Moonlighter 2: The Endless Vault é grande evolução do antecessor mas não em tudo

Ano após ano, os roguelikes buscam maneiras de reinventar uma fórmula marcada pela repetição. Em boa parte deles, o jogador precisa lidar com tarefas paralelas que fogem da rotina de invadir masmorras, morrer e recomeçar.

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Lançado em 2018, Moonlighter chegou como um roguelike aparentemente comum. Na trama, o jogador conhecia Will, um comerciante da cidade de Rynoka, famosa por suas masmorras misteriosas. A proposta parecia clichê e repetitiva, até que uma mecânica curiosa chamava a atenção: enquanto enfrentava monstros incompreensíveis, o jogador também precisava administrar uma loja, a própria Moonlighter.

Essa mistura de vendas e combates rendeu ao título o merecido reconhecimento no cenário indie. Oito anos mais tarde, Moonlighter 2: The Endless Vault surge para dar sequência à jornada do mercador mais querido dos fãs.

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Uma sequência

A história retoma os eventos logo após o desfecho do primeiro jogo. Will e seus companheiros precisam evacuar Rynoka depois da invasão de Moloch, uma entidade que ambiciona dominar por completo as masmorras ao redor da cidade. Instalado no remoto vilarejo de Tresna, o mercador tem de reabrir a Moonlighter, reunir novas relíquias e reconquistar sua cidade natal.

Mas ele não fará isso sozinho. Um cofre misterioso aparece no centro do vilarejo e promete recompensas valiosas caso o comerciante cumpra suas missões — que consistem em alcançar determinada quantia em dinheiro. Além disso, Tresna vira refúgio não apenas dos antigos moradores de Rynoka, mas também de outros aventureiros encontrados ao longo do caminho, que igualmente darão uma mão a Will.

Ao contrário do primeiro título, a exploração não acontece em masmorras, e sim em regiões do continente. O que salta aos olhos é a variedade e a beleza dos cenários de batalha. Seja numa floresta dominada por duas bruxas, num imenso deserto ou numa galeria controlada por um curador, a transição do 2D para o 3D é a principal marca da evolução de Moonlighter 2 em relação ao antecessor.

Uma grande evolução

Logo no começo, Will aparece num deserto — agora em 3D. Bem distantes dos quadrados cercados onde os combates do primeiro jogo aconteciam, os novos cenários de batalha trazem mais detalhes e elementos destrutíveis. O jogo também aprimora tudo: animações, ataques, melhorias e outros pontos da experiência. Aquilo que você possa ter sentido falta em Moonlighter foi incluído nesta sequência.

As campanhas das antigas masmorras se resumiam a três andares curtos e salas que podiam ser ignoradas. Agora, elas se espalham por uma ampla interface que mostra diversos caminhos entre os quais o jogador escolhe, em moldes parecidos com outros roguelikes, como Cult of The Lamb. Cada trajeto oferece recompensas distintas, representadas por imagens em cada rota.

As armas igualmente ganharam um novo design. O arco, por exemplo, se transformou numa arma de tiro que ajuda Will contra inimigos comuns e, sobretudo, contra os voadores — uma das maiores fraquezas dele no primeiro jogo.

Outras, por sua vez, permaneceram, como a espada longa e a lança. A dupla formada por espada e escudo deu lugar a uma espada curta, capaz de golpes velozes, porém de alcance reduzido. Todas contam com um ataque especial próprio, o que garante variedade ao estilo de luta.

Só que elas não são equilibradas entre si. A espada curta sofre apenas com o alcance, algo que dá para contornar com upgrades ao longo das campanhas. A espada longa, por outro lado, precisa ser afiada nos próprios inimigos. Isso quebra o ritmo do combate, interrompido obrigatoriamente de tempos em tempos, e deixa a arma quase inviável nas batalhas.

No que diz respeito a melhorias para o personagem, Moonlighter 2 é bastante diversificado. Enquanto no primeiro jogo Will ficava restrito a poções e armaduras, no segundo é possível equipar habilidades passivas, ampliar a mochila, aplicar efeitos nos adversários e muito mais. Todas elas também podem ser aprimoradas, o que abre um leque de possibilidades para deixar o personagem forte — exatamente o que se espera de um roguelike.

Will também está mais habilidoso. A mochila pode ser usada para dar parry nos ataques e arremessar inimigos, eliminando-os ao jogá-los de um precipício. Também dá para rolar com mais facilidade para desviar e recorrer a finalizadores exclusivos de cada arma: um arsenal de combate bem mais amplo do que o do antecessor.

As lutas contra chefes foram outro ponto aprimorado. Criativas em seus desafios, elas obrigam o jogador a aplicar as mecânicas aprendidas na jornada, além de serem visualmente belas. O chefe final de Aeolia, por exemplo, parece dançar ao lado do jogador num campo de grama e flores — uma forma bonita de retratar uma batalha até a morte entre um guerreiro e um mercador.

