Após o turbilhão gerado pelo anúncio do governo norte-americano que estabeleceu novas tarifas contra o Brasil, é hora de refletir sobre o episódio. Para o economista, diplomata e ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos Brics, Marcos Troyjo, trata-se de uma política comercial dirigida ao mundo todo, e não especificamente ao Brasil.
Como costuma fazer, Troyjo sustenta a análise com números. Segundo ele, 85 países, além de Hong Kong, estão sob investigação do escritório de representação comercial dos Estados Unidos, o USTR. Esse conjunto de países soma um PIB nominal de 86 trilhões de dólares, o equivalente a 98% da economia global quando os Estados Unidos são excluídos do cálculo. Para o economista, a política comercial adotada pelo presidente Donald Trump desde o retorno à Casa Branca é global, e ele passou a usar de forma inédita instrumentos de defesa comercial já previstos na legislação americana.
Ainda assim, Troyjo avalia que o Brasil combinou certa morosidade e indiferença ao negociar com os Estados Unidos com um fato político relevante, a preferência pública do governo brasileiro pela candidatura da democrata Kamala Harris à Presidência americana. Para ele, essa postura não ajudou o país nas negociações. Nesse contexto, oportunidades acabaram sendo perdidas, como no caso do etanol. Na avaliação do economista, se o Brasil tivesse construído uma aliança estratégica com a Índia e também com os Estados Unidos, o combustível poderia ter se tornado uma commodity global, especialmente num momento em que a comunidade internacional demonstra desconfiança em relação à predominância chinesa na área de eletromobilidade. Para Troyjo, o governo brasileiro não soube se favorecer dessa janela.
A decisão americana deve ter impacto direto sobre o agronegócio nacional. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil estima que 32,9% das vendas do setor para os Estados Unidos serão afetadas pela nova tarifa de 12,5%, somada à sobretaxa anterior de 25%.
Na conversa, Troyjo também defende que o mundo entrou em um novo cenário, que ele chama de ESG 2.0, expressão usada para indicar que economia, segurança e geopolítica ganharam um protagonismo inédito no cenário mundial. O economista pretende aprofundar esse estudo agora que se tornou fellow do Centro de Estudos Internacionais do Massachusetts Institute of Technology, o MIT.
Segundo ele, essa nova dinâmica não significa o desaparecimento da agenda ambiental, social e de governança, a sigla ESG em sua forma original. Ela ainda estaria presente, mas já não ocuparia o centro das decisões globais. Para Troyjo, é difícil apontar um marco exato dessa mudança, que pode ter começado no primeiro mandato de Trump, durante a pandemia de Covid-19, ou com o acirramento da disputa entre Estados Unidos e China. O fato, segundo ele, é que hoje os temas de economia, segurança e geopolítica prevalecem sobre os demais. Como evidência dessa mudança, ele cita a programação das últimas edições do Fórum Econômico Mundial e o conteúdo das cartas anuais de Larry Fink, fundador da gestora de ativos BlackRock.







