Um avanço importante marca a detecção do câncer de intestino na população brasileira, trazendo novas perspectivas para o rastreamento da doença.
O intestino é dividido em duas partes principais: delgado e grosso. Por uma particularidade biológica, o câncer no delgado é muito raro. Em mais de cinco décadas de oncologia, é possível contar nos dedos os casos vistos, diante de mais de mil pacientes com carcinoma de cólon ou reto.
No Brasil, esse tipo de tumor é o segundo mais frequente entre homens e o terceiro entre as mulheres. A mortalidade é elevada: de cada três pacientes operados, dois já apresentam tumores em estágio avançado.
O diagnóstico costuma ser tardio porque os sintomas iniciais são discretos: cólicas, sangramento fecal, episódios de diarreia seguidos de obstipação, dores abdominais, perda de peso e anemia.
A sintomatologia, embora variada, não é específica. A presença de sangue nas fezes pode ser invisível ou atribuída a hemorroidas, existentes ou não. A obstipação após um quadro de diarreia também ocorre em intoxicações alimentares. A flatulência provoca desconforto abdominal sem maior significado. A perda de peso tem inúmeras causas. As anemias geralmente se manifestam por cansaço, muitas vezes menosprezado.
É o segundo tipo de câncer mais comum no país e o terceiro em número de mortes, com cerca de 53 mil casos por ano. O crescimento recente dos casos chama atenção. Segundo o The Lancet Regional Health Americas, entre 2026 e 2030 a mortalidade deverá triplicar em comparação ao período de 2001 a 2005.
Além do aumento da prevalência, a incidência na população mais jovem tem preocupado os especialistas. A doença, que normalmente se manifestava em homens e mulheres a partir dos 50 ou 60 anos, agora também atinge os mais novos: cerca de 20% dos pacientes têm 40 anos ou menos.
O papel da colonoscopia na prevenção
O surgimento da colonoscopia transformou o panorama da doença. O exame é diagnóstico e preventivo ao mesmo tempo, pois o aparelho possui uma garra capaz de retirar pólipos ainda na fase pré-maligna. Se todos realizassem colonoscopias na periodicidade recomendada, os cânceres de cólon e reto seriam praticamente erradicados.
O SUS recomenda o início do exame aos 50 anos. Já a Sociedade Brasileira de Coloproctologia e a maioria das sociedades médicas norte-americanas orientam o início aos 45 anos.
O desafio no Brasil é a escala: segundo o IBGE, existem cerca de 62 milhões de brasileiros acima de 50 anos. Como os exames precisam ser periódicos, mesmo que o SUS interrompesse todos os atendimentos para se dedicar exclusivamente às colonoscopias, não conseguiria atender a demanda.
Teste imunoquímico fecal: nova alternativa no SUS
Diante desse cenário, o SUS passou a oferecer o teste imunoquímico fecal (FIT na sigla em inglês) para a pesquisa de sangue oculto nas fezes.
O antigo teste de sangue oculto tinha baixa sensibilidade, exigia duas ou três amostras, dias de dieta com restrição de certos alimentos, além de cuidados como atenção ao escovar os dentes e não usar palito.
Com o FIT, basta uma amostra, sem dieta ou preparo. A pessoa retira o kit na Unidade Básica de Saúde do bairro, coleta o material em casa e o devolve para análise no laboratório. O resultado sai em poucos dias.
O Ministério da Saúde disponibiliza o teste exclusivamente para pessoas de 50 a 75 anos, com repetição a cada dois anos.
Resultados negativos não excluem completamente a possibilidade de câncer no intestino, já que a lesão pode não sangrar, mas reduzem bastante o risco. Segundo o ministério, a sensibilidade do FIT é de 85% a 92%, ou seja, na presença de um tumor maligno colorretal, essa é a chance de o teste dar positivo.
Trata-se de um exame de triagem: quem tiver resultado positivo é encaminhado para a colonoscopia, o exame definitivo. Já aqueles com resultado negativo podem ser poupados do procedimento.
Pacientes com sintomas sugestivos de câncer colorretal, portadores de doenças inflamatórias do intestino (retocolite ulcerativa, doença de Crohn e outras) e pessoas com histórico familiar necessitam de acompanhamento médico, com colonoscopias periódicas.
Para reduzir o risco de tumores malignos no intestino, é recomendável evitar: obesidade, sedentarismo, carnes processadas, carne vermelha em excesso, dieta pobre em fibras, álcool e tabagismo. Além, claro, da boa sorte com a genética.







