Afinal, o que deseja o mercado financeiro? Em diálogos recentes com onze executivos de bancos brasileiros e estrangeiros, procurou-se equilibrar as expectativas acerca de um eventual governo Lula 4 ou Bolsonaro 2. A irritação com Lula aumentou bastante depois que o presidente insultou quem se preocupa com superávit primário, mas a novidade está na tolerância com Flávio Bolsonaro. Ninguém acredita que ele promoverá um ajuste rigoroso — desvinculando a Previdência do salário mínimo, por exemplo —, porém todos consideram que a boa vontade com um governo não petista será o bastante para assegurar alguns meses de tranquilidade, com valorização da bolsa, queda do dólar e dos juros futuros.
Nesta edição, aborda-se também a curiosa polêmica em torno do uso do chapéu pelo presidente Lula, exemplo de como o comitê desperdiça tempo com minúcias enquanto o adversário avança nas pesquisas. O PT nacional reduziu as verbas para a campanha de Haddad e continua atrasando a distribuição de material de campanha nos estados. O clima é ruim.
Na semana atual, Lula deve anunciar medidas para restringir as bets, e os clubes de futebol sinalizaram que não vão reclamar, contanto que o governo renegocie suas dívidas com a Previdência e a Receita Federal. O Ministério da Fazenda ainda prepara um plano para perdoar dívidas bancárias com mais de cinco anos de atraso.
Faltam duas semanas para o primeiro turno, e a única certeza é que não morreremos de tédio.
- O que o mercado espera de Bolsonaro
- Os clubes aceitam o fim das bets
- O chapéu da discórdia da campanha de Lula
- Depois do Bolsa Família, vem aí o perdão das dívidas
- O PT e a piada do general soviético
- Cesto de caranguejos
- O favorito ao STF
- A tática do voto útil
- O homem que sabia demais
- A mágoa do STF com Lula
- A crise cerca o TSE
- A operação Nepal
- Crítica: ‘A polarização no divã’
- Fique atento
1. O que o mercado espera de Bolsonaro
Caso Flávio Bolsonaro vença as eleições, a lua de mel do mercado financeiro dará à sua equipe econômica alguns meses antes de apresentar resultados. Em conversas com onze economistas-chefes de bancos, assets e fundos brasileiros e estrangeiros, nenhum deles espera um pacote de ajuste fiscal severo no início do governo. Todos concordam que a simples saída de Lula do poder, especialmente após o anúncio do reajuste do Bolsa Família na quinta-feira (17), bastará para alterar a curva de juros futuros e provocar um rali de alta na Bolsa de Valores.
Embora o provável candidato a ministro da Fazenda, Marcelo Kayath, tenha declarado à repórter Adriana Fernandes, da Folha, que “o próximo presidente não terá o benefício do gradualismo”, ele não será cobrado como Paulo Guedes, por exemplo, que se comprometeu desde o início com a aprovação da reforma da Previdência, a independência do Banco Central e a desvinculação do salário mínimo (tendo entregue as duas primeiras propostas).
Apesar de todos defenderem medidas liberais, nenhum executivo espera que Bolsonaro conclua o fim da vinculação do salário mínimo à Previdência, a desvinculação dos gastos de saúde e educação do crescimento da receita ou a privatização de estatais como o Banco do Brasil e a Petrobras.
Há um consenso de que Flávio Bolsonaro tem pouco interesse em economia e que usará o lastro de seu capital político com a anistia do pai e o impeachment de Alexandre de Moraes, mas que ao menos concederá autonomia à nova equipe do Ministério da Fazenda.
Em seus diálogos na Faria Lima, a porta-voz econômica de Bolsonaro, a administradora Daniella Marques, destaca a possibilidade de uma Proposta de Emenda à Constituição acordada com os presidentes do Senado, da Câmara e do Supremo Tribunal Federal para conter R$ 200 bilhões em gastos ao longo dos quatro anos de mandato. Nenhum executivo consultado considera a proposta factível, mas todos concordam que ela aponta na direção correta.
Lula iniciou seu governo com a PEC da Transição gastando R$ 200 bilhões a mais. Se a equipe de Flávio Bolsonaro prometer reverter parte disso, já terá comprado seis meses de boa vontade — afirmou o economista-chefe de um grande banco.
