemia houve um crescimento das horas dedicadas ao trabalho remoto e da solidão em toda a população, inclusive em profissões não classificadas como passíveis de home office – como enfermeiros que levam tarefas burocráticas para realizar em casa.
Nota-se que esses dados incluem tanto quem mora sozinho quanto quem vive em família. A diferença mais marcante ocorreu entre os solitários: 25% dos que podem trabalhar remotamente e moram sozinhos passam o dia inteiro isolados. Já entre os que não podem trabalhar de casa e vivem sozinhos, apenas 6% ficam isolados o dia todo.
Ao cruzar esses dados com medidas objetivas de estresse psicológico – como o teste K9, consultas psiquiátricas e prescrições de ansiolíticos e antidepressivos –, ficou evidente que o aumento das horas de isolamento está correlacionado com sintomas psicológicos e psiquiátricos. Esse efeito é mais acentuado em pessoas que moram sozinhas e trabalham remotamente. Como controle interessante, a prescrição de medicamentos para outras condições, como colesterol alto, não apresentou correlação com as horas de solidão.
A conclusão deste estudo de grande porte, com mais de 500 mil pessoas ao longo de 13 anos, demonstra de forma consistente que o trabalho remoto, com o consequente aumento do tempo de isolamento, eleva a incidência de doenças psiquiátricas e estresse psicológico. De certa forma, esse resultado era esperado, já que o Homo sapiens é essencialmente um animal social que sempre viveu em grupo. Mas uma coisa é pressupor, outra é medir.
Resta a pergunta: por que as pessoas afirmam preferir a solidão do home office? Ainda não se sabe – talvez seja o caos da vida corrida nas grandes cidades. Ou, quem sabe, os efeitos nocivos da solidão aparecem lentamente, enquanto o alívio da pressão do trabalho presencial é imediato quando começamos a atuar remotamente.
Mais informações: Home alone: Remote work, isolation, and mental health. Science https://www.science.org/doi/10.1126/science.aec7671 2026







