Como redescobrir o prazer de cozinhar

O aplicativo está ali, na tela do celular, a dois toques de distância. Você chega em casa exausta, o trânsito foi infernal, o trabalho não terminou. E a pergunta que não sai da cabeça: o que comer? A resposta mais fácil brilha na tela. Mas, dentro de você, uma leve lembrança: aquela sopa que sua avó preparava, o aroma de alho refogado, o contentamento de cozinhar algo com as próprias mãos.

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Em meio à agitação do dia a dia e à conveniência dos aplicativos, muitas pessoas se desconectaram da cozinha. Não por falta de capacidade, mas por falta de perspectiva. Cozinhar se tornou sinônimo de canseira, sujeira, perda de tempo. Mas será que precisa ser assim?

A nutricionista Livia Almeida, do Hospital Samaritano Higienópolis, entende que a questão vai além de simples “preguiça”. “Cozinhar exige planejamento, organização e tempo – recursos que indivíduos com rotinas intensas nem sempre dispõem. E, quando estamos esgotados, qualquer tarefa extra parece um peso.”

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Thays Pomini, também nutricionista, acrescenta:

“A vida ficou mais acelerada do que nossas cozinhas. A jornada de trabalho se estendeu, as cidades têm mais trânsito, e os aplicativos eliminaram a distância entre o desejo e o prato na mesa.”

Ela alerta, porém, que existe um componente emocional por trás disso. “Muitas pessoas relacionam cozinhar a uma obrigação extra em um dia que já parece lotado. Quando se alimentar compete com a exaustão, a praticidade quase sempre vence.”

Os três bloqueios que afastam o prazer da cozinha

Por que tanta gente evita cozinhar mesmo sabendo que faria bem? Thays identifica três razões.

O primeiro é o tempo – ou a impressão de falta dele. “Muitas pessoas subestimam o quanto conseguem preparar em 30 minutos”, explica. Um ovo mexido, uma salada, um arroz fresquinho. Coisas simples que cabem no intervalo entre uma reunião e outra.

O segundo é o perfeccionismo. “A pessoa compara o que faz com o que vê nas redes sociais, se frustra com o resultado e desiste antes mesmo de se permitir tentar.”

A nutricionista lembra que a maioria das refeições nutritivas e saborosas do mundo são simples. Mas ninguém posta a foto de um prato com arroz, feijão e uma saladinha – e isso distorce a realidade.

O terceiro é a falta de prazer. “Cozinhar virou mais uma tarefa na lista do dia, sem nenhum cuidado com o ambiente, com a música, com o contentamento de estar ali.”

E quando fazemos algo apenas por obrigação, sem presença, a experiência se transforma em desgaste.

Livia complementa: “Muitas pessoas pensam que só vale a pena cozinhar se for um prato elaborado, com muitas etapas. A falta de conhecimento e interesse vem justamente dessa idealização.”

Pequenos rituais que mudam a experiência

E se cozinhar deixasse de ser uma obrigação e se tornasse um momento de presença? Thays sugere algo simples: “Acender uma vela, colocar uma playlist que você gosta, preparar uma bebida – esses elementos transformam um ato funcional em um instante de cuidado.”

Livia concorda: “Cozinhar em família, ouvindo um podcast ou música, encarar a cozinha como uma experiência.” Não precisa ser todos os dias. Mas, quando for, que seja com intenção.

“Atividades que envolvem criação manual, foco e resultado ativam o sistema de recompensa do cérebro”, explica Thays.

É por isso que finalizar um prato – mesmo que simples – gera aquela sensação de dever cumprido com gosto.

Comece pelo que você já aprecia (e pelo que já domina)

Não adianta tentar um risoto de açafrão na primeira tentativa. A frustração é quase certa. Livia recomenda iniciar por receitas simples: “Uma panela só, poucos ingredientes, acessíveis e que já façam parte da sua rotina alimentar.” Por exemplo: ovo mexido, legumes salteados, uma sopa.

