PORTO ALEGRE (RS) — Um número crescente de brasileiros acima dos 60 anos está aproveitando a aposentadoria para transformá-la em um período de descobertas. Eles usam o tempo disponível para viajar com regularidade, programar itinerários com cuidado e optar por períodos mais baratos. Essa tendência, motivada pela flexibilidade de horários e pelo desejo de viver novas aventuras, está remodelando o perfil do setor turístico nacional, dando destaque a um público maduro que prioriza conforto, segurança e uma boa relação entre preço e qualidade.
Informações de um levantamento nacional com pessoas idosas mostram que metade desse público realiza pelo menos três viagens por ano, e cerca de 90% têm autonomia para decidir as datas, um benefício que possibilita evitar as épocas mais caras. A pesquisa também indica que 73% valorizam o custo-benefício, enquanto a praia aparece como o local favorito, seguida por alternativas ligadas à natureza e ao lazer.
Flexibilidade e planejamento definem nova era do turismo para a terceira idade
A aposentada Ilka Rota Calvete exemplifica essa nova realidade. Ao longo de quatro décadas de viagens, ela visitou quase 70 países, tanto sozinha quanto em grupo. Para ela, a experiência vai além do entretenimento: “As pessoas, como vivem, a alimentação, a gastronomia. E as amizades, porque a gente sempre acaba fazendo amizade com alguém”, conta. Seu plano é alcançar 100 destinos, desde que a saúde permita. “Enquanto a cabeça comandar e as pernas obedecerem, a gente vai”, sintetiza.
Excursões em grupo também estão ganhando popularidade. Minervina Silveira Torales, de 64 anos, já tem sua próxima viagem agendada para Costão do Santinho, em Santa Catarina. “Sempre que eu posso, eu vou. Agora a gente foi a Natal, já fomos a Fortaleza, adoro viajar”, afirma. Célia Marciano Nunes, de 78 anos, perdeu a conta de quantas viagens fez recentemente: “Fortaleza, Salvador, Maceió… no Nordeste, eu acho que já fomos em todos”, declara.
Estudo aponta obstáculos e possibilidades no cuidado com o viajante idoso
A pesquisa, liderada pela especialista Cléa Klouri, ressalta que viajar na melhor idade representa independência e crescimento. “A viagem tem esse significado da autonomia, de viver novas experiências, aprender coisas novas e conhecer pessoas”, observa. Entretanto, sete em cada dez entrevistados afirmam que os serviços turísticos ainda não são planejados para essa faixa etária. As críticas mais comuns envolvem excesso de automatização, atendimento sem preparo e roteiros desgastantes.
Profissionais da área sugerem priorizar acomodações bem situadas e suporte presencial. “Esse olhar para o que as empresas de turismo podem entregar é uma oportunidade muito grande”, enfatiza Cléa. No Rio Grande do Sul, a procura por itinerários adaptados vem aumentando de maneira constante.
Sesc/RS expande oferta de pacotes para a maturidade ativa
Conforme a coordenadora de Turismo do Sesc/RS, Cintia Amaral, a demanda entre pessoas com mais de 60 anos sobe de 10% a 15% anualmente, impulsionada pelos grupos do programa de maturidade ativa. “O público já está dentro das unidades do Sesc e passa a pedir as viagens”, explica. Os pacotes incluem supervisão de guias desde a partida até o destino, atenção personalizada com dados de saúde, ritmo mais calmo, além de cuidados com acessibilidade e alimentação durante todo o dia.
Outro diferencial é o parcelamento em até 24 vezes sem juros, por boleto ou cartão. Hoje, aproximadamente metade dos viajantes tem mais de 65 anos, e há clientes com até 94 anos participando dos roteiros. Uma análise interna do Sesc, com 1.960 participantes de 54 unidades, revelou os destinos mais cobiçados: Florianópolis (SC), Campos do Jordão (SP) e Caldas Novas (GO), além de Lençóis Maranhenses (MA) e roteiros internacionais como a Itália.







