Uma polêmica recente envolvendo a cantora Xuxa, em razão de sua participação em uma série de shows pelo Brasil, trouxe à tona uma questão que nós, mulheres, conhecemos bem: ainda há quem se incomode quando uma mulher decide continuar ocupando espaços, especialmente quando ela já passou dos 50, dos 60 ou dos 70 anos.
E é justamente por isso que essa discussão dialoga tanto com o trabalho do Instituto Mulheres no Poder, que defende a presença de mulheres nos espaços de gestão e de poder político e econômico, com igualdade de oportunidades e tendo como critérios a capacidade, a competência e o preparo.
Competência não nos falta. As mulheres estudam, trabalham, empreendem, lideram equipes, sustentam famílias, ocupam universidades, empresas, hospitais, escolas, tribunais, pesquisam e estão em tantos outros espaços.
Ainda assim, muitas vezes precisamos provar mais, explicar mais e enfrentar julgamentos que pouco têm a ver com aquilo que realmente importa: a nossa capacidade de realizar. E isso não depende de fama, dinheiro ou posição social.
Quando uma mulher conhecida mundialmente é criticada por sua roupa, por seu corpo ou por sua idade, talvez seja importante olhar para além daquela situação. Porque, se isso acontece com uma mulher que alcançou reconhecimento e sucesso, podemos imaginar o peso que esse julgamento exerce sobre tantas outras mulheres anônimas, que enfrentam diariamente o etarismo, o machismo e a cobrança permanente sobre seus corpos e suas escolhas.
A sociedade ainda é especialmente dura com o envelhecimento feminino. Homens maduros podem continuar trabalhando, se apresentando, usando shorts, camisetas, roupas ousadas ou simplesmente vivendo como sempre viveram, sem que sua idade seja necessariamente transformada em assunto.
Quando uma mulher faz o mesmo, muitas vezes surge a pergunta: “Ela ainda pode?”
Pode.
Pode trabalhar. Pode se divertir. Pode se vestir como quiser. Pode dançar. Pode empreender. Pode liderar. Pode disputar uma eleição. Pode ocupar uma cadeira no Legislativo. Pode governar. Pode recomeçar. Pode, simplesmente, continuar sendo dona da própria história.
Os números também mostram a dimensão dessa responsabilidade. As mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros e estão à frente de uma parcela expressiva dos lares do país, muitas vezes como principais responsáveis pela renda e pelo cuidado dos filhos.
Ainda assim, seguimos sub-representadas nos espaços onde as decisões são tomadas, o cenário político nacional, cujas decisões impactam a vida de todas nós.
O sonho não é substituir homens por mulheres. É construir um país em que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades de chegar onde o preparo, o trabalho e a vontade os levarem.
Que nós, mulheres, também possamos abrir caminhos para outras mulheres. Que sejamos aquelas que estendem a mão, e não aquelas que fecham portas. Que possamos celebrar a conquista de outra mulher sem perguntar se ela “já passou da idade”. Que reconheçamos sua competência antes de julgarmos sua aparência.
E, sobre a Xuxa, que ela siga fazendo aquilo que escolheu fazer. Quanto à roupa, às pernas, à idade e ao corpo dela, há uma solução muito simples: cada um cuida do seu.
No fim das contas, talvez seja disso que estejamos falando: do direito de uma mulher escolher como quer viver a própria vida e do direito de todas nós ocuparmos os espaços que conquistamos.
Porque quando uma mulher avança, ela não tira o lugar de outra. Ela pode estar abrindo caminho, encorajando outras a realizarem sonhos, recomeçarem e percorrerem novos caminhos. Que assim seja.
Juntas, somos mais fortes.







