Análise revela que o turismo religioso no Brasil tem potencial maior que dados oficiais indicam
Com base em números recentes de grandes romarias em 2025, uma análise aponta que o potencial deste segmento no Brasil é significativamente superior ao que os dados oficialmente difundidos revelam.
Antes de qualquer avaliação sobre o turismo religioso no Brasil, é fundamental reconhecer o que o próprio Ministério do Turismo estabelece em seu marco conceitual: romarias, peregrinações e festas religiosas — especialmente as festas de padroeiros — são elementos estruturantes desse segmento.
Contudo, ao mesmo tempo em que esse entendimento institucional é respeitado, surge uma preocupação crescente: os dados oficiais amplamente divulgados não acompanham a realidade atual dos destinos.
Esta análise se baseia em uma nova pesquisa técnica conduzida pelo turismólogo e especialista em Turismo Religioso Sidnesio Moura, reconhecido como uma das principais referências do segmento no Brasil. Ele é autor de diversos artigos publicados em veículos de alcance nacional, como a Revista Qual Viagem e Diário do Turismo, além de atuar como colunista de turismo no Diário do RN e no portal Turismo em Alagoas, com publicações como Turismo de Experiência e Fé no Vatican News.
Sidnesio Moura também é CEO do Fórum Nacional de Turismo Religioso, considerado o único evento técnico, científico e de articulação institucional do Brasil dedicado exclusivamente ao turismo religioso. O Fórum reúne lideranças públicas, privadas, acadêmicas e religiosas de todo o país, consolidando-se como um espaço estratégico para fortalecer a governança, a inovação e o desenvolvimento sustentável do segmento.
Um erro que remonta a 2015
Em 2015, o Ministério do Turismo registrava 17,7 milhões de pessoas no turismo religioso, com dados levantados a partir de 344 destinos e 96 atrações.
Já naquela época, uma análise realizada pelo jornalista Amadeu Castanho, em conjunto com o turismólogo Sidnesio Moura, apontava uma distorção relevante.
Apenas alguns dos principais destinos religiosos do país já ultrapassavam, isoladamente, os dados nacionais divulgados:
- A Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Aparecida, atingia cerca de 12,1 milhões de visitantes em 2015
- O Círio de Nazaré, em Belém, reunia aproximadamente 2,4 milhões de pessoas
- As romarias ligadas a Padre Cícero, em Juazeiro do Norte (CE), movimentavam cerca de 2,5 milhões de fiéis
- O Santuário de Santa Paulina, em Nova Trento (SC), registrava aproximadamente 840 mil visitantes
- O Santuário do Bom Jesus da Lapa, na Bahia, alcançava cerca de 1,5 milhão de pessoas
Somados, esses cinco destinos totalizavam cerca de 18,5 milhões de visitantes.
Ou seja, apenas cinco polos religiosos praticamente igualavam — e em alguns cenários superavam — os dados nacionais apresentados na época.
Além disso, se fossem incluídas a Romaria do Divino Pai Eterno e a visita anual à Basílica, que já reunia cerca de 4 milhões de pessoas em 2015, os números ultrapassariam com folga qualquer estimativa oficial daquele período.
O cenário se repete em 2025
Quase dez anos depois, a realidade não apenas se manteve, mas se ampliou.
Uma análise baseada em dados divulgados em 2025 por fontes institucionais e veículos de comunicação revela um cenário que merece atenção, mostrando que o mesmo padrão se repete.
Apenas quatro grandes manifestações religiosas no Brasil já somam números expressivos:
- A Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida registrou aproximadamente 10,5 milhões de visitantes em 2025, conforme dados do próprio santuário
- O Círio de Nazaré, em Belém, reuniu cerca de 2,6 milhões de pessoas em 2025, segundo informações do G1
- A Festa da Penha, em Vila Velha, alcançou cerca de 2,7 milhões de peregrinos em 2025, conforme dados do site oficial do evento
- A Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade, registrou aproximadamente 4,3 milhões de participantes em 2025, segundo dados da Prefeitura Municipal de Trindade/GO e da Polícia Militar
Somados, esses quatro destinos atingem aproximadamente 20,1 milhões de pessoas apenas em 2025.
Ou seja, apenas quatro eventos, em um único ano, já superam os dados nacionais consolidados divulgados há quase uma década.
A força das romarias: experiência e impacto
A vivência dessas manifestações reforça o que os números já indicam. A Festa da Penha, por exemplo, demonstra uma força impressionante de mobilização.
A tradicional Romaria dos Homens, realizada dentro da programação de 2025, mais uma vez superou expectativas, reunindo milhares de fiéis em um dos momentos mais marcantes da festa. A caminhada, carregada de fé e devoção, revela não apenas a dimensão espiritual do evento, mas também seu impacto social, cultural e econômico.
Uma leitura necessária: o turismo religioso está subdimensionado
Diante desse histórico — tanto em 2015 quanto em 2025 — a constatação se fortalece: o turismo religioso no Brasil vem sendo subdimensionado há anos.
Diante desses dados, torna-se inevitável uma constatação: não se trata de projeções, mas de números reais, provenientes de santuários, instituições religiosas, poder público local, veículos de comunicação de alcance nacional e plataformas oficiais dos eventos. São dados consolidados na prática dos territórios.
E os outros destinos?
Se apenas quatro destinos já ultrapassam os números nacionais, a dimensão real do turismo religioso brasileiro se amplia ainda mais quando observamos outros polos consolidados, como Juazeiro do Norte (CE), Canindé (CE), Nova Trento (SC), entre muitos outros destinos espalhados pelo país, que recebem fluxos contínuos de peregrinos ao longo do ano e contribuem significativamente para a economia local.
Um chamado à atualização e ao planejamento
Diante desse cenário, torna-se fundamental que o Ministério do Turismo avance na atualização de seus dados e metodologias, acompanhando a realidade atual dos fluxos turísticos religiosos. Com dados mais consistentes, será possível planejar melhor os destinos, direcionar investimentos, fortalecer a governança turística, qualificar a experiência dos visitantes e ampliar o impacto econômico do setor.
Conclusão: mais que números, uma realidade consolidada
O turismo religioso no Brasil não pode mais ser interpretado com base em dados defasados.
Os números de 2015 já demonstravam inconsistências. Os dados de 2025 apenas confirmam essa realidade.
O que se observa é um segmento robusto, crescente e com forte capacidade de mobilização.
Diante disso, os números oficiais representam apenas uma fração do potencial existente — a ponta do iceberg.
Reconhecer essa dimensão é essencial para que o Brasil avance no planejamento, investimento e valorização de um dos segmentos mais fortes do seu turismo.






