Quando se ultrapassa a soleira de uma porta, o corpo abandona o estado de alerta. Os pensamentos diminuem seu ritmo, dando vez à tranquilidade, os ombros se soltam como se estivessem envoltos por um abraço, e até o olhar passa a perceber o mundo com mais encanto. Na rotina, a nitidez dos pensamentos corre como um rio de águas cristalinas, e as oportunidades parecem surgir naturalmente.
No entanto, existem espaços que não despertam essa sensação de calmaria. Mesmo sem um motivo claro, as situações parecem emperrar. É nesse contexto que emergem os atritos, as escolhas não seguem o curso desejado e aquele rio límpido se metamorfoseia em uma poça após a tempestade: parada, e por vezes sujando os sapatos, dificultando o avanço.
Em 1999, Sandra Strauss, escritora do livro “A Cabala da Casa” (Hanoi Editora), concretizou o desejo de adquirir um imóvel diante do mar, mas constatou que uma sequência de problemas surgiu durante as obras. O marceneiro faliu, a marmoraria encerrou as atividades, o pedreiro desapareceu e até a empresa que importava os móveis da cozinha quebrou. Os prejuízos financeiros foram enormes e, além disso, ela e o marido começaram a ficar doentes com frequência. O que antes era uma realização, converteu-se em um desafio que perdurou por mais de um ano.
Incomodada com tudo que ocorria, Sandra foi conversar com os vizinhos. Foi quando descobriu que, antigamente, o apartamento havia sido consumido pelo fogo, ironicamente, em uma Quarta-Feira de Cinzas. Para ela, tornou-se evidente que o histórico do imóvel ainda reverberava ali e, assim, optou por realizar uma reconfiguração energética no local.
A residência como reflexo pessoal
Foi por meio de anos dedicados ao estudo da Cabala — uma tradição de origem judaica que investiga o funcionamento do universo através da interação entre energia, consciência e matéria — e de sua experiência como engenheira que a autora decidiu combinar o “prático ao prazeroso” em um método que denominou Chi Le Shalom, que significa “receber a paz”, no idioma hebraico.
“Do mesmo modo que uma casa possui sistemas elétrico e hidráulico, ela também contém uma rede energética, que não é visível, mas existe. O lar é um ser vivo e, assim como nós temos corpo e alma, ele também os possui.”
Segundo Sandra, ocorre uma permuta contínua das vibrações entre a pessoa e sua residência, tornando o lar quase uma extensão de quem se é. Portanto, quando o espaço é tratado energeticamente, a existência dos moradores também tende a prosperar. “É um ciclo de cura recíproca, onde o bem-estar do local e o das pessoas avançam juntos.”
O diagrama simbólico da Cabala
A técnica fundamenta-se na Árvore da Vida, constituída por dez sefirot (plural de sefirá), que, na Cabala, são interpretadas como forças ou emanações através das quais a energia divina se expressa. Para compreender isso, é útil imaginar uma árvore invertida. As raízes estão no alto, conectadas à origem de tudo como uma energia que ainda não possui forma. A partir daí, um fluxo energético desce pelo tronco, adquire substância e estrutura, até atingir os galhos e as folhas, mais próximos do chão. É nesse instante que o que era abstrato começa a se manifestar na vida concreta.
Cada cômodo, uma vibração
Para implementar a Cabala da Casa, o primeiro passo é determinar os pontos cardeais da sua moradia. A especialista recomenda posicionar-se no centro do imóvel e utilizar uma bússola para identificar direções como norte, sul, leste e oeste. A partir disso, cada área do lar é associada a uma sefirá da Árvore da Vida e a um tema, como família, profissão, relacionamentos, descanso ou clareza mental.
Após esse mapeamento, chega a fase de reorganizar a energia dos ambientes com o auxílio das 22 letras do alfabeto hebraico, que, conforme o método, funcionam como símbolos de intenção. Na prática, elas podem ser desenhadas em quadros, adesivos ou mesmo em post-its e colocadas acima de portas, janelas ou nos cantos dos cômodos. A ideia é fortalecer, naquele espaço, a energia que se deseja cultivar:
Leste — Keter: convicção, fé e esperança
Por ser onde o sol nasce, carrega a energia de início, renovação e propósito. Ambientes voltados para essa direção geralmente convidam à introspecção, ao silêncio e à conexão interior. Para fortalecê-lo, podem ser usadas letras como Alef (א), símbolo de unidade, clareza e ligação com o essencial; He (ה), associada à expansão e respiração; e Dalet (ד), ligada à abertura de caminhos.
