Passeio em cemitério estreia e revela cultura capixaba

Com frequência, os cemitérios são associados à morbidez e ao falecimento. Afinal, um espaço de descanso frequentemente abriga histórias e lendas que podem arrepiar até os mais corajosos.

Continua após a publicidade

No entanto, é possível dar um novo significado a esses locais. Muito além do luto, os cemitérios também são espaços de memórias, onde as pessoas viveram, criaram e, mesmo na ausência física, continuam presentes em ambientes, obras arquitetônicas e artísticas, e em vidas.

Uma tendência já presente em países europeus e em outros estados brasileiros, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o Espírito Santo passou a ter um necrotour, e o Folha Vitória foi conferir como funciona.

Continua após a publicidade

O local escolhido para a estreia foi o Cemitério de Santo Antônio, em Vitória, onde estão enterradas algumas das personalidades mais notáveis do estado. Figuras como Darcy Castello de Mendonça, Milson Henriques, Wilson Freitas e Américo Buaiz repousam ali.

O tour não foi concebido para assustar ninguém; pelo contrário, seu objetivo é a apreciação de obras arquitetônicas e a exploração de tudo que um cemitério pode oferecer para compreender a história do Espírito Santo.

Como funciona?

O necrotour foi organizado no sábado pela Michele Turismo e contou com 52 participantes. O passeio teve início às 14h e se estendeu até as 16h. Funciona como um tour turístico comum, percorrendo sepulturas das mais majestosas às mais simples.

O que realmente determina a atração são as pessoas enterradas ali e sua relação com o estado, tudo sob o comando da guia turística Rute Rocha.

O Cemitério de Santo Antônio foi escolhido exatamente por esse motivo. O espaço é mais antigo que o próprio bairro onde se situa. No começo do século XX, para enterrar um ente querido era preciso chamar um bonde funerário, que transportava o corpo de qualquer lugar da cidade até os mausoléus.

E são justamente os mausoléus que mais chamaram a atenção da socióloga Clarice Ladislau, moradora da Serra.

Isso se deve ao fato de que túmulos mais ornamentados e imponentes geralmente pertencem a famílias de maior poder aquisitivo, enquanto pessoas solteiras ou não casadas recebem homenagens que reafirmam o estado civil nas lápides, o que, segundo ela, ajuda a refletir conceitos sociais estabelecidos ainda em vida.

Estava lendo uma obra de José de Souza Martins, ‘A Sociologia do Cotidiano’, e já na segunda crônica ele relata uma pesquisa em cemitério e notou que ali também podemos compreender a sociedade. Logo no início, vemos que famílias importantes possuem jazigos enormes, com toda a família. Para pessoas solteiras, costuma ser algo como ‘saudades dos pais e das irmãs’.

Clarice Ladislau, socióloga

Passeio de família

Em qualquer tour turístico, é comum ver pessoas com câmeras fotográficas, imortalizando o que veem pelo caminho.

No primeiro necrotour do estado não foi diferente. No cemitério, era possível observar uma dupla atenta a todos os detalhes do passeio.

Lidiane Santos Maia Martinelli levou o filho, Brian Maia Martinelli, de 11 anos, para aproveitar o passeio, e o menino, já experiente em turismo histórico, aprovou a experiência com entusiasmo.

“Gostei muito de aprender sobre a cultura e a história. Já visitei aldeias indígenas, catedrais no Rio de Janeiro, vários museus em Vitória e Vila Velha. Gosto muito de arte”, contou.

Como boa fotógrafa, Lidiane diz que sempre aproveita os passeios com o filho para expandir seu portfólio de fotos artísticas.

O necrotour, no entanto, foi especial, pois Lidiane é uma grande admiradora da arte cemiterial.

Foi uma experiência muito enriquecedora, porque nos traz a história de pessoas muito importantes e suas trajetórias, e achei esse aprendizado muito importante. Aproveito para fotografar, que é algo que amo fazer, ainda mais a arte cemiterial, pela qual tenho muita admiração. Agradeço pela oportunidade de conhecer as histórias do nosso estado.

Lidiane Santos Maia Martinelli

Aula de História ao vivo

Os participantes do primeiro necrotour vieram de várias regiões do Brasil e do Espírito Santo. Havia pessoas de Minas Gerais, Rio de Janeiro e até do Sul do país.

