O ministro Márcio Elias Rosa, titular da pasta de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, desembarcou na Índia para buscar novos acordos comerciais em um cenário marcado pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
A missão, que se estende até o dia 7 de agosto, tem como proposta ampliar o acesso de empresas brasileiras ao mercado indiano e reforçar a presença do país na região, segundo comunicado oficial do ministério. O itinerário do ministro inclui passagens por Mumbai, Delhi e Jaipur.
Segundo Márcio Elias, diante de uma onda global de medidas restritivas ao comércio, o Brasil permanece firme na defesa do multilateralismo e na abertura de novos mercados para suas empresas e produtos. Ele destacou que a Índia é o segundo maior mercado consumidor do planeta e um parceiro comercial relevante, com corrente de comércio superior a US$ 15 bilhões em 2025, e que, com apoio da Apex Brasil, responsável por organizar os encontros do ministro no país, a expectativa é ampliar ainda mais esse relacionamento.
Em Mumbai, a agenda inclui reuniões com conglomerados empresariais como Reliance Industries e Aditya Birla Group, com o objetivo de atrair investimentos para o Brasil. Já em Nova Délhi, o foco estará nos setores de defesa, tecnologia, equipamentos industriais, automação e bens de consumo, com um almoço previsto com empresas brasileiras como Embraer, Weg, Perto, CBC e Tramontina, para mapear desafios e oportunidades de expansão no mercado indiano. Ainda na capital, o ministro deve se reunir com instituições e empresas locais dos setores privado, de fertilizantes, comércio e infraestrutura, entre elas a Confederation of Indian Industry, principal entidade do setor privado indiano, além da IFFCO, do State Bank of India e do Adamo Group. Para Márcio Elias, essas reuniões podem abrir portas para novas oportunidades comerciais e de investimento para o empresariado brasileiro, além de fomentar parcerias em áreas estratégicas.
A agenda na Índia também contempla temas ligados ao BRICS, grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia e China, além de África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. O ministro vai representar o Brasil em reuniões com autoridades da Índia, China, Emirados Árabes Unidos, Rússia, Egito e África do Sul, com discussões voltadas à resiliência industrial, ao desenvolvimento sustentável, ao fortalecimento de micro, pequenas e médias empresas, a cadeias globais de valor mais robustas e diversificadas, ao comércio digital e à preservação do sistema multilateral de comércio. Segundo o ministro, o objetivo dessas reuniões é estreitar o diálogo econômico e comercial, identificar oportunidades para ampliar o comércio bilateral e estimular maior integração entre empresas brasileiras e mercados estratégicos.
A recente escalada tarifária dos Estados Unidos levou o Brasil a buscar novos destinos para seus produtos, dentro de um plano de R$ 130 milhões que começa a ser executado neste mês, segundo o governo federal. Especialistas avaliam que o BRICS pode representar um caminho de diversificação no cenário internacional, embora essa mudança de rota enfrente obstáculos consideráveis, com resultados concretos esperados apenas no médio e longo prazo.
A nova sobretaxa de 25% entrou em vigor no dia 22 e se soma às tarifas que já incidiam sobre os produtos afetados, medida anunciada por recomendação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos e baseada em investigação fundamentada na Seção 301 da Lei de Comércio americana. A apuração, iniciada depois que o presidente Donald Trump anunciou, em julho de 2025, uma tarifa de 50% contra produtos brasileiros, analisou políticas do Brasil ligadas a comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, acesso do etanol americano ao mercado brasileiro e combate ao desmatamento ilegal. Segundo o órgão americano, a investigação identificou práticas consideradas nocivas aos interesses comerciais dos Estados Unidos, o que levou Trump a autorizar a resposta tarifária.
O governo americano argumenta que as políticas brasileiras geram condições desiguais de concorrência, citando o tratamento dado ao Pix, que na visão do USTR beneficiaria o sistema de pagamentos brasileiro em detrimento de empresas americanas, além de barreiras à entrada do etanol dos Estados Unidos e regimes tarifários preferenciais concedidos pelo Brasil a países como México e Índia. Washington não pretende extinguir o Pix, mas defende que o sistema dispute o mercado em condições igualitárias com companhias americanas. Outro ponto levantado pelos Estados Unidos é a política ambiental brasileira, já que, segundo o USTR, o Brasil tem legislação de combate ao desmatamento, mas falha na aplicação efetiva dessas normas, o que geraria insegurança jurídica e distorções comerciais.
Apesar da nova rodada de sobretaxas, itens como café e carne bovina ficaram fora da medida. O documento do USTR também prevê dezenas de exceções para produtos essenciais à economia americana ou sem fornecedores alternativos suficientes, como alguns farmacêuticos, pescados, couros, ferro-gusa, mel orgânico, hidróxido de alumínio e componentes da indústria aeronáutica. Os Estados Unidos esperam ter acesso aos mesmos regimes preferenciais que o Brasil concede a outros parceiros e defendem uma relação comercial pautada pela reciprocidade, ao mesmo tempo em que sinalizam atenção a eventuais respostas do governo brasileiro.