Medidas que o mercado considera prováveis nos primeiros meses de um eventual governo Bolsonaro:
- Não aprovação do projeto que põe fim à escala 6×1.
- Aprovação do projeto de reforma administrativa do deputado Pedro Paulo.
- Redução drástica dos gastos parafiscais, despesas fora do orçamento, como os financiamentos de carros para taxistas e motoristas de Uber, a diminuição da conta de luz e os subsídios do programa habitacional Minha Casa Minha Vida.
- Abandono de medidas como a alteração da meta de inflação do Banco Central, defendida por alas do PT.
- Redução de impostos para as empresas.
- Corte de 10% nas renúncias fiscais.
- Algum acordo com o Congresso para controlar o crescimento das emendas parlamentares e cortar penduricalhos.
- Redução do aumento real do salário mínimo.
- Projeto de securitização de imóveis da União e privatizações (ideias com resultados fracos na gestão de Paulo Guedes).
- Alinhamento com a política externa dos EUA e acordo para encerrar o tarifaço.
- Início da discussão de um substituto para o arcabouço fiscal. É enorme a desconfiança sobre criar um teto baseado na dívida pública, como nos EUA, onde isso já não funciona há anos.
Na avaliação dos executivos consultados, algumas medidas moderadas e um discurso fiscalista da nova equipe econômica serão suficientes para reduzir a curva de juros (hoje o título DI para 2030 está acima de 14%) e promover a queda natural da relação dívida/PIB, atualmente em 82,5%. Como quase a totalidade da dívida brasileira é emitida em reais e rolada majoritariamente por investidores locais, o humor do investidor doméstico tem muito peso na equação.
Hoje o problema dos juros brasileiros não é aritmético, é de reputação. A equipe atual perdeu a credibilidade e, para recuperá-la, terá de demonstrar cortes muito mais duros do que o mercado exige do time de Bolsonaro — comparou um chefe de um fundo estrangeiro.
A boa vontade com Kayath e Daniella Marques cresceu exponencialmente com a declaração de Lula de que “é preciso parar com a babaquice de fazer superávit”, que destruiu os esforços do ministro Dario Durigan para obter alguma credibilidade junto ao mercado. Na Faria Lima, o governo Lula 4 passou a ser visto como uma repetição de Dilma 1, o que não é um elogio.
2. Os clubes aceitam o fim das bets
Após a péssima repercussão da ameaça de que o fim das bets acabaria com o futebol, representantes dos clubes procuram o governo Lula para negociar. Mantêm silêncio sobre o fim da publicidade das bets, que proibirá a propaganda nas camisas dos times, em troca de um novo Profut, programa de refinanciamento e perdão das dívidas com a Receita Federal e a Previdência, uma quantia estimada em R$ 15 bilhões. As negociações prosseguem nesta semana.
Lula anunciará uma medida provisória contra as bets a partir de quinta-feira (24), após retornar dos EUA. Uma parte do governo defende a proibição da publicidade e dos jogos de azar do tipo “tigrinho”, mantendo as apostas em resultados. Outra, incluindo o próprio Lula, quer proibir todos os jogos on-line.
3. O chapéu da discórdia da campanha Lula
No domingo (13), o fotógrafo Ricardo Stuckert foi ao Palácio da Alvorada produzir novas fotos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para sua imagem oficial na urna eletrônica. Diferentemente da primeira foto oficial enviada ao Tribunal Superior Eleitoral em agosto, desta vez Lula foi fotografado sem o chapéu de palha tipo Panamá que usa desde abril, como proteção após retirar uma lesão de câncer de pele no couro cabeludo. A substituição da imagem consumiu semanas de debates internos e revela o desperdício de tempo da campanha do presidente. No fim, Lula optou por não trocar a foto.
O presidente tem usado o chapéu em solenidades e comícios. Ele gosta de se ver com o acessório e foi elogiado por todos os assessores próximos, exceto o ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira. Conforme informou a repórter Ana Flor, da GloboNews, o uso do chapéu tornou-se um conflito interno no comitê de campanha.
Pesquisas qualitativas indicavam que os eleitores consideravam que Lula parecia mais velho de chapéu. O presidente não se abalou e usou o Panamá na entrevista concedida em 27 de agosto aos apresentadores Renata Vasconcellos e Cesar Tralli, da TV Globo. A reação nas rodas de pesquisa foi desastrosa. Eleitores nordestinos acharam que o presidente foi “mal-educado” ao usar o chapéu dentro de casa. Outros afirmaram que se distraíram com a indumentária e não prestaram atenção ao que o presidente disse.
