Como um pequeno arquipélago do Pacífico virou epicentro do HIV no mundo

Um pequeno arquipélago do Pacífico, Fiji, com 937 mil habitantes, concentra hoje a atenção de toda a comunidade internacional de resposta ao vírus HIV. Em pouco mais de uma década, esse conjunto de ilhas passou de uma das menores taxas da região para a epidemia de crescimento mais rápido do mundo.

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Segundo relatório da Unaids, Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids, divulgado durante conferência internacional de Aids no Rio de Janeiro, o arquipélago registrou em 2025 um aumento de mais de dez vezes no número de novos diagnósticos desde 2014. A principal causa é o avanço do uso de metanfetamina injetável num país que, até poucos anos atrás, sequer tinha uma epidemia relevante de drogas injetáveis. Em janeiro do ano passado, o governo de Fiji declarou surto nacional de HIV. Historicamente usado como rota de trânsito entre as Américas e os mercados lucrativos da Austrália e da Nova Zelândia, o arquipélago hoje enfrenta as consequências do consumo interno da droga.

Segundo Jason Mitchell, que preside a força-tarefa nacional de resposta ao surto, o que começou concentrado entre pessoas que usam drogas injetáveis já se espalhou para todos os grupos populacionais do país, transformando uma crise antes concentrada em uma epidemia generalizada em apenas cinco anos. A Unaids estima prevalência de 1,2% entre pessoas de 15 a 49 anos, ultrapassando 2% entre gestantes. A taxa de transmissão vertical do HIV, de mãe para filho, chegou a 18% no ano passado, uma das mais altas do mundo, e o número de crianças nascidas com o vírus dobrou. No mesmo período, o Brasil recebeu certificação de eliminação da transmissão vertical do HIV.

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As estimativas ilustram a velocidade dessa escalada. O teto estimado de pessoas vivendo com HIV em Fiji era de 8.900 em 2025, e a projeção para este ano já soma 12 mil, salto que, segundo Mitchell, está diretamente ligado à demora do país em implementar um programa de redução de danos. A estimativa oficial é que o uso de drogas injetáveis responda por 48% das infecções recentes por HIV no país. Do total estimado de pessoas com o vírus, apenas cerca de três em cada dez receberam diagnóstico, e somente uma em seis está em tratamento. A supressão viral documentada, indicador que mostra se o tratamento está controlando a infecção, está em apenas 2%, um cenário bem distinto do brasileiro, onde a estimativa é de que 91% das pessoas com HIV tenham diagnóstico, 83% estejam em tratamento antirretroviral e 72% apresentem supressão viral.

Segundo Mitchell, dois em cada três diagnósticos do ano passado ocorreram entre pessoas de 20 a 34 anos, retrato de uma epidemia jovem impulsionada por um padrão de consumo de drogas incomum, já que em Fiji as pessoas costumam começar diretamente injetando metanfetamina, em vez de fumar ou inalar a droga primeiro, como ocorre em outros países. Ele atribui parte desse comportamento a um traço cultural, a tradição de compartilhar um único recipiente na cerimônia do kava, bebida tradicional fijiana, que teria se estendido ao consumo de álcool e, mais recentemente, ao uso de drogas injetáveis, inclusive dentro de grupos familiares.

Apesar de o país ter adotado rapidamente a profilaxia pré-exposição e de ter ampliado o atendimento a pessoas vivendo com HIV para além dos três centros especializados existentes, o programa oficial de distribuição de agulhas e seringas, considerado essencial para conter a transmissão entre usuários de drogas injetáveis, ainda não saiu do papel. Segundo Mitchell, o material já está armazenado e pronto para distribuição, mas emperrado por entraves de implementação, não por falta de vontade política, segundo ele. Enquanto isso, o país também enfrenta um surto paralelo de hepatite C entre pessoas que injetam drogas, ainda sem programa de tratamento estruturado.

Mark Lal, de 25 anos, fundador da organização Living Positive Fiji e uma das poucas pessoas do país a revelar publicamente que vive com HIV, descreveu a lacuna de forma direta, afirmando que faltam seringas e medicamentos com regularidade. Durante mesa-redonda com jornalistas no congresso de Aids, ele disse que a profilaxia pós-exposição acabou de ser introduzida e quase ninguém sabe da existência dela, e que muitas pessoas nem sabem o que são os antirretrovirais.

A epidemia em Fiji atinge de forma desproporcional a população indígena fijiana, conhecida como iTaukei. Apesar de deter o poder político no país e comandar o próprio Ministério da Saúde, esse grupo, que representa cerca de 57% dos habitantes, concentra 94% das infecções. Os casos também são hoje 2,5 vezes mais frequentes entre homens do que entre mulheres, padrão historicamente associado à testagem, já que muitos diagnósticos partem de doações de sangue feitas por homens jovens para parentes hospitalizados, o que enviesa a detecção. Ainda assim, a diferença entre os sexos vem diminuindo à medida que a testagem se amplia.

Para Mitchell, um problema sério que acompanha o aumento dos casos é o estigma, que segundo ele vem piorando à medida que a cobertura da imprensa passou a associar automaticamente o HIV à criminalidade ligada às drogas. Ele afirma que o país nunca teve um programa robusto de combate ao estigma, sendo o último levantamento sobre o tema de 2018, e que a meta é incluir recursos dedicados a essa frente no próximo ciclo de financiamentos internacionais. Mark disse não ter sofrido discriminação severa desde que assumiu publicamente o diagnóstico, embora enfrente ataques online e, às vezes, hostilidade nas ruas, relatando episódios em que pessoas gritam seu diagnóstico em público. Ele também apontou um problema estrutural de privacidade, já que o país tem apenas três clínicas especializadas, em Suva, Lautoka e Labasa, onde é possível retirar medicação, o que facilita identificar quem vive com HIV.

Outra preocupação vai além das fronteiras de Fiji. Segundo Mitchell, o país recebe estudantes de outras nações insulares do Pacífico por anos seguidos para fins educacionais, o que levanta temores de disseminação regional, especialmente para ilhas pequenas, citando o caso de uma comunidade de menos de 1.500 habitantes onde já surgem sinais de infecção.

O apoio internacional tem vindo principalmente da Austrália, que financiou parte da força-tarefa e prometeu 48 milhões de dólares australianos em investimentos para a resposta ao HIV no Indo-Pacífico, e da Nova Zelândia, com 4 milhões de dólares neozelandeses, além de uma doação da Índia de 2,5 milhões de dólares em antirretrovirais. Fiji também depende fortemente do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária, de forma atípica para um país classificado como de renda média-alta, mas incluído em uma concessão multinacional que reúne hoje 12 países do Pacífico. Mitchell disse ter viajado recentemente a Genebra para pedir que o país não seja retirado do programa, dada a gravidade do surto, mas reconheceu resistência da organização, preocupada em abrir precedente para outros países de renda média que também buscam permanecer no esquema de financiamento.

Esse é um tema sensível, por envolver informações sobre saúde sexual e uso de drogas. Quem quiser mais informações sobre prevenção e tratamento do HIV no Brasil pode procurar uma unidade do SUS ou o Disque Saúde, no número 136.

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