Cabelos descartados em salões ganham novo destino em um projeto que busca reduzir a presença de poluentes na água.
Fios que normalmente seriam descartados em salões de beleza viram mantas para conter a poluição em drenos de Gurugram, na Índia. O material é recolhido, processado e transformado em barreiras instaladas em pontos com água poluída.
A iniciativa é liderada por Rahul Gupta, fundador da Kesakambali Foundation. O método aproveita as propriedades naturais do cabelo para reter óleo, gordura e parte dos resíduos presentes na água.
Como o cabelo vira uma barreira contra a poluição
O trabalho começa nos salões parceiros da Kesakambali Foundation. Os fios cortados são coletados e enviados a unidades de processamento, onde passam por um procedimento que os converte em mantas mais densas. A organização informa que mantém parceria com mais de 700 salões e já produziu mais de 100 produtos a partir do cabelo recolhido.
As mantas integram o chamado HydroHair Barrier System. Elas são posicionadas em estruturas instaladas na água e ajudam a reter resíduos conforme o fluxo atravessa a barreira. De acordo com o Times of India, o cabelo é capaz de absorver a gordura e ainda retém parte dos sólidos presentes na água.
A solução não demanda eletricidade nem produtos químicos para funcionar. A proposta é criar uma etapa extra de contenção antes que a água poluída siga para outros pontos.
Teste mostrou redução de alguns contaminantes
A fundação testou o sistema em um dreno de águas pluviais de Gurugram. Amostras da água foram coletadas antes e depois da passagem pela barreira e analisadas em um laboratório independente credenciado.
Segundo o Times of India, a DBO (demanda bioquímica de oxigênio) caiu de 143 mg por litro, na entrada, para cerca de 80 mg por litro, na saída. O teste também apontou alterações nos níveis de DQO (demanda química de oxigênio), sólidos suspensos totais e coliformes fecais.
Há, porém, uma limitação relevante: a água que passou pelo sistema ainda não atingia todos os padrões exigidos para descarte. Dessa forma, a tecnologia não substitui estações de tratamento de esgoto e deve ser encarada como uma solução complementar.
Em entrevista ao CNBC-TV18, Rahul Gupta reforçou esse ponto ao afirmar que o sistema não foi pensado para substituir as estações, e sim para auxiliar na redução de parte da poluição antes que a água chegue a essas estruturas.
O que acontece com as mantas depois do uso
Após absorver os poluentes, as mantas não podem simplesmente ser descartadas como lixo comum. O destino final varia conforme o tipo de material retido.
Mantas contaminadas com substâncias perigosas podem ser encaminhadas para processos adequados de geração de energia a partir de resíduos. Aquelas com resíduos orgânicos passam por tratamento biológico e se transformam em material para cobertura do solo.
O uso de cabelo para absorver óleo, no entanto, não começou na Índia. Organizações como a Matter of Trust trabalham há anos com mantas feitas de cabelo e outros pelos para absorver óleo, mantendo uma rede internacional de parceiros, da qual Rahul Gupta faz parte.
Projeto brasileiro também usa cabelo contra óleo
Projeto desenvolvido no Brasil testa o uso de cabelo humano e bagaço de cana-de-açúcar para absorver óleo diesel da água.
No Brasil, estudantes criaram uma proposta semelhante. O CaneHair Mat, apresentado na Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), combina cabelo humano e bagaço de cana-de-açúcar para formar um material capaz de adsorver óleo diesel presente na água.
Conforme a página oficial do projeto na Febrace, os ensaios utilizaram diesel S-500 e indicaram uma taxa média de adsorção de aproximadamente 110% para o cabelo, enquanto o bagaço de cana alcançou cerca de 67%. Os responsáveis ressaltam, no entanto, que ainda é necessário testar as mantas em condições mais próximas das situações reais para avaliar seu desempenho.