Na semana anterior, a propaganda digital de Lula passou a mostrar o presidente repetindo o conhecido quadro do apresentador Raul Gil e “tirando o chapéu” para os brasileiros.
O episódio do chapéu lembra o desastroso desfile da Acadêmicos de Niterói, em fevereiro. Apesar de todas as recomendações contrárias, Lula aceitou ser homenageado, e sua esposa, Janja, só foi convencida a não desfilar como destaque após uma discussão em voz alta com Sidônio Palmeira na noite do evento. A equipe de Lula sabia com antecedência que uma das alas da escola satirizaria os defensores da “família tradicional”, os evangélicos, o agronegócio e os “neoconservadores em conserva”, mas não interferiu. O desfile terminou com o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói para a segunda divisão e o fim do diálogo das igrejas evangélicas com o PT.
É comum analistas estrangeiros compararem as dificuldades de Lula, que completa 80 anos em outubro, com as do presidente Joe Biden, prestes a fazer 84. Ambos são políticos veteranos do final do século 20 que enfrentaram candidatos da extrema direita do século 21 com um discurso de união nacional contra o radicalismo. O equívoco está em achar que Lula tem problemas de saúde semelhantes aos de Biden. Menos de seis meses depois do retorno de Donald Trump à Casa Branca, os jornalistas Jake Tapper e Alex Thompson mostraram no livro “Original Sin” (sem tradução no Brasil; editora Penguin Press; 352 páginas; livro: R$ 105,24; e-book: R$ 51,43) que Biden montara um esquema de acobertamento para esconder do público seus problemas cognitivos. Somente depois da derrota, Biden admitiu sofrer de um agressivo câncer de próstata com metástase nos ossos. Lula, ao contrário de Biden, tem um histórico de transparência sobre sua saúde.
O que aproxima Lula e Biden é a teimosia. No livro “2024: How Trump Retook the White House and the Democrats Lost America” (sem tradução para o Brasil; editora Penguin Books; livro: R$ 114,76; e-book: R$ 109,64), os jornalistas Josh Dawsey, Tyler Pager e Isaac Arnsdorf mostram como Biden, por puro ressentimento, rompeu com Barack Obama e Hillary Clinton, minimizou as pesquisas que apontavam eleitorado insatisfeito com a economia e desconsiderou as chances de Trump tentar voltar à Casa Branca. Seus marqueteiros acreditavam que apenas reprisar o ataque ao Capitólio de 6 de janeiro de 2020 bastaria para derrotar Trump, sem entender que os republicanos haviam transformado os vândalos em vítimas da Justiça, como o bolsonarismo fez no Brasil.
Mais do que a idade, é essa certeza de estar sempre certo que une Lula a Biden.
O presidente Lula insistiu, por exemplo, que a campanha de TV destacasse como seu governo melhorou os indicadores econômicos, como se a percepção popular de que as coisas não vão bem fosse um erro de interpretação. Por essa ótica, bastaria repetir os dados oficiais para que, naturalmente, o eleitor se convencesse das qualidades do governo.
Somente em 10 de setembro, em entrevista ao SBT, Lula reconheceu pela primeira vez que não havia feito o suficiente:
Você pensa que eu não fico triste de saber o que nós fizemos na economia e que, ainda assim, a gente não atendeu à expectativa da sociedade? Porque o custo de vida está caro — admitiu o presidente, antes tarde do que nunca.
4. Depois do Bolsa Família, vem aí o perdão das dívidas
No início do ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu, em reunião com os ministros da Casa Civil, Rui Costa, do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, e da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, reajustar o valor do Bolsa Família para perto de R$ 700. Intencionalmente, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ficou de fora da reunião por discordar da medida. Posteriormente, a ideia foi abandonada porque Lula passou a acreditar que a candidatura de Flávio Bolsonaro era tão frágil que não seria necessário apelar para o aumento. Com o escândalo do STF impulsionando Bolsonaro nas pesquisas, o reajuste de R$ 600 para R$ 691 no Bolsa Família tornou-se apenas o começo de uma série de medidas para tentar mudar o rumo da campanha.
