Iniciar em um novo emprego, aprender a dirigir, matricular-se em uma academia ou tocar um instrumento: qualquer atividade inédita pode despertar insegurança e receio. É provável que você se sinta vulnerável nessa posição de aprendiz, pois o cérebro é colocado diante de um cenário desconfortável — não saber exatamente o que fazer.
“Gostamos de previsibilidade, domínio e sensação de controle. Ao assumir uma função diferente, perdemos temporariamente essa segurança”, explica a psicóloga Adriana Santiago. Mesmo assim, é frequente chegar ao primeiro dia de uma atividade com a intenção de executar tudo de maneira impecável.
Influenciados por uma cultura em que tudo precisa acontecer de forma imediata, esquecemos que diversas competências só se constroem por meio da vivência, dos erros, das repetições, das correções e de novas tentativas. “A expectativa não se encaixa no tempo real da aprendizagem”, afirma a especialista.
De onde vem a autocobrança
Compreender que existe um processo natural de aprendizado não elimina as emoções. Ainda assim, é possível sentir vergonha por não conseguir realizar algo logo de primeira. Adriana esclarece que isso acontece porque nossas respostas emocionais não são formadas apenas pelo que sabemos agora, mas também pela nossa trajetória.
Quem cresceu recebendo muita valorização pelo desempenho pode ter aprendido que falhar é sinônimo de decepcionar alguém ou perder reconhecimento. A autocobrança também pode estar ligada à necessidade de aprovação, ao medo de errar e à ideia de que precisamos provar rapidamente nossa competência. “O que deveria ser um período de descoberta acaba se transformando em uma espécie de prova permanente.”
Uma etapa natural do aprendizado
Enquanto adquirimos uma habilidade nova, o cérebro constrói e fortalece determinadas conexões neurais. Por isso, é natural ter dúvidas, esquecer etapas, precisar perguntar novamente, levar mais tempo e ficar mentalmente cansado. Essas dificuldades integram o processo de aprendizado e não devem ser interpretadas como sinal de incapacidade.
Com a repetição, as tarefas tendem a exigir menos esforço e podem até se tornar automáticas. O problema, segundo a especialista, é que uma dificuldade momentânea pode ser confundida com um traço pessoal: em vez de reconhecer que algo ainda está em construção, surge a sensação de não ser capaz.
“Existe uma enorme diferença entre essas duas formas de enxergar. O ‘ainda’ abre espaço para o desenvolvimento. Já o ‘não sou capaz’ fecha a porta antes mesmo de o cérebro concluir a reforma.”
Por isso, um ponto importante é falar consigo da mesma forma que falaria com alguém que ama. “Muitas pessoas são extremamente compreensivas com os erros dos outros e absolutamente impiedosas com os próprios.”
Transforme o erro em autoconhecimento
Aprender pressupõe tentativa, correção e recomeço. Portanto, é necessário parar de encarar o erro como uma sentença. Ele pode atuar como informação: apontar uma estratégia que precisa ser ajustada, um conhecimento que ainda não se consolidou, a necessidade de mais atenção ou até de uma orientação extra.
Isso não significa romantizar as falhas nem deixar de assumir a responsabilidade pelo ocorrido. A ideia é converter o erro em uma pergunta e compreender o que pode ser feito de modo diferente na próxima vez.
Volte o olhar para a própria trajetória
Avaliar o próprio desempenho com base em pessoas mais experientes tende a ampliar a autocobrança, pois gera uma perspectiva injusta consigo mesmo. “Comparamos o nosso início com o meio da história de outra pessoa”, explica Adriana.
Isso ocorre porque a facilidade costuma vir de quem provavelmente já repetiu a tarefa centenas de vezes. “Nós vemos a execução pronta, mas não presenciamos os erros, as dúvidas, as perguntas e os tropeços que aconteceram antes. É como entrar hoje em uma academia, olhar para alguém que treina há dez anos e concluir: ‘Realmente, musculação não é para mim’.”
Fazer comparações pode ser útil quando serve como referência, em vez de instrumento de punição. Nesses casos, vale trocar a pergunta “por que ele consegue e eu não?” por “o que essa pessoa já aprendeu que eu ainda estou aprendendo?”.
Reflexões simples e voltadas apenas para a própria trajetória também auxiliam. Por isso, questione-se: “O que hoje consigo fazer que há duas semanas não conseguia?”, “O que ficou um pouco mais fácil?” e “O que ainda preciso aprender?”.
Adriana também recomenda registrar pequenas conquistas, já que o cérebro tende a focar mais no que deu errado. “Às vezes, alguém evoluiu muito, mas continua dizendo: ‘Não estou melhorando’. Quando olhamos para trás com algum método, percebemos que várias coisas que hoje fazemos automaticamente já foram extremamente difíceis.”







