Hoje, um irmão de farda foi assassinado por um foragido da Justiça.
Segundo as informações divulgadas sobre a ocorrência, o homem, ao tentar fugir da prisão, tomou a arma do policial e efetuou dois disparos contra sua cabeça, deixando-o incapacitado. Mesmo assim, não cessou a violência: continuou atirando contra o outro policial que estava no local. Na troca de tiros, o agressor foi morto. Mas levou consigo a vida de um policial.
Há quem, de seus gabinetes e comentários de ocasião, sustente que o policial não pode atirar contra uma pessoa desarmada. Especialistas de plantão costumam analisar a atuação policial a partir de uma fotografia congelada, distante da adrenalina, da incerteza e dos segundos que podem separar a vida da morte.
Eu não estava naquela ocorrência. Não sei exatamente o que aconteceu. Não seria responsável afirmar o contrário.
Mas sei de uma coisa: hoje pela manhã, saí para trabalhar e iniciei uma ocorrência semelhante. Um indivíduo com mandado de prisão foi localizado e preso. Cumpri minha missão e voltei para casa.
Meu irmão de farda não teve a mesma sorte. Ao localizar o alvo que procurava, foi agredido e brutalmente assassinado.
E talvez seja justamente essa a parte que quem está de fora não compreenda: a mesma atividade que, em uma ocorrência, termina com uma prisão, em outra pode terminar com um policial morto.
Não existe roteiro.
Hoje, um jovem de apenas 28 anos não voltará para casa depois de mais um longo dia de serviço. Não verá sua família. Não estará presente nos pequenos momentos da rotina. Não porque deixou de cumprir sua missão, mas porque cumpriu.
Nós, policiais, talvez banalizemos o risco porque convivemos com ele diariamente. Saímos de casa, vestimos a farda, entramos na viatura e seguimos para mais uma ocorrência. Fazemos isso tantas vezes que o perigo passa a parecer parte natural da rotina.
Mas não é. A frequência com que colocamos a nossa vida em risco não torna a nossa atividade menos mortal.
Escrevo isso enquanto meu marido está na rua, trabalhando pela sociedade, outro policial militar. E eu estou aqui, como tantas outras esposas, mães, pais, filhos e familiares de policiais: torcendo e orando para que ele volte para casa.
Porque é exatamente isso que a família do Soldado Carvalho queria. Que ele voltasse.
Há uma contradição que precisa ser encarada com seriedade. O criminoso reiteradamente envolvido com delitos, com diversas passagens e foragido da Justiça, pode agir como se não tivesse nada a perder.
Nós temos tudo a perder.
Temos família. Temos filhos, pais, companheiros, amigos. Temos uma vida esperando pela nossa volta.
E, quando um policial militar cai, um pedaço da Polícia Militar também morre. Todos nós sentimos.Todos nós morremos um pouco. Porque sabemos que poderia ser qualquer um de nós.
Por isso, não se trata de defender violência indiscriminadamente. Não se trata de ignorar a lei, os protocolos ou a responsabilidade que o policial carrega ao empregar a força.
Trata-se de compreender que o policial também tem direito à vida.
Que o uso legítimo e proporcional da força não pode ser tratado como algo a ser evitado a qualquer custo pelo medo de uma futura responsabilização, quando a própria situação exige uma resposta para preservar vidas.
A análise jurídica é necessária. A apuração dos fatos é indispensável. Mas também precisamos ter responsabilidade para não transformar o policial, que diariamente é colocado diante do risco, em alguém que precisa escolher entre agir e, depois, ser julgado por ter sobrevivido.
Dói muito porque uma família perdeu um filho. Dói porque colegas perderam um irmão. Dói porque uma instituição perdeu um dos seus. E dói porque sabemos que amanhã pode ser a nossa vez de atender a uma ocorrência aparentemente comum que, em poucos segundos, se transforma em uma luta pela própria vida.
Seguiremos. Não porque seja fácil. Não porque não tenhamos medo. Mas porque fizemos uma escolha.
Seguiremos também por você, Soldado Carvalho, que tombou cumprindo sua missão.
Seguiremos para honrar a farda que vestimos. Seguiremos para proteger aqueles que muitas vezes nem sabem o risco que enfrentamos por eles.
Servir e proteger. Mesmo que, um dia, isso possa significar o sacrifício da própria vida.
Que Deus conforte sua família, receba sua alma e dê força aos irmãos de farda que hoje carregam a dor de mais uma ausência.
Talvez não exista outra profissão em que se perca tanto para proteger quem, muitas vezes, sequer sabe o preço que foi pago para mantê-lo seguro.
Quando um policial cai, todos nós morremos um pouco.