Trata-se de uma ação voltada a um público cativo. De acordo com o Datafolha, entre os eleitores que recebem o Bolsa Família, Lula tem 53% das intenções de voto contra 23% de Bolsonaro (no quadro geral, Lula tem 46% contra 44% de Bolsonaro). Contudo, em comparação com 2022, chama a atenção como Lula perdeu terreno em seu público de base:
Intenção de votos em Lula no Nordeste:
Setembro de 2022 – 62%
Setembro de 2026 – 56%
Intenção de votos em Lula entre quem recebe menos de 2 salários mínimos:
Setembro de 2022 – 52%
Setembro de 2026 – 46%
Intenção de votos em Lula entre quem estudou até o Ensino Fundamental:
Setembro de 2022 – 54%
Setembro de 2026 – 47%
Intenção de votos em Lula entre beneficiários do Bolsa Família:
Setembro de 2022 – 57%
Setembro de 2026 – 53%
Tão importante quanto recuperar votos nos segmentos em que é mais forte, Lula precisa mudar a agenda da campanha. O debate sobre o Supremo desvia a atenção do eleitor dos pontos em que o governo se considera mais forte, como as políticas sociais, enquanto a associação de Lula ao ministro Alexandre de Moraes é criptonita para sua campanha.
Para os próximos dias, após o retorno de Lula de seu compromisso na ONU, espera-se o anúncio de mais um programa para reduzir o endividamento das famílias, agora com o Tesouro Nacional (o meu, o seu, o nosso) pagando as dívidas mais antigas. Questionado pelos repórteres Luciana Dyniewicz e João José Oliveira, do UOL, o ministro Dario Durigan reconheceu que o programa ainda é embrionário:
Há possibilidade de o Tesouro Nacional comprar a dívida do consumidor, como vem sendo falado?
Não estamos mais falando em renegociações. Temos que tratar de dívidas antigas que não puderam ser renegociadas e, eventualmente, elaborar um programa ainda mais forte, com deságio grande para não custar muito ao governo. Quitar as dívidas antigas que vêm da pandemia, dívidas que podem chegar a cinco anos de atraso, por exemplo. Esse é um tema que o presidente está estudando para poder apresentar como proposta.
O Tesouro vai comprar essas dívidas? Há espaço no Orçamento para isso?
É possível que sim, se houver espaço no Orçamento. E quando falo em deságio, é possível conseguir comprar essa dívida com deságio de 95% ou mais. Portanto, é possível, sim, que o Tesouro faça essa compra, desde que se realize um leilão e se obtenha o melhor benefício para a sociedade como um todo. Se os próprios bancos já consideram essas dívidas irrecuperáveis, é importante limpar o nome das pessoas, tratando isso com o menor impacto fiscal possível.
O consumidor vai ter de pagar o Tesouro depois?
Isso pode ocorrer, sim. O Tesouro acaba comprando a dívida e substitui o banco. Aí é uma opção do Estado, dependendo do quanto seja factível continuar cobrando essa dívida com descontos das pessoas. Ou, eventualmente, pode-se fazer a quitação dessa dívida pelo Tesouro.
Seria possível fazer isso este ano ou ficaria para um eventual novo governo?
Estamos apresentando essa proposta ao presidente Lula. Como teremos de fazer leilão, isso deve virar uma proposta do presidente Lula para a população, para que seja efetivada a partir do começo do ano que vem.
Junto com a promessa de quitação das dívidas antigas, o comitê eleitoral de Lula anunciará novas medidas contra as bets, possivelmente proibindo os jogos do tipo “tigrinho” e mantendo apenas as apostas em resultados esportivos. Entre o primeiro e o segundo turno, o PT tentará mobilização para votar no Senado a redução da jornada de trabalho 6×1. E, obviamente, divulgará todas as denúncias contra Flávio Bolsonaro. O modo de apertar todos os botões ao mesmo tempo está apenas começando.
5. O PT e a piada do general soviético
Todos os dias, os militantes do PT acordam à espera da divulgação de uma bomba que vai implodir a candidatura de Flávio Bolsonaro. A tática lembra uma velha piada da Guerra dos Seis Dias, de 1967, quando Israel derrotou o Egito e outros vizinhos com um ataque surpresa. A piada é a seguinte:
Preocupados com a potência militar israelense, os egípcios contrataram um general soviético veterano da Segunda Guerra Mundial. Na primeira conversa, o militar egípcio disse:
— General, os israelenses destruíram nossa força aérea.
