A escravidão estética nunca acabou

A pressão estética sobre nós, mulheres, não nasceu no Instagram. Ela sempre existiu. Só mudou de roupa. Durante muito tempo, fomos ensinadas a cuidar da aparência como parte de uma espécie de currículo para conseguir um “bom partido”, um bom casamento, um homem que pudesse garantir estabilidade e status. A beleza era também uma moeda social.

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Hoje, muita coisa mudou. Nós conquistamos independência financeira, estudamos, trabalhamos, ocupamos espaços que antes nos eram negados. Mas o capitalismo descobriu uma maneira bastante eficiente de continuar ganhando dinheiro com a nossa insegurança. Agora não basta ser bonita. É preciso ser magra, mas com bunda; sarada, mas feminina; ter peito; cintura fina; pele sem marcas; cabelo impecável; cílios perfeitos; unhas feitas; dentes perfeitos. Se houver alguma coisa que possa ser preenchida, afinada, levantada, alongada, harmonizada ou artificialmente melhorada, haverá um mercado disposto a vender a solução.

E nós pagamos.

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Pagamos caro para tentar alcançar um padrão que nunca termina. Porque, quando finalmente chegamos perto de um ideal, o mercado já inventou outro. E nem precisamos chegar aos grandes procedimentos para perceber o quanto essa conta pesa. Basta olhar para as pequenas “obrigações” estéticas incorporadas à nossa rotina: fazer as unhas, cuidar do cabelo, comprar maquiagem, produtos para a pele, depilar-se, manter sobrancelhas, cílios, roupas e acessórios dentro de determinados padrões. Até a roupa íntima revela uma diferença curiosa: nós saímos de casa usando calcinha e sutiã, enquanto muitos homens resolvem praticamente tudo com uma cueca. Só nisso já daria para reivindicar um adicional de estética para nós, não?

É claro que cada mulher deve poder fazer o que quiser com o próprio corpo. O problema começa quando aquilo que parece uma escolha individual é atravessado por uma expectativa social tão poderosa que deixar de cumprir suas exigências passa a ser interpretado como desleixo, falta de cuidado ou até falta de feminilidade. E existe uma contradição enorme nisso tudo.

A mulher conquistou independência, mas continua sendo pressionada a gastar parte significativa do próprio dinheiro para se adequar a um padrão que, em geral, não é cobrado dos homens na mesma intensidade. Ou seja: trabalhamos para conquistar autonomia e, ao mesmo tempo, somos incentivadas a devolver uma parte dessa autonomia ao mercado — e também à lógica dos relacionamentos. Porque não basta ter dinheiro, independência e uma vida própria: precisamos continuar bonitas, jovens, desejáveis e dentro do padrão para não correr o risco de “não conseguir um homem à altura”. Como se a nossa aparência fosse uma espécie de cartão de crédito afetivo. Como se, para ter acesso a um homem considerado interessante, bem-sucedido ou bonito, também precisássemos apresentar um corpo à altura. E assim a conta fica ainda mais perversa: trabalhamos para ter independência, mas somos ensinadas a gastar parte dessa independência para continuar sendo consideradas desejáveis. O mercado vende a insegurança e, muitas vezes, os próprios relacionamentos ajudam a manter essa engrenagem funcionando.

No fim das contas, se tentarmos atender a todas as expectativas que nos são impostas, talvez não sobre quase nada do nosso salário. A máquina capitalista percebeu que não precisava mais nos dizer apenas: “fique bonita para conseguir um marido”. Encontrou uma frase muito mais sofisticada:

“Faça isso por você.”

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores armadilhas. Porque, quando uma sociedade inteira nos ensina desde meninas que nosso corpo precisa ser constantemente corrigido, melhorado e aperfeiçoado, fica difícil distinguir o que realmente queremos daquilo que aprendemos a desejar. E tem uma coisa que sempre me intriga: quem decidiu o que é bonito?

Antigamente, ter seios grandes já foi considerado feio, exagerado, vulgar. Hoje, em determinados padrões estéticos, ter pouco peito parece ser um problema a ser resolvido com silicone. Então eu fico pensando: daqui a vinte anos, se a moda for arrancar os peitos, a gente vai arrancar?

