Nas últimas semanas, um debate recorrente nas redes sociais escancarou um sintoma alarmante da nossa época: o resgate de um revisionismo histórico apologético que tenta pintar instituições teocráticas do passado como benfeitoras desinteressadas da ciência, da cultura e dos Direitos Humanos. Diante de críticas fundamentadas sobre os excessos do clericalismo na Idade Média e no período colonial, surgem vozes apressadas tentando reduzir séculos de censura, tribunais inquisitoriais e monopólio do saber a meros “clichês de professores”. Essa tentativa de suavizar o terror institucionalizado não é apenas ignorância historiográfica; é um projeto político e ideológico que ameaça as bases da nossa democracia secular.
A história séria, pautada em registros e no consenso acadêmico, não nega que a Igreja Católica manteve bibliotecas e fundou as primeiras universidades europeias. O ponto central, contudo, é compreender para quem e sob quais condições essa estrutura funcionava. A preservação cultural exercida pelo clero operava como um filtro ideológico severo, desenhado para centralizar o poder hegemônico e sufocar qualquer conhecimento que ameaçasse o dogma teocêntrico. O surgimento do Index Librorum Prohibitorum e a condenação de mentes brilhantes como Nicolau Copérnico e Galileu Galilei não foram “desvios pontuais”, mas a demonstração prática de uma engrenagem de coerção que mantinha o saber sob rédeas curtas.
No Brasil, esse projeto eclesiástico-colonial deixou marcas profundas que explicam grande parte das nossas mazelas sociais contemporâneas. A narrativa de que a laicidade ou a expulsão dos jesuítas geraram o analfabetismo no país oculta o fato de que, por mais de três séculos, a estrutura escravocrata e latifundiária proibiu expressamente a população negra e indígena de acessar a instrução formal. Os jesuítas não trouxeram a democratização do ensino, mas um processo de aculturação e apagamento dos povos originários, atuando em aberta consonância com o tráfico negreiro sob a justificativa de que o cativeiro do corpo salvava a alma. A verdadeira ciência, a agronomia e a tecnologia trazidas pelos africanos escravizados foram apropriadas, enquanto suas identidades e humanidade foram sistematicamente negadas.
Quando observamos civilizações pré-colombianas e povos ancestrais, fica evidente a falácia do eurocentrismo. Muito antes do colonizador europeu desembarcar no continente carregando armas e dogmas, as sociedades das Américas e da África já dominavam a astronomia, a medicina natural, a engenharia e o manejo complexo do solo. Rotular essas fés e saberes como “primitivos” ou “supersticiosos”, enquanto se eleva a teologia europeia ao status de ciência suprema, é uma forma de eugenia cultural que ainda repercute no racismo estrutural dos dias de hoje.
A grande contradição do fundamentalismo moderno é que a própria liberdade de opinião que esses grupos utilizam nas redes sociais só existe porque o Iluminismo e as revoluções democráticas romperam o monopólio eclesiástico sobre a vida pública. O Estado Laico não existe para proibir a fé; ele é o único garantidor de que a religião pertença ao foro íntimo do indivíduo, impedindo que dogmas confessionais governem a legislação civil ou intimidem crenças minoritárias. A verdadeira evolução social não virá da nostalgia por tempos de censura e teocracia, mas do compromisso inegociável com a ciência, a memória histórica e a laicidade.