— Está dentro dos planos. É só aguardar — respondeu o soviético.
No segundo dia, o egípcio telefonou ainda mais preocupado:
— General, eles avançaram sobre o Monte Sinai.
— Está dentro dos planos. É só aguardar — repetiu o general.
No terceiro dia, os israelenses tomaram o Canal de Suez, e novamente o general soviético pediu calma. O egípcio perdeu a paciência:
— Mas, general, eles vão avançar sobre o Cairo!
— Ótimo — respondeu o general soviético. — Agora, é só esperar o inverno que eles serão derrotados.
Em São Paulo, o PT nacional cortou verbas da campanha de Fernando Haddad. No Rio, o partido boicota as candidaturas dos aliados Eduardo Paes e Pedro Paulo. Em Minas, a legenda gasta mais tempo combatendo o deputado federal Nikolas Ferreira do que o adversário real, o senador Cleitinho Azevedo.
Conforme revelou a repórter Andréia Sadi, da GloboNews, o favorito de Flávio Bolsonaro para a vaga no STF é seu amigo e advogado Vicente Santini, que foi número dois da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro até ser demitido em 2020 por usar um avião da Força Aérea Brasileira para ir da Suíça à Índia. A banca de Santini trabalhou anos para o grupo JBS.
8. A tática do voto útil
A campanha de Flávio Bolsonaro inicia nesta semana uma pressão para atrair os eleitores de Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema para o voto útil, vendendo a possibilidade de vitória no primeiro turno. Funciona.
Em meados de setembro de 2018, em circunstâncias muito particulares devido ao efeito do atentado contra Bolsonaro, os vários candidatos fora da polarização somavam 47% das intenções de voto. Nas urnas, tiveram apenas 25%. No mesmo período de quatro anos atrás, os não polarizados tinham 16% no Datafolha. Terminaram com 8% dos votos.
9. O homem que sabia demais
O homem que pode decidir as eleições está em uma cela de 65 metros quadrados no presídio da Polícia Militar do Distrito Federal conhecido como Papudinha. Se decidir dar mais detalhes sobre suas relações com Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro faz a eleição pender a favor de Lula. Se esclarecer o envolvimento do ministro do STF Alexandre de Moraes com os negócios do Banco Master, dá mais fôlego a Bolsonaro. Se, além de Moraes, contar se recebeu dos ministros Dias Toffoli e Kássio Nunes Marques alguma vantagem pelos negócios com suas famílias, explode o STF.
Preso há 200 dias, Vorcaro também pode simplesmente ficar em silêncio e contar com quem sobreviver ao escândalo para afrouxar suas penas no próximo ano.
O sentimento dos ministros do STF Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes em relação a Lula varia entre ressentimento e desapontamento. É consenso no trio que Lula poderia ter agido para que Edson Fachin adiasse a sessão de terça-feira (15), que por fim decidiu adiar o que fazer com as denúncias contra Moraes.
Não há crise tão ruim que não possa piorar. As insinuações do ministro Gilmar Mendes de que o colega André Mendonça age com motivações eleitorais representam a travessia de uma fronteira perigosa. O descrédito que afeta o Supremo pelo caso Master pode contaminar o Tribunal Superior Eleitoral, onde Mendonça exerce o cargo de vice-presidente. Mendes eleva a crise a outro patamar.
Após citar possível intervenção estrangeira no processo eleitoral brasileiro, Gilmar publicou no X:
“Mais grave, porém, é o risco que vem de dentro: o da politização da Justiça Eleitoral. Quem tenta engajar o Tribunal em proselitismo partidário deve avaliar se reúne condições de nele permanecer. E os partidos políticos e o Ministério Público Eleitoral devem fiscalizar atentamente se essas condições estão presentes, arguindo a suspeição nos casos em que ela se configure.”
Ao reforçar a suspeita de que o ministro André Mendonça usa o caso Master para interferir no processo eleitoral a favor de Bolsonaro, Gilmar Mendes ecoa o que pensa a campanha de Lula e o que diz a militância nas redes sociais. É uma perigosa repetição do passado recente. Em 2022, Jair Bolsonaro acusava o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, de prejudicar sua candidatura e favorecer a de Lula da Silva. Agora, é um ministro do Supremo quem faz o mesmo, na direção oposta.