Thays endossa: “Começar pelo simples com intenção. Um ovo bem feito, uma salada montada com carinho já são vitórias”. E completa: “Quando você começa com receitas acessíveis e consegue o resultado, a confiança cresce. O problema é querer pular etapas”.

Ela sugere alguns preparos quase infalíveis: ovos em todas as versões (mexido, cozido, omelete); arroz e feijão (os queridinhos da cozinha brasileira); refogados simples de legumes na frigideira com azeite e sal; e sopas e caldos – “difíceis de errar, nutritivos, econômicos e acolhedores.”

Planejamento não é burocracia, é liberdade

Uma das maiores queixas de quem não cozinha é: “não sei o que fazer.” A solução, para Thays, é simples e subestimada: planejar as refeições da semana. “Quinze minutos de organização no domingo eliminam decisões estressantes durante a semana.” A pergunta “o que vou comer hoje?” é uma fonte diária de estresse – e uma armadilha que nos empurra para o delivery.

Livia reforça: “Fazer as compras de forma antecipada, separar um tempo para não precisar fazer tudo às pressas, definir se as funções serão divididas – tudo isso ajuda a gerenciar expectativas e evitar sobrecarga.”

E o ambiente da cozinha importa. “Uma cozinha desorganizada gera confusão antes mesmo de começar”, diz Thays. “Iluminação, organização visual, utensílios que a pessoa gosta de usar – tudo isso comunica ao cérebro que aquele é um espaço de prazer.”

Cozinhar como terapia

Os benefícios de cozinhar vão muito além da nutrição. Thays aponta: “Cozinhar regularmente está associado a maior sensação de autonomia, autoeficácia e bem-estar emocional.”

Quando preparamos nossa própria comida, retomamos o controle sobre o que colocamos no corpo – e isso é empoderador.

Mas quando a cozinha se torna coletiva, o efeito se multiplica. “Cozinhar com um amigo, preparar um jantar para a família, ensinar uma receita para alguém – isso vira linguagem afetiva”, diz Thays.

“Refeições compartilhadas fortalecem relações e promovem pertencimento, dois pilares fundamentais da saúde emocional.”

Livia resume numa frase bonita: “Cozinhar também é um ato de amor e uma forma de criar memórias. Tempo de qualidade, atenção plena, fortalecimento de laços.”

Um convite para errar (e aprender)

Se você ainda enxerga a cozinha como uma obrigação, Thays dá um conselho:

“Desconstruir a ideia de que cozinhar é mais uma coisa na lista e começar a entender como um dos poucos momentos do dia em que você está cuidando de si.”

Escolha um dia da semana, prepare uma receita que você aprecia, sem pressa. “A obrigação vira prazer quando a experiência começa a ser agradável – e isso não acontece de uma vez, mas ao longo de tentativas.”

Livia encerra com uma metáfora interessante: “Encare a cozinha como um laboratório de experiências. Nem tudo dá certo. Mas até os erros são válidos e nos direcionam para resultados melhores. Afinal, só ficamos bons naquilo que praticamos com frequência.”

Dicas para começar

  • Comece pelo que você já gosta de comer: aprender a preparar um prato favorito é muito mais motivador do que seguir uma receita aleatória;
  • Monte uma despensa básica e funcional: azeite, alho, sal, ervas secas, ovos, grãos e legumes versáteis garantem refeições simples sem depender de ingredientes específicos;
  • Planeje as refeições uma vez por semana: quinze minutos de organização no domingo eliminam decisões estressantes durante a semana;
  • Crie um ritual em torno do momento: música, uma bebida que você gosta, transformar o ambiente – isso muda completamente a experiência;
  • Permita-se errar: o prato que não ficou bom ensina mais do que qualquer receita perfeita. Cozinhar é prática. E prática, com o tempo, vira prazer.
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Redação
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Redação representa o esforço colaborativo de toda a equipe de jornalistas e editores dO Capixaba. Por meio de um trabalho integrado e multidisciplinar, contextualizando as informações e acompanhando as novidades do momento com agilidade e rigor.

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Daniel Bones

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