Discussões no âmbito do bloco envolvem a conexão entre sistemas de pagamentos instantâneos, moedas digitais de bancos centrais e ampliação do uso de moedas nacionais; iniciativa pode reduzir a necessidade de conversão para o dólar em transações entre países.
O BRICS deu novos passos nas tratativas para estruturar uma infraestrutura de pagamentos transfronteiriços capaz de conectar os sistemas financeiros dos países-membros. A iniciativa, que ganhou contornos mais definidos durante a presidência indiana do bloco em 2026, prevê a possibilidade de integração entre plataformas nacionais de pagamentos instantâneos e, em uma fase posterior, entre moedas digitais emitidas por bancos centrais.
Na prática, a ideia é permitir que sistemas como o Pix brasileiro, o UPI indiano, o CIPS chinês, o MIR da Rússia e outras infraestruturas nacionais possam conversar entre si.
O objetivo é reduzir custos, acelerar transferências internacionais e diminuir a necessidade de utilizar intermediários financeiros e moedas de terceiros, especialmente o dólar.
O tema ganhou força nas últimas semanas. Em 11 de agosto, o presidente do Reserve Bank of India (RBI), Sanjay Malhotra, afirmou que os países do BRICS estão discutindo justamente a possibilidade de conectar seus sistemas de pagamentos rápidos e suas moedas digitais de bancos centrais, conhecidas pela sigla CBDC.
Segundo ele, diferentes alternativas estão sobre a mesa, mas o projeto ainda se encontra em fase de discussão.
A declaração representa um avanço em relação às discussões anteriores. Em 2025, durante a presidência brasileira do BRICS, os líderes do bloco determinaram que ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais continuassem trabalhando na Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços do BRICS.
A declaração de líderes também registrou o trabalho da Força-Tarefa de Pagamentos do BRICS para identificar caminhos que permitissem maior interoperabilidade entre os sistemas nacionais.
Do Pix ao UPI: uma rede de sistemas nacionais
O projeto não significa, pelo menos neste momento, a criação de um único aplicativo ou de uma moeda própria do BRICS. A estratégia em discussão é diferente: conectar infraestruturas que já existem.
O Brasil possui o Pix; a Índia, o UPI; a China conta com uma ampla infraestrutura de pagamentos digitais e com o Cross-Border Interbank Payment System (CIPS); enquanto a Rússia desenvolveu o MIR para driblar as sanções pós-guerra da Ucrânia.
A possibilidade de interoperabilidade entre essas plataformas é considerada uma das alternativas para construir uma infraestrutura internacional menos dependente das redes financeiras ocidentais.
O próprio Banco Central do Brasil passou a tratar de maneira mais concreta da possibilidade de conectar o Pix a sistemas estrangeiros.
Em relatório divulgado em agosto, a autoridade afirmou que está avaliando conexões bilaterais e a participação em mecanismos multilaterais de pagamentos. O BC informou ainda ter firmado acordos de compartilhamento de informações sobre o Pix com 65 autoridades estrangeiras.
O tamanho alcançado pelo sistema brasileiro é um dos motivos para o Pix despertar interesse internacional.
Em 2025, foram realizadas quase 80 bilhões de transações, movimentando mais de R$ 35 trilhões, segundo dados citados pela Reuters.
A experiência também encontra paralelo na Ásia. Em abril, China e Indonésia lançaram uma conexão de pagamentos por QR Code que permite aos usuários dos dois países realizar pagamentos utilizando as respectivas infraestruturas nacionais.
Segundo a Xinhua, a iniciativa faz parte de um movimento mais amplo para ampliar os pagamentos em moedas locais e reduzir a dependência de moedas de reserva internacionais, especialmente o dólar.
Um sistema sem precisar passar pelo dólar
A principal consequência geopolítica da integração seria a possibilidade de realizar uma operação internacional sem que necessariamente seja necessário converter a moeda de um país em dólar para depois convertê-la na moeda do país de destino.
Em um modelo tradicional, uma empresa brasileira que importa determinado produto de um país asiático pode precisar utilizar uma cadeia financeira baseada em bancos correspondentes e conversões cambiais.
Uma infraestrutura interoperável poderia permitir que a operação fosse liquidada diretamente entre as moedas nacionais, com mecanismos de compensação entre os bancos centrais.
É justamente esse movimento que está no centro da chamada desdolarização do comércio internacional.
O objetivo declarado pelo BRICS, entretanto, não é substituir imediatamente o dólar por uma nova moeda.
O diplomata brasileiro Mauricio Lyrio afirmou que uma moeda comum do bloco não está atualmente em discussão. A prioridade é reduzir custos e ampliar o uso das moedas nacionais nas operações entre os integrantes.
