Você já parou para pensar em quem traduz os livros que chegam às suas mãos? O gaúcho Guilherme da Silva Braga é um desses profissionais. Aos 44 anos, ele atua como tradutor literário há duas décadas e também é doutor e mestre em literatura. Guilherme já verteu para o português obras clássicas e modernas a partir do inglês, do norueguês, do sueco e do dinamarquês para diversas editoras brasileiras. Há 30 anos, porém, ainda na adolescência, ele sequer imaginava que esse sonho pudesse se tornar realidade.
“Lembro que comecei a pensar quem seriam os tradutores de livros de outras línguas para o português. Na época, tinha saído o filme Entrevista com o Vampiro, e eu sabia que havia o livro e que era traduzido. Um dia, na livraria, pensei: ‘vou ver quem faz isso aqui’. Abri e estava lá: tradução de Clarice Lispector. Naquele instante, pensei: ‘acabou o meu sonho de ser tradutor, porque quem traduz é a Clarice Lispector, acabou para mim’”, relembra Guilherme ao Terra. Mas o destino reservava outro desfecho.
Natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Guilherme conta que, desde criança, sempre foi curioso e apaixonado por livros, e aprendeu inglês bem cedo. “Eu já tinha alguns conhecimentos e ouvia músicas em inglês, além daquelas revistas que traziam letras traduzidas. Quando abriu uma livraria de importados no shopping, os preços eram baixos e comecei a comprar. No início, a leitura era um pouco difícil, mas fui em frente e isso virou um hábito.”
Ao concluir o ensino médio, mesmo já pensando em cursar Letras, Guilherme prestou vestibular para Biologia — e não passou. Numa segunda tentativa, em 2000, ele apostou na outra opção. Desta vez, foi aprovado em Letras – Inglês. Durante a graduação, ele também começou a traduzir textos por iniciativa própria.
“Eu já lia bastante e, no curso de Letras, li muito mais. Comecei a estudar teoria da literatura e os movimentos literários de forma mais estruturada. Ao mesmo tempo, traduzia contos e poemas de que gostava, como uma espécie de exercício pessoal”, conta o tradutor.
Foi somente em 2005, cinco anos depois, que ele teve a primeira experiência com tradução profissional, sempre atuando como freelancer. Na ocasião, traduziu uma pequena coletânea de contos de Sherlock Holmes para uma editora. Guilherme também ingressou em uma oficina de tradução literária e, com o incentivo da professora do curso, traduziu um livro inteiro.
O encontro com as línguas escandinavas
Durante sua formação, movido pelo interesse em bandas de metal norueguês, ele procurou aulas desse idioma em Porto Alegre. No entanto, encontrou apenas uma professora de sueco e decidiu aprender essa língua em seu lugar. Guilherme ainda fez intercâmbio em Londres, na Inglaterra, e passou alguns dias na Suécia, na casa de um amigo. “Foi ótimo, porque o sueco que eu já estudava disparou em fluência e qualidade.”
Ele explica que, no começo, fazia traduções apenas a partir do inglês, mas, aos poucos, os editores descobriram que ele sabia sueco e passaram a encomendar traduções nesse idioma. Por volta de 2010, foi chamado para ler um livro em norueguês e, como a língua se assemelha ao sueco, aceitou o desafio. “Não é a mesma língua, mas sabendo uma, você consegue chegar à outra. Li o livro, escrevi um parecer e recomendei a publicação, porque gostei bastante”, afirma ele, que também traduziu a obra.
Ao longo da carreira, Guilherme recebeu uma bolsa para viajar à Noruega, com o objetivo de conhecer a cultura do país e traduzir com mais precisão os lugares e as comidas que aparecem nos livros. “Isso é algo muito importante no trabalho do tradutor: saber não apenas intelectualmente. Por exemplo, uma coisa é você saber o que é uma fruta lendo sobre ela; outra é comer a fruta. Cheguei lá com uma lista de comidas que queria provar e de lugares que queria visitar”, lembra.
Depois de ser procurado para traduzir o livro do norueguês para o português, Guilherme conta que começaram a surgir obras uma atrás da outra nesse idioma, além do sueco e do dinamarquês. “E isso virou a minha vida. Embora minha formação tenha tudo a ver com a literatura de língua inglesa, como acabei aprendendo as línguas escandinavas, ninguém lembra disso. Eu sou o cara das línguas ‘estranhas’”, brinca.
Ele destaca que o adolescente de outrora realizou o sonho de se tornar um tradutor profissional e se sente muito feliz e realizado. “Acabei chegando a um lugar que eu queria por um caminho que eu não sabia qual era. Deu certo, mas de um jeito que eu nunca teria como planejar. É uma profissão muito interessante. Todos os dias você aprende uma coisa nova, pesquisa um assunto diferente.”
Até este ano, ele já traduziu mais de 80 livros para o português. “Quando termino, é um misto de sentimentos: fico orgulhoso, contente e, dependendo da obra, se deu muito trabalho, fico aliviado, principalmente por causa dos prazos”, ressalta Guilherme.







