Enquanto, diante das câmeras, o primeiro debate presidencial deste pleito ficou marcado por púlpitos vazios, nos bastidores o evento reuniu protesto de militantes, ameaça de desistência, transmissão ao vivo na entrada e fraldas com os nomes dos candidatos ausentes. Na plateia, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, chegou a ser flagrado cochilando em vários momentos. O encontro ocorreu na noite de domingo (23) nos estúdios do grupo Bandeirantes, no Morumbi, na Zona Sul de São Paulo.
Com a ausência de parte dos convidados, o debate contou apenas com Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Cury chegou a fazer uma transmissão ao vivo na porta da emissora, afirmando que desistiria daquele “teatro”, mas voltou atrás. O presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o senador Flávio Bolsonaro (PL) já tinham sinalizado ao longo da semana que não participariam. Romeu Zema (Novo) cancelou a presença poucas horas antes do início.
Como público, concorrentes e organização esperavam, a ausência em massa tornou-se o principal tema nos bastidores. Quem acompanhou o programa pela TV ou pelas redes sociais provavelmente não imaginou os assentos vazios na plateia, posicionada atrás das câmeras. Sem os principais personagens, assessores e apoiadores também não compareceram, deixando partes das arquibancadas do estúdio vazias. Para preencher as lacunas, a produção convocou profissionais que não tinham credencial para o local.
Como é praxe em eventos desse tipo, os organizadores alinham com as campanhas o horário de chegada de cada candidato para que eles entrem com destaque, sejam entrevistados primeiro pelos repórteres da casa e depois falem brevemente com jornalistas de outros veículos.
Fraldas com nomes dos ausentes
O primeiro a chegar foi Renan Santos. Para criticar a ausência de Lula e Flávio e também produzir material para as redes sociais, o presidenciável do Missão levou duas fraldas com os nomes dos dois postulantes.
Em tom de protesto, Renan chamou Lula e Flávio de “dois canalhas” e afirmou que eles estimulam seguidores a brigar nas redes sociais, mas não têm coragem de apresentar propostas. Ele ainda disse que iria explicar o que chamou de fracasso das duas supostas lideranças e exibir as fraldas dos dois.
As imagens de Renan foram gravadas pelo ex-deputado estadual Arthur do Val, o Mamãe Falei. Inelegível até 2030, depois de perder o mandato por quebra de decoro — ele gravou áudios dizendo que “ucranianas eram fáceis por serem pobres” —, Mamãe Falei segue ativo nas redes sociais.
Em seguida, Caiado chegou à Band enquanto militantes do União Popular (UP) faziam um protesto nas proximidades da emissora. Eles reivindicavam a participação de Samara Martins, candidata do partido à Presidência, no debate. Como a legenda não possui representantes no Congresso Nacional, não atende aos critérios da legislação eleitoral para ter participação obrigatória nos encontros televisionados.
Sem acesso ao debate, os manifestantes ficaram atrás de grades na Rua Carlos Cyrilo Júnior. Apesar da gritaria que vinha da rua — os jornalistas não puderam deixar o local, sob o aviso de que não teriam autorização para retornar —, Caiado conversou com a imprensa e criticou as ausências de Lula e Flávio.
Caiado disse que essas pessoas, que não têm nada a mostrar ao país além de escândalos e por isso se recusam a comparecer, querem governar o Brasil. “De um lado tem o ‘Dark horse’, do outro tem o ‘Dark lobby’”, afirmou. Para ele, a falta de coragem de ir ao debate mostra que a sociedade brasileira vai avaliar melhor. Ele questionou se essas pessoas terão independência moral para governar o país e como pretendem governá-lo, afirmando que ele tem coragem para mudar.
Cury: entra ou não entra?
Faltando 45 minutos para o início do encontro, começaram a surgir informações de que Cury não iria participar. Ele chegou a entrar pelo estacionamento, mas deixou a emissora e ficou na porta, transmitindo ao vivo. Nesse momento, jornalistas e fotógrafos tentaram segui-lo, mas foram impedidos de sair. Depois de um princípio de confusão, os profissionais foram liberados e se aproximaram de Cury. Um repórter perguntou se ele havia decidido de última hora não participar do debate.
“Decidi de última hora, quando vi que eles não viriam. Enquanto isso, o Lula está fazendo uma entrevista no mesmo horário do debate. Isso é um teatro, isso não é democracia”, afirmou Cury. Cinco minutos depois, ele mudou de ideia e voltou a entrar na emissora. Ao ser cercado novamente pelos jornalistas, aproximou-se do diretor Fernando Mitre e aceitou participar.
Durante o programa, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, candidato a vice na chapa de Caiado, foi flagrado cochilando em diversos momentos. Ele ficou na arquibancada por mais de uma hora e meia. Nos intervalos, era chamado por correligionários e jornalistas, mas, assim que o debate recomeçava, voltava a cochilar.
Ausentes do debate, Lula e Flávio passaram a noite de domingo em Brasília, sem compromissos oficiais. A entrevista do presidente à TV Record, gravada pela manhã no Alvorada, foi exibida no mesmo horário do encontro. Flávio, por sua vez, gravou um vídeo sobre a ausência e publicou nas redes. No dia seguinte, o senador cumpre agenda de campanha em São Paulo, e o presidente da República viaja a Sorocaba, no interior paulista.







