O deputado federal Nikolas Ferreira, do PL-MG, publicou um vídeo no domingo, dia 2, com afirmações falsas já desmentidas sobre as vacinas contra a covid-19. A postagem se baseou no depoimento do imunologista americano Anthony Fauci ao Senado dos Estados Unidos. Nikolas afirmou que a hidroxicloroquina é segura para o tratamento do coronavírus, alegação sem respaldo científico e refutada por diversos estudos.
Fauci, que foi diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, assessorou os presidentes americanos Donald Trump e Joe Biden durante a pandemia de covid-19. No dia 29, foi convocado pelo senador republicano Rand Paul para prestar esclarecimentos em audiência do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado. O imunologista se negou a responder e invocou a Quinta Emenda da Constituição americana, que garante o direito contra a autoincriminação, acusando ainda Paul de promover uma campanha para prendê-lo, afirmando que a única razão de ter sido convocado seria fazê-lo declarar algo que justificasse promessas públicas repetidas do senador de que ele acabaria atrás das grades.
Dias antes da audiência, Paul divulgou mais de mil páginas de anotações diárias de Fauci. O diário e o depoimento geraram alvoroço nas redes sociais, com acusações infundadas sobre vacinas, tratamentos e a origem do vírus. Somente na plataforma X, o vídeo de Nikolas já somava mais de um milhão de visualizações. O deputado foi procurado, mas não respondeu até a finalização desta matéria, e o espaço segue aberto para manifestação.
No vídeo, Nikolas sustentou que o diário de Fauci mostraria que o imunologista acreditava na segurança da hidroxicloroquina e pretendia disponibilizá-la para tratar a covid-19, alegando que, depois do apoio de Trump ao medicamento e da repercussão na mídia, Fauci teria mudado de posição e passado a pressionar contra o uso da substância. O diário, no entanto, mostra o contrário, Trump e parte de seus assessores eram favoráveis ao uso do medicamento, enquanto Fauci argumentava que sua eficácia não havia sido comprovada.
Em anotação de 18 de março de 2020, ao relatar uma discussão na Casa Branca sobre o tema, Fauci escreveu ter afirmado que aquilo estava errado e não deveria ser feito. Ele também mencionou um confronto com Peter Navarro, conselheiro comercial de Trump, que defendia a eficácia da hidroxicloroquina contra a covid-19, argumento que Fauci classificou como baseado em evidências majoritariamente anedóticas, segundo reportagem da revista Newsweek.
O jornal The Wall Street Journal já havia apontado a hidroxicloroquina como um dos fatores que deterioraram a relação entre Fauci e Trump, já que o imunologista tentou convencer o então presidente a abandonar a promoção do medicamento, recomendado sem respaldo científico. A Organização Mundial da Saúde não recomenda o uso de hidroxicloroquina para prevenir ou tratar a covid-19, com base em resultados de 30 estudos clínicos, envolvendo mais de 10 mil pacientes, que mostraram que o medicamento não reduziu mortalidade nem necessidade de ventilação mecânica, podendo ainda aumentar riscos cardíacos, sanguíneos, renais e hepáticos.
Nikolas também mencionou que, durante a audiência, a senadora republicana Joni Ernst questionou Fauci sobre o uso de partes de bebês abortados em pesquisas para o desenvolvimento da vacina contra a covid-19, destacando que o imunologista teria permanecido em silêncio diante da pergunta. Desde 2020, agências de checagem e instituições científicas já desmentiram essa alegação. Como explicado pelo Projeto Comprova, a afirmação distorce informações sobre uma das tecnologias usadas em vacinas, caso da Oxford-AstraZeneca, que utiliza um vetor de adenovírus recombinante.
Os pesquisadores usaram um vírus que causa gripe em chimpanzés, inofensivo para humanos, alterado geneticamente para apresentar características do coronavírus, de modo que o sistema imunológico aprenda a reconhecê-las e combatê-las. Esses adenovírus precisam se multiplicar em células mantidas em laboratório, pertencentes à linhagem HEK-293, cuja origem remonta a um feto abortado legalmente na Holanda nos anos 1970, e que desde então se replicam por mecanismo natural, sem que nenhuma célula original permaneça viva.
Não há veracidade, portanto, na ideia de que fetos sejam abortados para pesquisas de vacinas. A Academia Americana de Pediatria reforça que as vacinas não contêm células fetais, esclarecendo que algumas envolvem o cultivo de vírus em culturas celulares originalmente desenvolvidas a partir de fetos abortados na década de 1960, com processos de purificação que filtram qualquer célula remanescente.
Nikolas ainda alegou existir um relatório do Congresso americano demonstrando que distanciamento social e uso de máscaras foram ineficazes e, em muitos casos, mais prejudiciais do que úteis, referência a um documento elaborado por um subcomitê legislativo apresentado por parlamentares republicanos, informação que não foi mencionada no vídeo. Levantamentos já mostraram que as alegações contidas nesse relatório foram amplamente desmentidas por estudos e organizações médicas, incluindo um artigo publicado na revista The Lancet, que, após analisar 44 estudos observacionais, concluiu que o distanciamento físico de um metro e o uso de máscaras reduziram consideravelmente a transmissão do vírus da covid-19. O uso de máscaras foi recomendado pela Organização Mundial da Saúde durante a pandemia com base em evidências científicas, como parte de um conjunto de medidas de prevenção e controle da doença.
Por fim, Nikolas insinuou que o silêncio de Fauci durante a audiência seria prova das mentiras em torno das vacinas, do distanciamento social e do uso de máscaras. Antes de deixar a Presidência, em 19 de janeiro de 2025, o ex-presidente Joe Biden concedeu um indulto preventivo a Fauci para protegê-lo de processos considerados injustificados e politicamente motivados relacionados à sua atuação na pandemia, medida que abrangeu suas atividades entre 2014 e aquela data. Esse indulto, porém, não cobre depoimentos ou condutas posteriores do imunologista, razão pela qual ele invocou o direito à Quinta Emenda durante a audiência no Senado, argumentando que seu depoimento poderia ser usado contra ele judicialmente. Nos Estados Unidos, invocar a Quinta Emenda não implica reconhecimento de culpa, servindo como proteção do cidadão contra coações e contra a transferência indevida do ônus da prova em processos judiciais.