Gente, eu sou meio teimosa.

Não costumo andar muito a favor da maré do capitalismo, das modinhas e desse desejo permanente de pertencer. Particularmente, não acho bonito aquilo que fica muito artificial. Unhas enormes de gel, cílios que parecem ter saído de um desenho animado, sobrancelhas tatuadas que parecem desenhadas com régua… Não é muito a minha praia. E eu sei que existem pessoas que precisam ou desejam determinados procedimentos por razões absolutamente legítimas. Não estou aqui para julgar a escolha de ninguém. O que me incomoda é outra coisa: É a imposição. É o exagero. É a transformação de uma escolha em obrigação. É o mercado nos convencendo de que, para pertencer, precisamos comprar alguma coisa.
E quanto mais inseguras ficamos com nosso próprio corpo, mais lucrativa se torna a nossa insatisfação.

Outro dia, conversando sobre ter ou não silicone — e sobre todas as nuances dessa decisão —, em determinado momento comecei a fazer contas. Não apenas financeiras, mas de vida. E pensei:
“Eu quero viajar com o corpo que eu tenho.”
Porque a viagem me daria uma sensação que ninguém poderia tirar de mim. Uma memória, uma experiência, uma história para contar. O silicone poderia me fazer feliz também. Não há nada de errado nisso. Cada mulher deve ter o direito de decidir sobre o próprio corpo. Mas, se eu tivesse que escolher entre uma coisa e outra naquele momento, o que eu escolheria?

Eu escolheria a viagem.

E não porque colocar silicone seja errado. Mas porque, naquele instante, percebi que talvez a liberdade também esteja em escolher onde quero colocar meu dinheiro, meu tempo e minha energia. Eu não preciso transformar meu corpo para me sentir pronta para viver. Eu posso simplesmente viajar com o corpo que tenho.

Porque essa busca não termina nunca. Sempre haverá uma nova ruga, uma nova medida, uma nova tendência, um novo procedimento, uma nova parte do corpo que alguém dirá que precisa ser corrigida.

E, se a busca nunca termina, talvez seja importante perguntar para onde estamos direcionando a nossa vida enquanto tentamos chegar a um corpo que nunca será considerado suficientemente perfeito.

Por isso, convido a nós mesmas a parar diante do espelho e perguntar:
O que estamos enxergando quando olhamos para nós? Estamos enxergando o nosso corpo ou tudo aquilo que nos ensinaram que ele deveria ser? A quem estamos nos comparando? Com quem estamos concorrendo? E, principalmente:
Será que o nosso valor está mesmo apenas na aparência?

Talvez a verdadeira liberdade também esteja em olhar para o espelho e reconhecer uma mulher que não precisa estar em permanente disputa com outras mulheres, com o tempo, com o mercado ou com um padrão impossível.
Porque talvez a pergunta mais importante não seja: “O que ainda preciso mudar em mim?”
Mas:
“Quem me convenceu de que eu precisava mudar?”
E talvez, entre gastar para parecer melhor e investir em experiências que nos fazem sentir vivas, possamos escolher, algumas vezes, a segunda opção.

Viajar com o corpo que temos. Amar com o corpo que temos. Viver com o corpo que temos.

Porque o corpo é nosso e a vida também.

E você, o que acha disso tudo? Até onde uma escolha estética é realmente uma escolha, e quando ela passa a ser apenas o preço que pagamos para pertencer?

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Caroline Pignaton
Caroline Pignaton
É formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Comunicação e Territorialidades pela mesma instituição. Assina o Diário da Feminista Depilada, um espaço de crônicas afiadas, sinceras e atravessadas pela experiência de uma mulher 40+, jornalista, feminista e mãe. Na coluna, episódios de machismo — dos mais sutis aos mais escancarados — ganham forma e linguagem, revelando como essas violências se intensificam e se tornam ainda mais cruéis a partir da maternidade. Um diário conduzido por ironia, crítica e afeto, para quem já se cansou de fingir que não vê.

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