Nem tudo, porém, são flores. Moonlighter 2 é de fato uma evolução, mas há um ponto que não melhorou: o sistema de cura. Se no primeiro jogo era fácil recuperar a vida de Will acumulando poções e contando com uma fonte de cura em cada andar, o segundo optou pela restrição máxima — as poções são limitadas e existe apenas uma fonte em toda a campanha, liberada por meio de uma melhoria durante o jogo.

Isso eleva o desafio, mas deixa a experiência mais punitiva do que seria necessário. A chance de conseguir novas poções durante a campanha é pequena, o que limita o jogador a uma ou duas curas, dependendo do quanto esteja evoluído.

Assim, o jogo se transforma numa corrida para não levar dano de forma alguma. Mesmo completando boa parte da campanha com perfeição, gastar as poções em determinado momento pode significar o fim da run inteira. A punição deixa de aparecer como desafio e passa a soar como desânimo, depois de tanto esforço em campanhas mais longas.

E a Moonlighter?

Mesmo distante de Rynoka, o jogador segue como mercador e dono da Moonlighter. A mecânica de venda permanece a mesma: ao voltar das campanhas com os artefatos, Will pode vendê-los aos fregueses, juntar dinheiro e adquirir melhorias para a loja ou para si mesmo.

Entre as novidades estão o termômetro de vendas, que libera melhorias após a venda de certa quantidade de relíquias; um novo pet, que concede vantagens específicas; e os pedestais de venda, que agora possuem atributos próprios.

Se algo realmente piorou, foi o diário do mercador. Apesar da interface melhor nesta sequência, ele perde um recurso essencial: o piso de valor das relíquias. Antes, mesmo sem vender muitas, dava para saber ao menos o valor base. Agora, o jogo obriga o jogador a descobrir tudo no escuro. Um descuido pode fazer você vender um item por bem menos do que ele vale.

O sistema de relíquias mudou de forma radical. Elas não se acumulam mais em packs, mas ocupam slots individuais, mesmo quando repetidas. Cada uma ainda traz um valor de relíquia: quanto maior esse número, mais dinheiro extra o jogador recebe ao vendê-la.

As novas relíquias criaram uma dinâmica diferente com as mochilas. Agora, o maior problema não é administrar o espaço, mas encontrar maneiras de aumentar o valor delas e garantir que não sejam destruídas pelas maldições únicas de cada mundo.

Esse novo balanceamento deixou a passagem pela Moonlighter bem mais curta. Com menos relíquias para vender, a jogabilidade se volta para o combate. A balança entre campanhas e vendas acaba pesando muito mais para o lado das expedições.

Sem esse equilíbrio, a gameplay de Moonlighter 2 se torna cansativa e soa como apenas mais um roguelike. Parte do que tornava o primeiro jogo especial era justamente o momento das vendas. Ainda assim, o desequilíbrio não parece resultado de descuido dos desenvolvedores, mas algo natural diante de tantas implementações no combate.

Conclusão

No fim das contas, Moonlighter 2: The Endless Vault representa um grande avanço em relação ao primeiro jogo. Ele corrige praticamente todas as deficiências perceptíveis do antecessor, seja na pouca variedade de melhorias, no combate pobre ou nos detalhes do mundo. A migração para o 3D deu aos desenvolvedores espaço para aprimorar designs, batalhas de chefes e animações de Will e dos demais personagens.

As interações das novas maldições e o sistema de relíquias reformulado trazem uma dinâmica inédita na hora de organizar a mochila. Em contrapartida, obrigam o jogador a passar menos tempo na Moonlighter, reduzindo o principal diferencial do título. Somado a um diário do mercador que não oferece base para os valores das relíquias, o processo de venda ficou mais cansativo.

Ainda assim, Moonlighter 2: The Endless Vault é um prato cheio para quem gostou do anterior. Com um Will remodelado e mais afiado no combate, o jogo desafia o jogador a explorar os continentes em busca das melhores relíquias para os fregueses.

Prós

  • O jogo aproveita todo o potencial do 3D para entregar um mundo vivo;
  • Novas armas, combates e animações;
  • Variedade de melhorias para o personagem, inexistentes no antecessor;
  • Batalhas de chefe criativas, que usam todas as mecânicas ensinadas durante as campanhas.

Contras

  • O novo sistema de relíquias deixa as vendas na Moonlighter mais entediantes;
  • O diário do mercador não oferece um piso para os valores das relíquias;
  • Sistema de cura que torna a campanha punitiva.

Moonlighter 2: The Endless Vault – PC/XSX/PS5 – Nota: 7.5

Versão utilizada para análise: Xbox Series S

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