Empreendedorismo no Brasil: A espoliação da população periférica e favelada

No Brasil, o empreendedorismo é a espoliação da população periférica e favelada, preocupa-me a facilidade com que se adere ao discurso da microeconomia, do esforço individual e do livre jogo de mercado, como se o sucesso dos negócios dependesse apenas do talento e da organização das pessoas, ou como se o mercado funcionasse unicamente por leis naturais de formação de preço e competitividade. Essa ingenuidade, que se apoia na ideologia do empreendedorismo e na narrativa do “negócio próprio” e da “vida boa sem patrões”, pouco revela sobre o funcionamento da economia capitalista. Ela ignora que o acaso e a sorte sempre beneficiam a pequena burguesia, os pequenos e médios empreendedores e a massa dos Microempreendedores Individuais (MEIs) — a nova classe empresarial brasileira, que se responsabiliza por tudo. Em contrapartida, o grande capital jamais investirá sem pesquisa e análise de grandes escritórios e assessorias de investimentos, contando sempre com o apoio político e econômico do próprio Estado.

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Um exemplo disso é a recente aprovação do Governo do Estado do Espírito Santo para a doação de uma área de 1,74 milhão de m² (equivalente a cerca de 240 campos de futebol) em Aracruz, no Norte do Estado, para a instalação do complexo automotivo da montadora chinesa Great Wall Motors (GWM). Tudo isso ocorre em nome do emprego, da renda, do trabalho e da prosperidade, mas raramente em direção aos microinvestidores e à agricultura familiar. O Plano Safra 2026/2027, por exemplo, disponibilizou um montante total de R$ 610,3 bilhões, dos quais R$ 525,1 bilhões foram destinados à agricultura empresarial e apenas R$ 85,2 bilhões para o Pronaf (agricultura familiar), mesmo com taxas de juros menores e um foco ampliado em sustentabilidade.

Continuamos frustrando sonhos e alimentando decepções na medida em que não permitimos, a partir das informações hoje refinadas, que as pessoas — especialmente as mais vulneráveis no jogo do mercado — compreendam como funciona a microeconomia e como ela se articula à macroeconomia. Tampouco se reconhece que as relações sociais e políticas estruturam o mercado, distanciando-o da neutralidade neoliberal vendida. Ao final, nós, pertencentes à base, com o sonho de empreendedorismo, autonomia e liberdade, buscando fugir do trabalho precário e dos baixos salários, tornamo-nos consumidores de insumos, máquinas, consultorias e créditos que são, novamente, drenados para os grandes capitais. Somos lançados em uma concorrência alucinante local e submetidos a endividamentos com fornecedores e bancos, mesmo aqueles supostamente sociais.

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Fonte:Terra

Um caso ilustrativo é o de uma mulher que fez sucesso vendendo bolos tradicionais, formando filas em uma rua de Campo Grande, Cariacica-ES. Meses depois, em outros municípios da região metropolitana, já haviam surgido negócios semelhantes, e logo a febre se espalhou pelo Brasil, tal como o doce morango do amor que viralizou nas redes sociais e na internet. Esse tipo de concorrência, ao final, pode levar ao fim o negócio que investe em qualidade como diferencial, pois os pequenos empreendedores não têm força política ou meios ilegais para impor a monopolização dos preços de mercado, como fazem os oligopólios capitalistas.

Acredito que precisamos discutir abertamente que o conceito de empreendedorismo não é autoevidente nem positivo em si mesmo. Ser empreendedor, já ensinava Schumpeter, não é necessariamente ser capitalista, aquele que vive da espoliação das inovações técnicas e tecnológicas que, para surgirem, precisam de investimento — no tempo de Schumpeter, além do Estado, também dos bancos. Enfim, para que uma atitude empreendedora ou inovação emerja, ela precisa ser protegida, cercada de apoio e sustentabilidade, ou seja, retirada da lógica de acumulação e derrogação do capitalismo, cujo interesse é o ganho, o lucro e o movimento do capital.

