O que o investidor pode pagar pelo BRICS Pay

Na cúpula de Nova Délhi, prevista para setembro, o BRICS deve lançar oficialmente o BRICS Pay, uma infraestrutura de pagamentos que pretende conectar o Pix brasileiro ao UPI indiano, ao CIPS chinês e ao SPFS russo. A narrativa que acompanha a iniciativa é atraente, fala em autonomia, multipolaridade e fim da hegemonia do dólar. Mas para quem tem capital alocado no Brasil, a questão não é ideológica, é de custo. Qual o preço do risco de aderir a esse sistema agora? A resposta tende a ser desconfortável.

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Antes de mais nada, vale entender o que o BRICS Pay realmente representa hoje. Não é uma moeda, nem um sistema unificado, mas uma tentativa de interoperabilidade que o próprio ecossistema do bloco descreve como fragmentada, bilateral e experimental, um padrão de QR code aqui, uma ponte de moeda digital ali, o mBridge movimentando volumes ainda modestos frente ao fluxo financeiro global. O que existe na prática é bem menor do que o que é prometido.

Donald Trump já ameaçou impor tarifa de 100% a qualquer país do BRICS que avance contra o dólar, e um projeto no Senado americano prevê tarifa secundária de até 500% para quem mantiver certos fluxos com a Rússia. Essa mesma lógica transformou o Pix, sistema doméstico usado por mais de 90% dos adultos brasileiros, em alvo da justificativa para a tarifa de 25% aplicada em julho sob a Seção 301 da legislação comercial americana.

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Um sistema de pagamento usado entre padarias e mães que enviam dinheiro ao filho na faculdade virou, assim, barreira comercial, um enquadramento tecnicamente questionável, já que o Pix é infraestrutura pública de pagamento interno, não uma arma cambial ou instrumento contra o dólar. Ainda assim, o investidor não costuma perder tempo avaliando se a medida é justa, e a realidade é que Washington passa a tratar trilhos de pagamento como arena de disputa geopolítica.

A isso se soma a designação do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, em vigor desde junho, o que adiciona uma camada extra de exposição a qualquer trilho de pagamento que possa, mesmo remotamente, se conectar a fluxos ilícitos. Um sistema como o BRICS Pay, com governança difusa e múltiplas jurisdições de alto risco, é exatamente o tipo de estrutura que a área de compliance de um banco sério observa com desconfiança.

O sistema financeiro brasileiro é profundamente dependente do dólar. Os grandes bancos mantêm relações de correspondência em Nova York, captam recursos no exterior e liquidam commodities em dólar. O custo de um banco brasileiro ser visto por Washington como parte ativa de uma arquitetura anti-dólar é significativo, envolvendo perda de linhas de correspondente, encarecimento de captação e um prêmio de risco que tende a grudar na ação e não sair. O ganho marginal de eficiência que o BRICS Pay poderia oferecer dificilmente compensaria essa conta, na avaliação do texto.

Nada disso significa antiamericanismo ou defesa cega do dólar. Os Estados Unidos seguem como centro de gravidade do sistema financeiro global por razões concretas, como profundidade de mercado, previsibilidade jurídica e liquidez sem paralelo. A crítica do bloco à chamada dolarização armada tem fundamento, e o crescimento da lista de sanções do Tesouro americano, que saltou de menos de mil nomes em 2000 para quase vinte mil hoje, ajuda a explicar por que tantos países buscam alternativas. O ponto de discordância não está no diagnóstico do bloco, mas na solução oferecida e no momento em que ela chega.

A história oferece um paralelo de alerta para quem adere cedo demais a um bloco monetário. Entre 1945 e 1971, dezenas de países ficaram presos à chamada área da libra esterlina, obrigados por controle cambial e ameaça comercial a manter reservas em libra no Banco da Inglaterra, proibidos de diversificar para dólar ou ouro, sob risco de expulsão do arranjo. Enquanto isso, o mercado já não depositava confiança total na moeda britânica, desvalorizada duas vezes, em 1949 e 1967. Quem estava atrelado a esse sistema não ganhou autonomia, apenas herdou o custo da decadência alheia.

Para o Brasil, aderir com entusiasmo ao BRICS Pay neste momento significaria assumir um risco concreto e imediato de sanção secundária em troca de um benefício ainda difuso e distante, trocando um custo real hoje por uma promessa de autonomia que o próprio bloco ainda não consegue entregar. Segundo essa leitura, o comportamento dos bancos tende a revelar mais do que os discursos oficiais da cúpula, já que, se as grandes instituições brasileiras mantiverem distância prudente do BRICS Pay, isso funcionaria como um sinal, pelo próprio balanço, daquilo que a diplomacia dificilmente diria abertamente.

Vale notar que essa é uma leitura entre várias possíveis sobre o tema. Defensores do BRICS Pay argumentam que a diversificação de sistemas de pagamento reduz a dependência de um único ponto de vulnerabilidade geopolítica no longo prazo, e que os custos de adesão tendem a cair à medida que a infraestrutura amadurece e mais países participam. Para essa visão, esperar demais para se integrar também tem um preço, o de ficar de fora quando o sistema global de pagamentos multipolar de fato se consolidar.

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