Ser alguém: quando o passado também vira mercadoria

Num mundo que corre mais rápido do que conseguimos compreender, ser conhecido passou a valer mais do que ser. Curtidas, visualizações e visibilidade midiática deixaram de ser apenas consequências da nossa existência: tornaram-se a matéria com que construímos quem somos. O tempo virou moeda — poucos o acumulam; a maioria sente o próprio ser drenado, dia após dia.

Continua após a publicidade

Nesse cenário, a tecnologia não é apenas ferramenta: é lógica. Tecnologias afetivas, algoritmos que nos “conhecem”, promessas de conquista e reconhecimento — tudo se justifica pelo desejo de ser alguém. E quando tudo pode ser vendido, até a nossa memória e a nossa história entram no mercado.

É aqui que reside o ponto mais silencioso e perigoso da nossa época: a inteligência artificial e os algoritmos não nos devolvem o passado como ele foi. Eles nos entregam um autopassado: uma versão higienizada, selecionada e confortável do que gostaríamos que tivesse acontecido. Cruzam nossos desejos com dados seletivos e nos devolvem exatamente o que queremos ouvir — como se a história fosse um espelho que só reflete o que nos agrada.

Continua após a publicidade

Isso é autoexploração disfarçada de conveniência. As questões éticas, as contradições, as dores e as verdades incômodas ficam de lado, atropeladas pela urgência de resultados imediatos. A nostalgia se transforma em refúgio: em vez de enfrentar um presente que muitas vezes nos revela frágeis ou impotentes, buscamos no passado um paraíso que nunca existiu de verdade. E assim consumimos mais tecnologia, nos fechamos em bolhas narcisistas e vivemos apenas da história que nos representa, ignorando tudo aquilo que não cabe nos nossos gostos.

Mas a história não existe para nos confortar. Existe para nos responsabilizar. Quem vai se lembrar dos fatos que não viralizam? Das dores que não geram engajamento? Das verdades que nenhum algoritmo vai destacar porque não são lucrativas?

A memória não pode ser reduzida àquilo que cada um deseja lembrar. A verdade não pode ser apenas aquilo que eu desejo que tenha sido. Se cada um de nós passa a viver dentro do próprio espelho, perdemos algo muito maior do que o passado: perdemos a capacidade de construir um futuro juntos.

Quem ficará responsável por aquilo que preferimos esquecer? Essa é a pergunta que não pode ter resposta algorítmica. É uma escolha humana — e cabe a cada um de nós.

Continua após a publicidade
Igor Vitorino da Silva
Igor Vitorino da Silva
Professor, historiador e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (/PPHIS/UFPR). Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES e do LHIPU – IFES/Campus Vitória-ES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
25ºC
Máxima
27ºC
Mínima
22ºC
HOJE
06/11 - Sex
Amanhecer
04:56 am
Anoitecer
05:52 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
29.63 km/h

Média
26ºC
Máxima
28ºC
Mínima
24ºC
AMANHÃ
07/11 - Sáb
Amanhecer
04:56 am
Anoitecer
05:53 pm
Chuva
0.78mm
Velocidade do Vento
33.59 km/h

Gamificação não é brincar no expediente

Cícero Gomes

Leia também