Ouvir música traz benefícios à saúde

São raras as experiências que marcam presença em tantos momentos da vida como a música. Ela acompanha celebrações, lutos, viagens, encontros, despedidas e até as atividades mais rotineiras.

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Uma melodia é capaz de evocar uma lembrança antiga, alterar o estado de espírito, provocar arrepios ou fazer o corpo se movimentar sem que percebamos. Esses efeitos parecem naturais por estarem enraizados na experiência humana. Por isso, nas últimas décadas a ciência tem demonstrado que ouvir música ativa simultaneamente diversas áreas cerebrais e interfere em processos relacionados à memória, emoções, movimento e até mesmo na percepção da dor.

Daniel J. Levitin ingressou na neurociência por uma trajetória pouco comum. Antes de se tornar professor na Universidade McGill, no Canadá, e uma referência no estudo do processamento cerebral de sons, ele atuou por anos na indústria musical como produtor e engenheiro de som. Conheceu a música intimamente, conviveu com músicos profissionais e compreendeu os bastidores dos estúdios.

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Esse histórico singular confere ao livro “A cura pela música” (Objetiva) um contexto diferenciado em relação às obras convencionais de divulgação científica. Além dos fundamentos neurocientíficos, a obra reúne a vivência de um profissional que conheceu profundamente o objeto de seu estudo.

Ritmos, sons, cantos e danças são elementos presentes em inúmeras culturas por variadas razões. Seja em rituais, festas ou por puro prazer, o impacto da música no cérebro e no corpo motivou Daniel J. Levitin a escrever uma obra de mais de 400 páginas que explora esse tema sob a perspectiva da neurociência contemporânea.

Para além da audição

Ao ouvir uma música, o organismo reage de múltiplas maneiras. Não existe um centro único que processe tudo de forma concentrada.

O que acontece é uma ativação distribuída e simultânea de redes que geralmente funcionam de maneira separada: o córtex auditivo, mas também o hipocampo (memória), a amígdala (emoções), o cerebelo e o sistema motor (ritmo), o córtex pré-frontal (atenção e planejamento) e o sistema dopaminérgico (prazer e recompensa). Poucas experiências mobilizam tantas regiões ao mesmo tempo, e isso explica por que uma música pode, em segundos, provocar tantas sensações.

O autor explica que o cérebro não processa música de maneira passiva; ele faz previsões. A cada compasso, constroem-se expectativas sobre o que virá a seguir. Quando essa previsão se confirma no momento certo, ou é surpreendida de forma coerente, o sistema dopaminérgico é ativado. Esse mecanismo gera prazer, sensação de recompensa e, nos casos mais intensos, os arrepios pelo corpo.

Memória, linguagem e movimento

Entre os exemplos mais marcantes e emocionantes da obra estão os relatos de pacientes com Alzheimer em estágios avançados. Pessoas que já não reconhecem os filhos, perderam a memória recente e, às vezes, até a capacidade de comunicação, ainda conseguem cantar músicas inteiras da juventude. Lembram-se das letras, do ritmo, da melodia. Em alguns casos, ao ouvir essas canções, voltam a conversar, sorrir e interagir com quem está ao redor.

Isso não é acaso. Levitin explica que a memória musical depende, em parte, de circuitos que se mantêm preservados por mais tempo do que outras redes cognitivas afetadas pela demência. Uma melodia familiar não exige codificação recente para ser reconhecida, pois está registrada em camadas mais antigas e resistentes da memória.

Por esse motivo, canções ouvidas repetidamente décadas atrás podem resistir a perdas que parecem devastadoras. Esse fenômeno não reverte a doença, mas pode melhorar temporariamente o estado emocional do paciente, facilitar o contato com cuidadores e abrir janelas de lucidez que outros estímulos não conseguem proporcionar.

Uma situação semelhante ocorre com pacientes que sofreram AVC e perderam parcialmente a fala. Em alguns casos, a capacidade de cantar permanece relativamente preservada, mesmo quando produzir frases espontâneas já não é possível. Isso acontece porque cantar recruta redes cerebrais diferentes daquelas ativadas na fala convencional. Atualmente, o canto é visto como uma via alternativa para reaprender a linguagem, o que levou ao desenvolvimento de técnicas de reabilitação baseadas nessa capacidade preservada.

No Parkinson, a música atua de forma distinta. Pessoas com a doença frequentemente têm dificuldade para iniciar e coordenar movimentos, mas muitos conseguem caminhar de maneira visivelmente mais fluida quando acompanham um ritmo externo constante.

O cérebro utiliza o pulso musical como uma espécie de marcação que substitui, temporariamente, o sinal interno comprometido pela doença. A técnica tem nome clínico, estimulação auditiva rítmica, e já integra programas de reabilitação em diversos países. Não elimina a doença nem substitui o tratamento farmacológico, mas pode melhorar a qualidade dos movimentos.

A música certa para cada pessoa

No capítulo sobre música e dor, estudos clínicos indicam que ouvir música durante e após procedimentos médicos pode reduzir a percepção da dor, diminuir a ansiedade e favorecer o relaxamento. A música não “desliga” a dor, mas atua simultaneamente em múltiplos mecanismos: desvia a atenção, reduz os níveis de cortisol, interfere na produção de substâncias ligadas ao estresse e ativa o sistema de recompensa.

A música escolhida pelo próprio paciente gera efeitos maiores do que playlists padronizadas selecionadas por médicos ou pesquisadores. Isso mostra que a experiência musical não é universal.

Uma mesma canção pode acalmar uma pessoa e incomodar profundamente outra. Os efeitos dependem da história de vida, das memórias associadas, do contexto cultural e das preferências individuais.

Por isso, Levitin é claramente cético em relação a promessas de frequências “milagrosas” como 432 Hz ou 528 Hz, cujas supostas propriedades curativas não encontram respaldo em estudos clínicos robustos. O que funciona não é o som isolado, mas a combinação entre ritmo, melodia, harmonia, significado pessoal e memória afetiva.

Esse argumento se repete ao longo da obra de diversas maneiras. Não existe uma música terapêutica universal. O que existem são mecanismos biológicos reais pelos quais a música afeta o cérebro, e esses mecanismos respondem de maneiras profundamente diferentes dependendo de quem ouve, quando ouve e em que contexto.

Entre evidências e promessas

Ao longo de toda a obra, Daniel J. Levitin distingue o que os estudos demonstram com consistência do que ainda é especulativo ou exagerado. Há evidências sólidas sobre os efeitos da música em situações específicas: dor pós-operatória, sintomas motores no Parkinson, qualidade de vida em pacientes com demência, recuperação da linguagem após AVC. Há evidências promissoras sobre ansiedade, estresse e sono. E há afirmações populares, frequências milagrosas, playlists que prometem sincronizar os hemisférios cerebrais, que ele examina e descarta com precisão.

Essa postura equilibrada confere ao livro credibilidade para ir além do óbvio. Levitin não está vendendo a ideia de que a música cura tudo. Está mostrando que ela atua sobre mecanismos biológicos reais, capazes de influenciar emoções, memória, atenção, movimento, dor e interação social de maneiras que a ciência hoje consegue descrever com crescente precisão. E que, quando utilizada com base nesse conhecimento, pode ocupar um lugar legítimo entre as ferramentas complementares de promoção da saúde.

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