A perimenopausa, que é o período que precede a menopausa, é caracterizada por grandes flutuações hormonais, incluindo a do estrogênio, que afetam diretamente o humor, o sono e a cognição. Muitas mulheres não têm conhecimento sobre essa conexão, o que pode agravar condições de ansiedade e depressão. Este artigo destaca a relevância de reconhecer essa transição hormonal para a saúde mental, promovendo uma abordagem holística da saúde feminina.
- A perimenopausa envolve flutuações hormonais que impactam o cérebro.
- O estrogênio afeta humor, sono, memória e resposta ao estresse.
- Históricos pessoais e familiares de depressão demandam atenção especial nessa fase da vida.
- É fundamental considerar a saúde mental durante a transição para a menopausa.
- A perimenopausa requer uma visão integrada da saúde feminina, evitando fragmentações.
Quem nunca se deixou levar por um choro desproporcional e, no dia seguinte, percebeu que estava prestes a menstruar? Uma propaganda na televisão, uma discussão que em outra ocasião poderia ser irrelevante. A menstruação chega, e logo vem a constatação quase automática: “Ah, era isso”. Desde cedo, mesmo sem entender a biologia, aprendemos que os hormônios podem afetar o humor.
A gravidez também traz essa percepção novamente. Muitas mulheres experimentam um aumento na sensibilidade, ansiedade e irritação. Após o parto, algumas enfrentam episódios graves de depressão. Já discutimos a TPM. Recentemente, o foco na saúde mental materna tem aumentado.
No entanto, outra grande transição hormonal na vida feminina, da qual raramente se ouve falar, é a menopausa. Ou, mais precisamente, os anos que a precedem.
A perimenopausa, que é o estágio que antecede a última menstruação, é um período em que a atividade ovariana deixa de ser regular. O estrogênio não desaparece abruptamente. Antes de atingir níveis muito baixos após a menopausa, ele oscila consideravelmente. O cérebro, que passou décadas sob a influência desse hormônio, também percebe essas mudanças.
Essa informação, definitivamente, teria causado um impacto significativo na vida de muitas mulheres.
Diante da depressão
A avó de uma mulher que narra sua experiência lidava com depressões severas. Aos 34 anos, ela enfrentou depressão pós-parto. Aos 38, em 2009, teve sua primeira crise de pânico enquanto estava no camarim da TV Record, onde apresentava um programa ao vivo diariamente. Restava cerca de uma hora para o início da transmissão.
Aqueles que a veem sorridente podem se surpreender com essa narrativa. Contudo, seu corpo a forçou a prestar atenção a si mesma. Ela recorda daquele dia com clareza. Já havia saído de casa sentindo-se mal. Ao adentrar o camarim, suas pernas falharam. Ela caiu e conseguiu se arrastar até o telefone, ligou para uma produtora e, ofegante, disse: “Estou morrendo”. Era uma crise de pânico.
Faltava uma terceira peça para completar aquele quebra-cabeça. Entre os 40 e 47 anos, viveu várias recaídas de depressão. Algumas delas impactaram profundamente seu trabalho, seus relacionamentos, suas escolhas e sua perspectiva sobre o futuro.
Ninguém a alertou de que, precisamente naquela idade, uma transformação hormonal significativa também estava se processando. E muito menos que uma mulher com histórico pessoal e familiar de depressão precisava de atenção especial.
Isso não implica que a perimenopausa tenha provocado suas depressões. A depressão é uma condição complexa. Fatores genéticos, experiências de vida, traumas, estresse, sono, relações sociais e outras condições de saúde se inter-relacionam.
O que se sabe hoje é que a transição para a menopausa pode representar um período de vulnerabilidade acrescida para algumas mulheres.
Relação entre cérebro e hormônios
Para compreender essa dinâmica, é essencial associar o estrogênio dos ovários ao cérebro. Durante um longo período, a ligação foi estabelecida principalmente com a reprodução. Depois, as discussões se ampliaram para incluir ossos, vagina, pele, vasos sanguíneos e coração.
Entretanto, existem receptores de estrogênio também no cérebro. O estradiol, considerado o principal estrogênio durante a fase reprodutiva, impacta sistemas que se relacionam ao humor, ao sono, à memória, à cognição e à resposta ao estresse. Os hormônios sexuais também interagem com neurotransmissores fundamentais para a regulação do humor, como a serotonina.
Então, por que discutimos hormônios e estado mental quando uma mulher enfrenta a TPM ou após o parto, e quase nada sobre isso quando chega aos 40 anos?
A menopausa é um marco. Porém, antecipadamente, na perimenopausa, o estrogênio pode oscilar, afetando os ciclos menstruais, a temperatura corporal, o humor, a concentração e o sono. Portanto, seria equivocado atribuir toda tristeza apenas aos hormônios, assim como ignorar completamente sua influência.
A chave está em entender a vulnerabilidade que pode surgir. Durante as gravações de Menopausa sem Fronteiras, diversas mulheres de culturas e realidades distintas compartilharam suas histórias. Muitas delas chegaram à saúde mental, mencionando ansiedade, irritabilidade, insônia, dificuldade para trabalhar, falta de energia e a sensação de não se reconhecer.
Nem todas apresentavam depressão, mas o que surpreendeu foi a falta de entendimento sobre a relação entre a transição menopausal e a saúde mental.
Tudo isso ocorre em uma década singular na vida: os filhos crescem, os pais envelhecem, as relações mudam e as carreiras também. O corpo se transforma e o futuro se torna menos garantido.
Aos 55 anos, após estudar menopausa, escrever um livro sobre o tema e ouvir tantas mulheres, é possível ver esse período como um momento decisivo para a segunda metade da vida. É quando se começa a refletir sobre como se deseja envelhecer, trabalhar, amar, administrar finanças e cuidar da saúde.
Essa transformação não é pouca coisa, especialmente quando o cérebro também está se adaptando a um novo ambiente hormonal, diferente daquele ao qual esteve exposto por décadas. Por esse motivo, não faz sentido fragmentar a mulher em diferentes áreas de atendimento: uma consulta para a mente, outra para os ovários, outra para o sono, e outra para o coração. A mente é parte dessa análise.
Em sua situação, havia uma história que deveria ter sido considerada. Não se sabe exatamente a proporção da influência genética, das circunstâncias da vida e das oscilações hormonais. Mas é possível perguntar e entender melhor o quebra-cabeça.
Atualmente, não é mais viável dissociar a perimenopausa da conversa sobre saúde mental. Estamos aprendendo agora aquilo que nossas mães e avós não tiveram a chance de conhecer. Naquela ocasião, aos 38 anos e caída no chão, não era necessário ser forte; era preciso entender o que estava acontecendo. O entendimento veio aos poucos, e essa é uma reflexão que se pode compartilhar.







