Sem carne no prato: como o veganismo deixou de ser exceção no Brasil

Há dez anos, pedir um prato vegano em um restaurante fora dos grandes centros urbanos brasileiros era tarefa quase impossível. Hoje, o Brasil é considerado o país com a maior oferta de estabelecimentos vegetarianos e veganos da América Latina, com mais de 2,9 mil endereços dedicados a esse público, segundo a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB).

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Uma pesquisa do instituto Datafolha, encomendada pela SVB e divulgada em março de 2025, mostra a dimensão do fenômeno: 7% da população brasileira, cerca de 14 milhões de pessoas, se declara vegana. Outros 22% dos entrevistados afirmam já ter tentado parar de comer carne em algum momento da vida, e 74% dizem estar dispostos a reduzir ou eliminar o consumo de proteína animal, seja por motivos de saúde, meio ambiente ou bem-estar animal.

O crescimento do veganismo deixou de ser um movimento restrito a grupos ativistas para se tornar um segmento econômico relevante. O mercado brasileiro de alimentos plant-based faturou cerca de R$ 821 milhões em 2022, alta de aproximadamente 42% em relação ao ano anterior, segundo dados compilados pela Associação Brasileira de Veganismo. O segmento de bebidas vegetais, os chamados “leites” à base de plantas, movimentou outros R$ 612 milhões no mesmo período.

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O apetite do mercado por esse público também aparece em números do Ministério da Economia: o número de empresas registradas com a palavra “vegano” no nome cresceu mais de 500% na última década. As buscas pelo termo no Google aumentaram 300% entre 2016 e 2021, um sinal do interesse crescente mesmo entre quem não se declara adepto da dieta.

Iniciativas internacionais também ganharam tração por aqui. O Veganuary, campanha que convida pessoas a experimentar uma alimentação vegana durante o mês de janeiro, realizou em 2026 sua segunda edição oficial no Brasil em parceria com a SVB, dentro de um movimento que, segundo a organização, já reuniu 30 milhões de participantes no mundo todo.

Segundo pesquisadores e entidades do setor, três motivações aparecem com mais frequência entre quem reduz ou elimina o consumo de carne: saúde, bem-estar animal e impacto ambiental. A preocupação climática ganhou peso especial nos últimos anos, à medida que estudos associaram a produção de carne bovina a uma parcela expressiva das emissões de gases de efeito estufa do país.

A pecuária responde por mais da metade das emissões brasileiras, segundo o Observatório do Clima. Esse debate ficou ainda mais visível durante a COP30, realizada em Belém em novembro de 2025. Organizações vegetarianas promoveram ações para associar escolhas alimentares à agenda climática, como a campanha “Garfos pelo planeta”, que buscou conectar a conferência a mobilizações ambientais em diferentes regiões do país.

Nem todos os especialistas veem a equação de forma tão direta. Setores ligados ao agronegócio argumentam que a comparação entre dietas ignora diferenças de escala, geografia e sistema produtivo: carne produzida em sistemas de pasto extensivo tem uma pegada de carbono diferente da criada em sistemas intensivos ou com manejo de baixo carbono, por exemplo.

Entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defendem que a resposta ao problema climático está em tecnologia e manejo, não na eliminação do consumo de carne, e apontam que o Brasil também é responsável por alimentar parte significativa do mundo através de suas exportações.

Nutricionistas, por sua vez, costumam ponderar que dietas veganas bem planejadas podem ser seguras e nutritivas para a maioria das pessoas, mas alertam para a necessidade de atenção a nutrientes como vitamina B12, ferro, zinco e ômega-3, que exigem suplementação ou fontes vegetais específicas quando a alimentação de origem animal é totalmente excluída.

Além da alimentação, o veganismo avança em setores como moda, cosméticos e produtos de limpeza. A SVB criou o Selo Vegano, que certifica produtos livres de ingredientes de origem animal, hoje presente em milhares de itens no mercado brasileiro. Globalmente, o mercado de cosméticos veganos deve atingir US$ 20,8 bilhões, segundo estimativas do setor, crescendo a um ritmo de mais de 6% ao ano.

Personalidades públicas também ajudaram a popularizar o tema nas últimas duas décadas, tornando a alimentação baseada em plantas menos associada a um estilo de vida radical e mais a uma escolha entre outras, discutida abertamente em consultórios médicos, supermercados e mesas de família.

O que os números mais recentes sugerem é que o veganismo brasileiro deixou de ser um fenômeno de fronteira. Ele hoje dialoga, às vezes em consenso, às vezes em tensão, com um dos setores mais importantes da economia nacional, o agronegócio, em um debate que deve se aprofundar à medida que o Brasil avança em suas metas climáticas para a próxima década.

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