Sudeste — Chochma: sabedoria, intuição e prosperidade
Essa área dialoga com a capacidade de gerar valor e identificar oportunidades. Quando o espaço está energeticamente fluindo, a vida prática tende a funcionar melhor. Os caracteres Gimel (ג), Lamed (ל) e Tzadi (צ) podem auxiliar a fortalecer esse local: o primeiro está relacionado ao movimento, circulação e troca; o segundo, ao crescimento, elevação e aprendizado; e o terceiro aponta para o desenvolvimento e prosperidade com significado.
Nordeste — Bina: família e potencial criativo
Está ligado ao lar e à família, mas também à compreensão profunda que analisa, compara e dá coerência às ideias. Em equilíbrio, essa energia favorece os laços familiares, o sentimento de pertencimento, a criatividade e a capacidade de materializar o que ainda está surgindo. Nesse ponto, podem ser utilizados símbolos como Bet (ב), que remete à casa, estrutura e base; Vav (ו), voltada à continuidade e vínculos; e Yod (י), associada ao potencial e ao início da criação.
Sul — Chesed: amor, compaixão e sucesso
Relaciona-se tanto aos relacionamentos quanto à forma como você se apresenta ao mundo. Em equilíbrio, pode fortalecer os vínculos e a autoestima. Nesse caso, aparecem letras como Shin (ש), que representa intensidade, energia e transformação; Resh (ר), ligada ao movimento e reposicionamento; e Kaf (כ), que corresponde à realização e capacidade de agir.
Norte — Guevura: trabalho e disciplina
Atrelada à estrutura do cotidiano, rotina e constância, essa vibração dialoga com a capacidade de manter hábitos e processos. Quando as energias estão fluindo, favorece foco e organização. Para isso, podem ser usados símbolos como Mem (מ), relacionado ao fluxo contínuo e adaptação; Samekh (ס), sustentação e estabilidade; e Tet (ט), que simboliza organização interna e contenção.
Sudoeste — Netsach: ação e determinação
É o impulso para avançar, persistir e continuar, mesmo diante de obstáculos. Um ambiente equilibrado pode estimular iniciativa e constância. Para essa direção, são sugeridos os símbolos Nun (נ), que remete à continuidade e resistência; e Tzadi (צ), associada à ação com propósito.
Noroeste — Hod: evolução e comunicação
Esse eixo trata de como você elabora, organiza e comunica o que vive. Quando flui bem, pode favorecer raciocínio, planejamento e expressão. Aqui, podem ser utilizados Resh (ר), que simboliza o reposicionamento mental; e Samekh (ס), relacionada à estrutura e sustentação.
Oeste — Malchut: concretização e resultados
Aqui é onde tudo se torna realidade. Malchut fala do que se materializa e é a última fonte de energia da Árvore da Vida. Um espaço organizado e funcional pode ajudar a tirar planos do papel. Nesta direção, entram símbolos como Tav (ת), que representa conclusão; e Kaf (כ), símbolo de ação e realização.
Centro — Tiferet: equilíbrio e conduta justa
Depois de percorrer todos os pontos, chega-se ao coração da residência. Quando esse espaço está leve, tende a trazer uma sensação de bem-estar geral. Nesse local, podem ser usados símbolos como Tav (ת), ligado à conclusão e integração; Nun (נ), associado à renovação e regeneração; e Pe (פ), que fala de expressão e liberação do que estava preso.
No interior da casa e de si mesmo
No método, cada cômodo se torna propício para tratar um aspecto específico da vida. Se a cozinha fica no nordeste, por exemplo, é ali que questões ligadas à família podem ser trabalhadas. Da mesma forma, quando a mente está confusa ou há a sensação de que a vida não está fluindo, vale direcionar a atenção para o lado leste, das certezas e convicções. Sandra sugere parar por alguns instantes, observar o espaço e mentalizar a letra do alfabeto hebraico indicada para aquele ponto. “Elas têm uma vibração que desperta uma energia específica tanto no ambiente quanto internamente”, afirma. Por isso, não basta colocar os símbolos nos locais indicados e esperar que algo mude sozinho. Segundo ela, é preciso acreditar, mentalizar e participar do processo. “A ideia é ativar a intenção na casa, mas também dentro de si.”







