Um ano após o lançamento do Crédito do Trabalhador, modalidade de empréstimo consignado voltada a empregados com carteira assinada, 74% dos trabalhadores que aderiram ao programa têm dois ou mais contratos ativos de consignado privado, segundo estudo da Serasa Experian.
Pelas regras do programa, o trabalhador pode contratar até nove empréstimos e comprometer até 35% do salário-base, limite que inclui benefícios, abonos e comissões. Entre quem contratou um segundo empréstimo, 29% passaram a pagar juros mais altos do que os cobrados na primeira operação. A pesquisa analisou 191.798 contratos de empréstimo consignado privado vinculados a 88 empresas, considerando operações realizadas até abril de 2026 em 61 instituições financeiras.
O levantamento também aponta que 54,6% dos consumidores com múltiplos empréstimos contrataram operações em bancos diferentes, o que indica maior diversificação das instituições financeiras utilizadas. Os dados mostram ainda que o Crédito do Trabalhador avançou principalmente entre operações de menor valor. Do total de contratos firmados no primeiro ano da modalidade, 44% foram de até R$ 1.500, faixa em que a taxa média mensal ficou 7% acima da registrada em operações anteriores de maior valor e prazo mais longo. Já os empréstimos acima de R$ 20 mil representaram apenas 1,9% das operações analisadas, com juros médios menores e prazos mais extensos.
Délber Lage, CEO da SalaryFits, empresa da Serasa Experian, afirma que o avanço da modalidade ampliou o acesso ao crédito e aumentou tanto a frequência de contratação quanto a diversificação das instituições financeiras usadas pelos trabalhadores. O estudo identificou ainda sinais de maior demanda por crédito entre quem aderiu ao programa. Entre eles, 68% tiveram entre duas e cinco consultas ao CPF nos últimos seis meses, e 69% possuem algum tipo de restrição financeira ativa. Na avaliação de Lage, esse crescimento precisa vir acompanhado de mais conscientização dos consumidores, já que a educação financeira e a transparência sobre taxas e condições serão fundamentais para a evolução saudável do mercado.
Um levantamento da Abefin, realizado em parceria com o Instituto Axxus de Pesquisas, ligado à Unicamp, reforça esse diagnóstico. A pesquisa, feita com 800 entrevistados, mostra que 83% dos trabalhadores que contrataram o Crédito do Trabalhador não sabem quanto estão pagando de juros. Além disso, 69% disseram não ter avaliado os impactos da contratação sobre o orçamento familiar, 54% afirmaram não ter recebido qualquer orientação antes de assumir a dívida e 36% usaram o consignado para quitar outras dívidas, como cartão de crédito e cheque especial. Entre os que apenas simularam a contratação, 58% disseram não buscar nem pretender buscar orientação sobre educação financeira.
Para Reinaldo Domingos, presidente da Abefin e da Dsop Educação Financeira, o aprimoramento recente das regras do Crédito do Trabalhador precisa ser acompanhado de iniciativas de educação financeira. Segundo ele, facilitar a contratação sem ampliar essa educação pode transformar uma solução momentânea em um ciclo permanente de endividamento. Domingos observa que muitos trabalhadores avaliam apenas o valor da parcela mensal e deixam de considerar o custo total do financiamento, o que cria uma falsa sensação de segurança e pode comprometer a renda por muitos anos. Para ele, o crédito deve funcionar como ferramenta de planejamento, não como solução automática para problemas recorrentes.
O Crédito do Trabalhador é um modelo de empréstimo consignado que dispensa a necessidade de convênio entre empresa e banco para quem trabalha com carteira assinada. As parcelas são descontadas diretamente do salário, e o saldo do FGTS serve como garantia de pagamento, o que reduz o risco de inadimplência para os bancos e permite taxas de juros menores do que as praticadas no mercado. A criação dessa modalidade é vista como uma das principais pautas econômicas do governo Lula para ganhar popularidade, especialmente junto à classe média.
Podem solicitar o novo consignado trabalhadores com carteira assinada, incluindo empregados domésticos, trabalhadores rurais, assalariados e microempreendedores individuais. A garantia de pagamento inclui até 10% do saldo do FGTS do trabalhador e toda a multa rescisória em caso de demissão sem justa causa, equivalente a 40% do valor do saldo. Quem optou pelo saque-aniversário do FGTS pode se manter nessa modalidade e, ao mesmo tempo, solicitar o novo empréstimo consignado nos bancos.







