ONU: América Latina sofre efeitos do aumento da temperatura terrestre e oceânica, ciclo hidrológico mais instável e recuo das geleiras

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgou um novo relatório alertando para os impactos severos do aumento das temperaturas terrestres e oceânicas na América Latina e no Caribe. O documento, intitulado “Estado do Clima na América Latina e no Caribe em 2025”, aponta para um ciclo hidrológico mais instável, o recuo acelerado das geleiras e a intensificação de eventos extremos como as principais consequências das mudanças climáticas na região.

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Impactos do calor recorde e do ciclo hidrológico extremo

O calor recorde representa um agravamento dos riscos à saúde pública. As ondas de calor intensas e recorrentes, com temperaturas superiores a 40°C, afetaram vastas áreas da América do Norte, Central e do Sul em 2025. Estima-se que aproximadamente 13.000 mortes anuais sejam atribuíveis ao calor em 17 países da região entre 2012 e 2021, um número que sugere uma subestimação significativa. A integração de alertas meteorológicos ao planejamento de saúde é vista como uma necessidade urgente.

Um ciclo hidrológico mais extremo intensifica tanto secas quanto inundações. Nos últimos 50 anos, as chuvas na região se tornaram mais irregulares, com períodos de seca mais longos e eventos de chuva mais concentrados. O centro do Chile, o nordeste do Brasil e partes da América Central e do Caribe estão se tornando mais secos, enquanto a América Central e o norte da América do Sul, como Colômbia e Venezuela, registram chuvas mais intensas. Em 2025, as inundações no Peru e Equador afetaram mais de 110 mil pessoas, e o México registrou 83 mortes por inundações em outubro, além do mês de junho mais chuvoso já registrado, contrastando com uma seca que cobriu até 85% do país.

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Furacões intensificados e recuo das geleiras

Furacões que se intensificam rapidamente colocam à prova a preparação e a resposta das comunidades. O furacão Melissa, o primeiro de categoria 5 a atingir a Jamaica, exemplifica essa ameaça. Embora tenha causado 45 mortes e prejuízos econômicos de cerca de 8,8 bilhões de dólares, o uso de modelos de risco de alta qualidade pelas autoridades jamaicanas ajudou a limitar vítimas e a enfrentar a crise.

O recuo das geleiras ameaça o abastecimento de água a longo prazo. As geleiras andinas são uma reserva hídrica crucial para aproximadamente 90 milhões de pessoas, fornecendo água para consumo, energia e agricultura. Dados recentes mostram perdas aceleradas de gelo nas altas montanhas do sul dos Andes e em geleiras tropicais da Colômbia e do Equador. A combinação da perda de gelo com o aumento da demanda por água e a limitada capacidade de adaptação, especialmente em comunidades rurais, torna a segurança hídrica na cordilheira um dos desafios mais prementes da América Latina.

O aquecimento dos oceanos e a acidificação

O aquecimento e a acidificação contínuos dos oceanos estão agravando os riscos para os ecossistemas marinhos e a pesca. A América Latina responde por 8,8% do litoral mundial, e o oceano absorve grande parte do calor e dióxido de carbono gerados pela atividade humana. Em 2025, o pH da superfície oceânica atingiu níveis recordes de baixa em partes do Atlântico e do Pacífico, e ondas de calor marinhas extremas ocorreram no Golfo do México, no Mar do Caribe e na costa do Chile. Ao longo da costa atlântica, o nível do mar está subindo mais rápido que a média global em regiões do Atlântico tropical e do Caribe.

A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, destacou que os sinais das mudanças climáticas são inconfundíveis na região, desde o derretimento das geleiras até a rápida intensificação de ciclones. Ela afirmou que, embora os riscos estejam aumentando, a capacidade de antecipação e ação também cresce, sendo fundamental transformar dados em proteção para as comunidades. O relatório foi lançado em Brasília, Brasil, e contou com a colaboração de dezenas de especialistas de instituições como o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta Precoce de Desastres Naturais (CEMADEN) e parceiros da ONU.

As condições meteorológicas e climáticas extremas também afetam diretamente os sistemas agroalimentares, impactando a produção agrícola, os meios de subsistência rurais e o acesso aos alimentos. O relatório ressalta a necessidade de fortalecer as observações e garantir que as informações climáticas cheguem a quem mais precisa.

Temperaturas

O período de 1991 a 2025 apresenta a tendência de aquecimento mais acentuada desde 1900, com cerca de 0,26°C por década na América do Sul e 0,25°C na América Central e Caribe. O México registrou a taxa mais rápida, de 0,34°C por década. A temperatura média anual em 2025 ficou entre a quinta e a oitava mais quente já registrada. Recordes de calor foram quebrados, como 52,7°C em Mexicali, no México, e diversas ondas de calor ultrapassaram 40°C a 45°C em toda a América Central, com registros de 44°C no Rio de Janeiro e 44,8°C no Paraguai.

Precipitação

As chuvas na região tornaram-se mais extremas, oscilando entre secas e inundações, com períodos de seca mais longos e eventos de chuva mais intensos. Enquanto o Chile central, o nordeste do Brasil e partes da América Central ficam mais secos, o sudeste da América do Sul (sul do Brasil, Uruguai e norte da Argentina) registra aumento na precipitação anual e inundações mais frequentes. A região amazônica apresenta um quadro misto, com estações secas mais longas e chuvas mais intensas.

Recuo das geleiras

As geleiras andinas são uma importante reserva hídrica. Conjuntos de dados mostram perdas aceleradas nas altas montanhas do sul dos Andes e em geleiras tropicais. A convergência entre perda de gelo, aumento da demanda por água e capacidade limitada de adaptação representa um dos desafios mais urgentes para a segurança hídrica na região.

Oceano

O oceano absorve calor e dióxido de carbono, resultando em acidificação e aquecimento que afetam ecossistemas marinhos, recifes de corais e a pesca. As taxas de elevação do nível do mar na costa atlântica estão acima da média global em partes do Atlântico tropical e do Caribe.

A OMM conclui que o relatório é um chamado à ação, exortando a fortalecer observações e investir em serviços para preencher lacunas de alerta antecipado.

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