O Kremlin também rejeitou, em junho, a interpretação de que o BRICS esteja criando uma moeda para substituir o dólar. Segundo o porta-voz Dmitry Peskov, o que está em andamento é o aumento dos pagamentos em moedas nacionais.
Essa distinção é importante: a desdolarização pode avançar mesmo sem a criação de uma moeda do BRICS.
A discussão vem de antes
A construção de uma infraestrutura financeira própria não começou em 2026. Em 2024, o ministro das Finanças da Rússia, Anton Siluanov, afirmou à emisssora russa RT que os países do bloco trabalhavam em uma infraestrutura de pagamentos transfronteiriços baseada em novas tecnologias, moedas nacionais e moedas digitais.
Na ocasião, Siluanov afirmou que o objetivo era criar um sistema independente das plataformas ocidentais e reduzir a participação do dólar nas transações entre os integrantes do grupo.
Em janeiro de 2026, especialistas russos voltaram a defender a possibilidade de implementação de uma infraestrutura comum, argumentando que as tecnologias necessárias para conectar diferentes sistemas financeiros já existem.
China amplia infraestrutura internacional
Paralelamente às discussões do BRICS, a China vem ampliando sua própria infraestrutura de pagamentos internacionais.
Em julho, a Xinhua informou que um sistema de pagamentos transfronteiriços em yuan foi lançado no Quênia por meio do CIPS, permitindo ao banco queniano Stanbic Bank processar diretamente pagamentos em renminbi.
A iniciativa foi apresentada como uma forma de facilitar o comércio e os investimentos entre China e África.
Em junho, 26 instituições financeiras também passaram a participar diretamente do sistema internacional associado ao yuan digital, ampliando a infraestrutura para pagamentos transfronteiriços em moeda chinesa.
Esses movimentos não constituem, individualmente, um sistema financeiro do BRICS. Mas criam uma espécie de ecossistema de infraestruturas alternativas que pode ser conectado no futuro.
É nesse ponto que o Pix ganha importância estratégica.
O dólar ainda domina, mas sua exclusividade é questionada
A discussão não significa que o dólar esteja perto de perder sua posição dominante no sistema financeiro internacional. A moeda americana continua sendo a principal moeda de reserva, de financiamento internacional e de comércio global.
O que está mudando é outra coisa: a dependência do dólar para determinadas operações está diminuindo em partes do comércio entre economias emergentes.
A Rússia é o exemplo mais extremo. As sanções ocidentais aceleraram a substituição do dólar e do euro por rublos e yuans em suas relações comerciais. Mais de 95% dos pagamentos entre Rússia e China já eram realizados em moedas nacionais em 2024.
O fenômeno também aparece em outras regiões. Iniciativas de integração de pagamentos na Ásia estão sendo desenvolvidas justamente com o objetivo de ampliar transações em moedas locais e diminuir a exposição à infraestrutura financeira baseada no dólar.
A própria Times of India destacou recentemente uma proposta iraniana para conectar os sistemas nacionais de pagamentos dos países do BRICS e criar um corredor financeiro baseado em moedas locais. A publicação ressaltou, porém, que esse corredor ainda é uma proposta e não uma rede unificada em funcionamento.
Uma mudança gradual na arquitetura financeira
O que emerge das discussões é menos uma tentativa de criar um “novo dólar” e mais a construção de alternativas paralelas à infraestrutura financeira dominada pelos Estados Unidos e pela Europa.
O BRICS trabalha simultaneamente em diferentes frentes: pagamentos transfronteiriços, uso de moedas nacionais, conexão de sistemas instantâneos, moedas digitais de bancos centrais, mecanismos de compensação e fortalecimento de instituições financeiras próprias, como o Novo Banco de Desenvolvimento.
Em 2025, a declaração oficial do grupo já estabelecia como prioridade a continuidade das discussões sobre a Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços e o aumento da interoperabilidade entre os sistemas.
Agora, com a discussão sobre a conexão de sistemas como Pix e UPI e a possibilidade de incluir CBDCs, a agenda ganha uma dimensão tecnológica.
Se a interoperabilidade for efetivamente implementada em escala, uma empresa brasileira poderá, por exemplo, pagar um fornecedor indiano diretamente a partir de sua infraestrutura nacional, enquanto o destinatário recebe em rúpias — sem que o dólar necessariamente apareça no meio da operação.
É uma mudança que pode parecer pequena na tela de um celular, mas que, em escala internacional, representa uma transformação importante: o BRICS não precisa criar uma moeda única para reduzir a centralidade do dólar. Basta criar caminhos pelos quais o comércio entre seus países possa funcionar sem depender dele.







