Luis Felipe Woyceichoski, capitão encarregado do iate de luxo onde Daniel Vorcaro promovia eventos particulares em Angra dos Reis, afirmou que sofreu ameaças de morte depois de documentar os prejuízos causados à embarcação pelo ex-banqueiro e seus acompanhantes.
Conforme depoimentos e registros acessados pela Polícia Federal (PF), o próprio Vorcaro solicitou que “A Turma” – coletivo composto por ex-policiais, milicianos e contraventores do jogo do bicho, especializado em coagir desafetos – “fosse pra cima” do capitão.
De acordo com os documentos disponibilizados pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), sete indivíduos se dirigiram à marina à procura de Woyceichoski, exigindo “filmagens do barco, registros de imagem e anotações no diário de bordo referentes a situações que, na visão deles, comprometiam a segurança da embarcação e dos ocupantes”.
À PF, o capitão relatou que foi admitido pela empresa Solar Administração em janeiro de 2023 para supervisionar a construção do “Solar I”, um iate de três pavimentos e 133 pés, utilizado exclusivamente por Vorcaro em Angra dos Reis, na Costa Verde. De acordo com Woyceichoski, a convivência com o ex-banqueiro era amistosa, porém seu hábito de notificar o “uso inadequado da embarcação” durante as festas gerou atritos entre eles.
“Por exemplo, uma convidada do Daniel usou jet ski e colidiu levemente na popa do barco, depois bateu na escada. Eu registrei o momento. Também tinha o caso das mulheres que passavam bronzeador e se deitavam no estofado perto da piscina, deixando manchas. A gente ficava preocupado, porque logo depois a esposa dele chegava e perguntava: ‘Quem usou esse estofado?’”, detalhou Woyceichoski. “Eu ficava numa situação extremamente constrangedora.”
Conforme as apurações da PF, Vorcaro contatou Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, em 28 de maio de 2024. Na ocasião, solicitou que A Turma apurasse os dados do capitão, argumentando que precisavam “ir pra cima”. A motivação foram as gravações realizadas durante as festas no iate em Angra. Ele também pediu que ameaçassem o chefe de cozinha Leandro Garcia da Silva, mas enfatizou que “o principal é o primeiro”, referindo-se ao capitão.
Dias depois do diálogo com Mourão, Vorcaro reenviou um vídeo gravado por Leandro e instruiu Sicário a ir a Angra “com Fabiano e com polícia”. O tal Fabiano é Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro.
De acordo com o relato prestado à PF, Woyceichoski estava em São Paulo quando amigos o alertaram por telefone que havia “gente muito esquisita” e vestida como “paralimitar” perguntando por ele.
Logo em seguida, ele atendeu a uma chamada de alguém que se apresentou como Manoel, afirmando ser amigo de Daniel Vorcaro. O interlocutor indagou o que Woyceichoski tinha contra o ex-banqueiro e declarou também ser empresário, porém não “formal como Vorcaro”, pois “mexia com jogo do bicho”. Posteriormente, a PF identificou o homem como Manoel Mendes Rodrigues, um operador do jogo do bicho.
O capitão do iate explicou que os registros feitos possuíam “caráter operacional”, servindo para prestar contas ao advogado e à diretora de operações da empresa para a qual trabalhava.
“Ele [Manoel] começou a demonstrar de maneira bastante intimidatória que conhecia meu passado, que me viu no centro de Angra, sabia o horário em que eu entrava, que eu estava com minha esposa e que eu havia sido agente prisional em Goiás”, contou o capitão em seu depoimento à PF.
Cerca de um mês após as intimidações, Woyceichoski foi desligado da função e deixou Angra dos Reis.
A investigação destaca que Vorcaro “usou sua posição de liderança para iniciar medidas de constrangimento e intimidação contra indivíduos funcionalmente ligados à embarcação Solar I, após tomar conhecimento de gravações e diante da possibilidade de existirem registros sensíveis feitos a bordo”.