Também houve quem veio do Sul do estado para aproveitar a primeira chance de ouvir histórias em um cemitério, como a técnica em radiologia Dielle Brandão, que foi de Itapemirim a Vitória.

Grande fã de História, ela contou que, assim que soube do necrotour, sentiu que precisava participar para mergulhar de fato no passado do Espírito Santo.

Sempre gostei de coisas antigas, igrejas, cemitérios também. Quando surgiu esse tour, fiquei animada. Foi ótimo conhecer os túmulos antigos. Foi uma aula de história ao vivo.

Dielle Santos, técnica em radiologia

Gente das mais diversas trajetórias

O Espírito Santo é um estado rico em histórias humanas. Por aqui viveram atletas, ícones das artes gráficas e da política. Essas trajetórias levam a questionar se uma vida realmente termina quando o corpo é enterrado.

Por exemplo, diariamente as pessoas passam sobre a Terceira Ponte, mas o nome oficial da estrutura é Ponte Deputado Darcy Castello de Mendonça.

Falecido em 1982, Darcy foi muito mais que deputado. Exerceu cargos como jornalista, radialista e advogado.

Chegou ao estado ainda criança e ajudava a mãe a vender laranjas. Além disso, a auxiliou em outra área crucial: a aprender a ler e escrever.

E o nome Wilson Freitas? Parece comum, mas tem uma história extraordinária. O remador capixaba foi o único a representar o Espírito Santo nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.

Pelo cemitério, há também pontos de homenagem evidentes a quem já se foi. É possível ver balas e doces por toda parte, especialmente nos túmulos das crianças.

Na lápide do menino Fernandinho, falecido em 1987, suas balas favoritas sabor iogurte não podem faltar.

Outro ponto imperdível para os visitantes é o túmulo da cigana Adélia Gomes Kostich. Devotos de todo o Espírito Santo fazem uma parada obrigatória na lápide para pedir ajuda, seja na área financeira, seja no amor.

Encontrar o túmulo é fácil: basta procurar pela sepultura amarela e com mais flores e perfumes no local.

“As pessoas pedem ajuda em namoro; no Dia dos Namorados, lotou de pedidos. Depois, trazem plaquinhas pelas graças recebidas, assim como bebidas e flores, em agradecimento”, contou a guia do passeio, Rute Rocha.

Vida e legado

Sobre o passeio, a guia turística relata que o interesse e a participação das pessoas são fundamentais para manter as histórias vivas e ampliar o alcance da cultura capixaba.

“Hoje tivemos uma participação incrível, fiquei muito orgulhosa. Conhecemos histórias incríveis, maravilhosas. Fiquei emocionada porque falei de pessoas que ouvia na minha infância, no rádio, nos jornais”, afirmou.

Ainda segundo ela, o passeio teve um sabor especial, por poder contar histórias de pessoas que participaram de sua própria vida, mesmo que indiretamente.

O necrotour, segundo ela, ajudou ainda mais a perceber que os legados, diferente do corpo, não morrem.

Foi algo inimaginável; me preparei, me esforcei, mas superou minhas expectativas, porque as pessoas estavam sedentas para conhecer as histórias. Hoje falamos de vida e esse era o objetivo, e foi cumprido: as memórias existem. Quisemos tocar na memória e no legado que as pessoas de quem contei essas histórias deixaram. Até perguntei: o que você vai deixar para as pessoas contarem sobre você depois da sua morte?

Rute Rocha, guia de turismo

Continua após a publicidade
Redação
Redação
Redação representa o esforço colaborativo de toda a equipe de jornalistas e editores dO Capixaba. Por meio de um trabalho integrado e multidisciplinar, contextualizando as informações e acompanhando as novidades do momento com agilidade e rigor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
26ºC
Máxima
27ºC
Mínima
18ºC
HOJE
10/07 - Sex
Amanhecer
06:17 am
Anoitecer
05:15 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
4.52 km/h

Média
22.5ºC
Máxima
26ºC
Mínima
19ºC
AMANHÃ
11/07 - Sáb
Amanhecer
06:17 am
Anoitecer
05:15 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
4.92 km/h

Review: Yonex Percept 100

Reinaldo Olecio

Leia também