A Feira das Quitandeiras, realizada pela Prefeitura do Rio Grande( Largo Dr. Pio, no Centro de Rio Grande)

O que queremos dizer é que é um erro político e um absurdo técnico e econômico afirmar às pessoas, especialmente às mais pobres, que o empreendedorismo é resultado do esforço individual e das leis de mercado. A história econômica das nações que lideram as grandes economias complexas é outra, como denuncia diariamente Paulo Gala. Sugiro a leitura da “Teoria da Escada”, cunhada pelo economista sul-coreano Ha-Joon Chang, para denunciar essa hipocrisia das nações ricas e das elites dirigentes subordinadas aos interesses da economia global. Elas abriram mão do planejamento econômico e do desenvolvimento autônomo, submetendo suas sociedades a uma profunda desindustrialização e transformando-as em mercado consumidor de tecnologia e plataforma de produção de commodities de baixa complexidade econômica e tecnológica, infinitamente mais baratas que os produtos tecnológicos e industrializados de ponta.

Diante desse quadro econômico e político nacional e internacional, resta dizer que o empreendedorismo sem amparo institucional, financeiro e econômico — desprovido de um planejamento de longo prazo e de prioridades nacionais de desenvolvimento dentro de uma perspectiva de sustentabilidade, equidade e pluralidade, associado a uma política de Defesa Nacional — transforma-se em uma máquina de esmagar sonhos. Ele drena recursos e poupanças construídas com duro trabalho durante anos, fazendo dos investimentos uma roleta russa. Nela, os poucos que vencem são apenas a prova da exceção, que é o êxito; são raros cases ou ilhas de sucesso em um mar bravio de insucessos.

Isso faz com que até mesmo os movimentos sociais, em suas diferentes demandas e pautas, acabem caindo na retórica da mídia, governamental, empresarial e social de que o problema está nos indivíduos e na forma como organizam suas pequenas empresas. Talvez, esses setores entusiastas do salvacionismo empreendedor também acreditem que os bebês se desenvolverão perfeitamente sem o auxílio de seres humanos e seus cuidados. Precisamos parar com o discurso fácil e de fazer publicidade do que já foi escrito e pensado por outras pessoas antes de nós. Por que fazer sofrer uma geração inteira, mentindo para elas que, dentro da economia capitalista, concentracionária, individualista, expansionista e competitiva, conseguirão resolver suas vidas apenas com entusiasmo pessoal e esforço individual?

O liberalismo só vira ideologia — e é isso que ele se torna na retórica empreendedora — quando se deseja universal e aplicável em todos os lugares, como se o mundo fosse a Avenida Brigadeiro Faria Lima, a Avenida Paulista, Wall Street, Canary Wharf, Sandton ou Lujiazui. É preciso lembrar um ensinamento do irmão José Santiago, da Umoja, de que nós, das periferias, favelas e cortiços, especialmente os negros e negras, precisamos buscar meios, instrumentos e caminhos para produzir riqueza. Não devemos apenas nos tornar funcionários dos nossos próprios negócios, gastando a vida para comprar e consumir objetos que nos consomem e gastando o que sobra para manter de pé negócios que, em grande maioria, não produzem um bem-viver estável. Precisamos seguir por outras direções, quem sabe novas formas de organizar a economia, que podem ser descobertas na leitura de seu livro, onde faz profundas reflexões entre os mundos africanos e a economia através do Ubuntu e da economia da empatia.

“O eixo do capital se desloca para o Oriente não porque o Ocidente faliu, mas porque o Oriente aprendeu a juntar Estado, Banco e Tecnologia na mesma mesa.”

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Igor Vitorino da Silva
Igor Vitorino da Silva
Professor, historiador e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (/PPHIS/UFPR). Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES e do LHIPU – IFES/Campus Vitória-ES

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