Computadores ajudam cientistas a decifrar segredos do cérebro

Há várias décadas, neurocientistas se dedicam a compreender de que forma os neurônios geram pensamentos, memórias e emoções. Os recentes avanços em simulações computacionais, inteligência artificial e modelos matemáticos têm transformado esse entendimento. A área, chamada de neurociência computacional, está ampliando as ferramentas teóricas relativas ao processamento de informações pelo cérebro.

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Essa disciplina investiga desde os mecanismos elétricos e químicos que permitem o funcionamento de um único neurônio até as redes complexas de milhões deles interagindo em conjunto. Além disso, correlaciona os processos biológicos com funções cognitivas, como aprendizado e tomada de decisões. Esse conhecimento torna possível elaborar simulações digitais de partes do cérebro e testar hipóteses que não poderiam ser avaliadas diretamente em um laboratório.

Dessa maneira, a neurociência computacional tem possibilitado o desenvolvimento de novas tecnologias que, por exemplo, conseguem prever crises epilépticas e restaurar os movimentos em indivíduos paralisados. Igualmente, essa área inspira inovações em computação, inteligência artificial, robótica e sistemas inteligentes.

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Um sistema complexo

O cérebro humano é constituído por bilhões de neurônios conectados por trilhões de sinapses. Cada neurônio recebe sinais (elétricos e químicos) de centenas de outros simultaneamente. Quando esses sinais se acumulam e superam um determinado limite, o neurônio dispara um impulso elétrico que transmite a mensagem adiante. Essa comunicação ocorre nas sinapses, onde o neurônio emissor libera neurotransmissores que se encaixam em receptores como uma chave em uma fechadura.

Uma das características mais intrigantes desse sistema é sua capacidade de reorganização. Conexões frequentemente utilizadas se fortalecem, enquanto as ociosas perdem força. Esse mecanismo, chamado de plasticidade sináptica, nos permite aprender e memorizar informações. Embora cada neurônio execute funções relativamente simples, a interação coletiva resulta em comportamentos complexos, como reconhecer rostos, sentir medo e planejar viagens.

Cérebros simulados

Para compreender essa complexidade, neurocientistas computacionais desenvolvem simuladores digitais que replicam o comportamento dos neurônios e das redes neurais, sustentados por novas arquiteturas de software. O ponto de partida para essa pesquisa foi o trabalho inovador dos fisiologistas britânicos Alan Hodgkin e Andrew Huxley, que em 1952 descreveram matematicamente como um neurônio dispara um sinal elétrico, pesquisa que rendeu o Prêmio Nobel e ainda é fundamental na área.

Um dos modelos mais utilizados atualmente em simuladores digitais de neurônios é conhecido como “integrador e disparador”. Nesse modelo, o neurônio funciona como um balde sendo preenchido por gotas de água. Cada sinal recebido acrescenta algumas gotas. Quando o nível ultrapassa um certo limite, o balde transborda e se esvazia, enviando seu conteúdo para outros neurônios, reiniciando o processo. Este modelo é computacionalmente eficiente, pois permite simular milhares de neurônios simultaneamente.

Uma das pesquisas mais ambiciosas nesta área é o Blue Brain Project, na Suíça, que visa reconstruir digitalmente seções do córtex de ratos com grande detalhe biológico. Apesar disso, o resultado ainda representa apenas uma fração do que um cérebro real consegue realizar.

Simular os 86 bilhões de neurônios humanos e suas 100 trilhões de conexões ainda está muito além de qualquer tecnologia atual. Por essa razão, cientistas trabalham com diferentes níveis de abstração, escolhendo o nível mais apropriado de detalhamento que seja necessário para responder as perguntas que surgem.

A inspiração da IA moderna

A relação entre neurociência computacional e inteligência artificial estabelece uma via de mão dupla. Já nos anos 1940, o neurofisiologista Warren McCulloch e o cientista cognitivo Walter Pitts desenvolveram o primeiro modelo abstrato de neurônio artificial, diretamente inspirado no neurônio biológico.

Décadas depois, ao empilhar camadas dessas unidades artificiais, cientistas criaram modelos computacionais de redes neurais artificiais. Essa base é fundamental para o aprendizado profundo que impulsiona tecnologias como reconhecimento de fala, diagnósticos por imagem e modelos de linguagem.

A troca de conhecimento também revelou diferenças importantes: o cérebro aprende com um número mínimo de exemplos e consome cerca de 20 watts, menos do que uma lâmpada. Em contrapartida, treinar um grande modelo de IA pode exigir energia equivalente à de centenas de casas por dias. Compreender como o cérebro consegue ser tão eficiente ainda é uma das grandes questões da área. A resposta pode mudar a forma como se constrói a inteligência artificial.

Aplicações na saúde

Na prática, essas pesquisas já estão promovendo mudanças significativas na vida das pessoas. Em experimentos que utilizam interfaces cérebro-computador (ou seja, com sensores implantados no cérebro), indivíduos totalmente paralisados conseguiram controlar braços robóticos apenas com o pensamento. Embora os movimentos não sejam muito rápidos ou precisos, demonstram a possibilidade de recuperação, mesmo após anos de lesões no sistema nervoso central.

detectam padrões cerebrais que sinalizam a aproximação de uma crise epiléptica, proporcionando uma antecedência de minutos ou até horas. Para aqueles com epilepsia resistente a medicamentos, esse aviso prévio pode melhorar significativamente a rotina e a autonomia.

No caso do Parkinson, a Estimulação Cerebral Profunda auxilia no controle dos sintomas motores da doença quando os medicamentos não são suficientes. Neste contexto, a inserção de um eletrodo em áreas motoras do cérebro funciona de maneira similar a um marca-passo. Isso pode reduzir tremores, rigidez, lentidão e movimentos involuntários, elevando a qualidade de vida dos pacientes.

Outros modelos são utilizados para mapear os sintomas de Alzheimer no cérebro. Essa doença resulta do acúmulo de proteínas tóxicas e provoca perda de memória, dificuldades de comunicação e confusão. Os modelos ajudam no diagnóstico, pois associam de maneira mais eficaz os padrões dos exames aos sintomas clínicos.

No campo da saúde mental, pesquisadores têm desenvolvido simulações dos circuitos cerebrais envolvidos em transtornos como depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia. Estas simulações auxiliam na identificação das redes neurais que podem estar funcionando de forma atípica em cada condição. No futuro, esse tipo de abordagem poderá contribuir para diagnósticos mais precisos e tratamentos personalizados, direcionados aos circuitos cerebrais mais afetados em cada paciente.

Ainda há um longo caminho a percorrer para simular completamente um cérebro humano, mas os avanços recentes são notáveis. Cada nova equação e simulação tem o potencial de transformar a vida de alguém. No cerne da neurociência computacional está o objetivo de nos aproximar mais de nós mesmos e das respostas que a humanidade busca há séculos: quem somos, como pensamos e o que nos torna conscientes? Trata-se de uma jornada científica e essencialmente humana que apenas começou.

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