A duas semanas do primeiro turno, tudo o que a eleição não precisa é que a crise do Master afete a credibilidade do TSE.
Empresas que monitoram as redes sociais notaram, nos últimos dias, uma inquietante curiosidade de grupos bolsonaristas sobre o local do casamento do filho do ministro Alexandre de Moraes, marcado para a semana que vem.
13. Crítica: ‘A polarização no divã’
É irônico que um dos mais profundos pesquisadores da polarização brasileira seja argentino, do país de la grieta, a fenda que a política dividiu e que só o time de Messi consegue unir. Psicólogo com mestrado em opinião pública, Eduardo Sincofsky é diretor do projeto Plaza Pública, que há dois anos realiza pesquisas qualitativas com eleitores brasileiros para entender a paleta de nuances da política brasileira. Os vários tons de cinza das entrevistas estão em seu livro “A polarização no divã” (Editora Mórula; 160 páginas; livro: R$ 72).
A obra é um flagrante de um país exausto com o debate político. “Não passou do ponto, torrou”, diz um entrevistado sobre a polarização. A sensação de esgotamento dos entrevistados é contínua, assim como a necessidade de culpar os outros pela polarização.
O cansaço e o desencanto do eleitor com a política superam o sentimento de amor e ódio. É o tempo de emoções mornas, não quentes — afirma Sincofsky.
Essas emoções mornas traduzem-se na falta de entusiasmo que se observa nesta campanha, em que a política gera tanta paixão quanto repulsa. Essa sensação, diz Sincofsky, possibilita uma novidade. A mesma polarização que divide o Brasil no diagnóstico do presente é quase inexistente quando se fala do futuro. É nesse campo, o do sonho, que as campanhas políticas podem furar a bolha da polarização.
- Na sexta-feira, após o procurador-geral Paulo Gonet negar amizade com Daniel Vorcaro, o advogado do banqueiro corrupto divulgou foto dos dois fumando charuto e bebendo uísque em Londres. No domingo, o repórter Lauro Jardim, de O GLOBO, divulgou vídeo de Alexandre de Moraes viajando em um jatinho de Vorcaro. Cansado da guerra de vazamentos do caso Master entre ministros do Supremo Tribunal Federal? Não há boas notícias: vai continuar. Prepare-se.
- Na sessão do dia 15, o ministro do STF Flávio Dino justificou seu atraso no início do julgamento afirmando: “Cheguei atrasado porque estava decretando prisão de gente, porque é tanta petição”. O resultado será visto nos próximos dias.
- O presidente Lula está em Nova York. Nesta segunda-feira (21), ele se reúne com o prefeito Zohran Mamdani. Na terça (22), Lula faz seu décimo discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU. Existe a possibilidade de conversa informal com o presidente Donald Trump, que discursa logo depois dele, mas o norte-americano deve estar focado na reunião com Xi Jinping na quarta-feira, em Washington.
- A Quaest divulga nova pesquisa nesta segunda-feira (21), a partir das 18h.
- Na terça-feira, o Banco Central divulga a ata do Copom, que não dirá que o ritmo de cortes vai depender da reação do mercado aos resultados das eleições, embora seja isso que irá acontecer.
- Ao voltar ao Brasil, Lula deve anunciar medidas para restringir as bets. Parte do governo defende a proibição total e parte apenas a de jogos do tipo “tigrinho” e da publicidade em TVs e jogos de futebol.
- Na quarta-feira (24), Lula se reúne com artistas no Rio, com a participação de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque. Não vai ganhar um voto novo.
- A pauta do Supremo prevê sessões normais na quarta e na quinta-feira. A audiência da TV Justiça será maior que o normal, à espera de novas trocas de acusações.
- O ministro André Mendonça deve homologar a delação premiada do empresário João Carlos Mansur, ex-dono da gestora Reag, envolvido até o pescoço no escândalo Master.
- O Datafolha divulga nova pesquisa na quinta-feira (24), a partir das 18h.
- Após dizer em discurso que “é preciso parar com babaquice de fazer superávit”, o presidente Lula pediu a Geraldo Alckmin que organize novo encontro com empresários em São Paulo.
- Lula e Bolsonaro devem anunciar que não irão ao debate presidencial marcado para domingo (27), na TV Record.







