Um telefonema pedindo ajuda, um incêndio que não existia e um vídeo de um edifício em chamas para dar aparência de verdade à farsa. Na manhã de 23 de setembro, um chamado sobre uma suposta ocorrência em um shopping de Niterói, na Região Metropolitana do Rio, colocou equipes do Corpo de Bombeiros em movimento. No decorrer do atendimento, o solicitante enviou imagens que levantaram a suspeita de terem sido criadas por inteligência artificial (IA). O caso escancara o nível de sofisticação dos trotes que atrapalham os serviços de emergência: a tecnologia vem sendo usada para produzir registros falsos e dar verossimilhança a situações que jamais ocorreram.
Vídeo falso e suspeita de IA
Entre janeiro e outubro deste ano, o Corpo de Bombeiros do Rio (CBMERJ) registrou 12.275 trotes, contra 19.118 no mesmo período de 2025 — uma queda de 35%. Conforme o porta-voz da corporação, o tenente-coronel Fabio Contreiras, a redução se deve principalmente à adoção do aplicativo 193 RJ, que pede a identificação do usuário por meio da conta Gov.br, e às campanhas de conscientização realizadas nas redes sociais.
Contreiras afirma que o aplicativo impede que o anonimato seja usado para aplicar o que chama de brincadeira sem graça, de mau gosto: o trote.
Esse comportamento levantou a suspeita de trote, mas as equipes foram ao local mesmo assim e constataram que não havia incêndio. A corporação não confirmou, por perícia, que o vídeo tenha sido produzido por IA — a 76ª DP (Niterói) investiga o caso.
O tenente-coronel diz que esse foi o episódio mais recente envolvendo imagens falsas a mobilizar a corporação. Ele observa que a circulação de vídeos e fotografias manipulados para simular incêndios e outros desastres também é verificada em outros países. Esse conteúdo pode se espalhar rapidamente por aplicativos de mensagens e redes sociais, fazendo pessoas acreditarem que uma emergência está em curso e acionarem os serviços de socorro.
A difusão de vídeos e fotografias falsos impõe uma nova dificuldade ao trabalho dos bombeiros. No caso de Niterói, o solicitante informou por telefone que havia um incêndio em um shopping e, durante o atendimento, enviou aos militares um vídeo que mostrava chamas nos andares superiores de um prédio. Ao tentar obter mais informações, a equipe de atendimento percebeu que o homem atendia as ligações e as encerrava em seguida.
Dupla checagem e combate aos trotes
Para enfrentar o problema, o Corpo de Bombeiros passou a adotar protocolos internos de dupla checagem das informações recebidas. Enquanto as viaturas são mobilizadas, a central procura confirmar os detalhes da ocorrência por outros meios, como imagens de câmeras públicas, contato com o solicitante e verificação da existência de outros chamados na mesma região.
A estratégia busca evitar deslocamentos desnecessários sem comprometer a rapidez do atendimento. Segundo Contreiras, o envio das equipes não deve ser atrasado, sobretudo em situações que podem representar risco à vida.
Ele explica que a viatura é despachada, mas, ao mesmo tempo, é feita a checagem. Muitas vezes, a verificação é concluída, o evento não existe, e a corporação consegue fazer com que as viaturas voltem para a unidade no menor tempo possível, para não ficar desguarnecida.
O monitoramento de redes sociais e de canais de comunicação também integra o trabalho da corporação. O objetivo é acompanhar informações sobre possíveis emergências e verificar sua confiabilidade. O porta-voz ressalta, porém, que publicações na internet não são suficientes para justificar o envio de equipes. O acionamento deve ocorrer pelos canais oficiais: o telefone 193 ou o aplicativo 193 RJ.
Contreiras destaca que a corporação só despacha a viatura quando existe um chamado real pelo telefone, quando há um solicitante. Não se envia socorro com base em postagem de rede social, ressalta.
O treinamento dos profissionais que atendem as ligações é outra frente de prevenção. Segundo Contreiras, os militares responsáveis pelo atendimento passam por capacitação específica e seguem orientações para identificar comportamentos compatíveis com trotes.
As ligações feitas da capital são direcionadas ao Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), no centro do Rio, onde 15 atendentes recebem os chamados. Já as originadas nos demais municípios do estado caem nos quartéis da região.
Além de ocupar as linhas telefônicas, os trotes podem comprometer a capacidade de resposta da corporação. Quando viaturas são deslocadas para uma ocorrência falsa, outros quartéis podem precisar assumir os atendimentos na região, aumentando o tempo de deslocamento até emergências reais.
Contreiras alerta que, se três, quatro ou cinco viaturas vão para uma ocorrência falsa e, naquele mesmo momento, uma pessoa tem uma parada cardíaca no meio da rua, certamente a corporação terá que mobilizar uma outra unidade que não necessariamente será a mais próxima. Isso pode causar, inclusive, a perda de vidas.
Custos e perfil dos trotes
Há também os custos operacionais envolvidos nos deslocamentos, que incluem combustível, manutenção dos veículos e horas de trabalho dos profissionais. Um estudo realizado pelo Estado-Maior do CBMERJ entre 2023 e 2025 aponta que o gasto médio institucional por socorro prestado é de R$ 10.793.
Considerando hipoteticamente esse valor para cada um dos 12.275 trotes registrados entre janeiro e outubro deste ano, o montante chegaria a aproximadamente R$ 132,5 milhões. O cálculo, porém, não representa o prejuízo efetivo provocado pelos chamados falsos, uma vez que o custo médio por socorro não corresponde necessariamente ao gasto de cada deslocamento e nem todos os trotes resultam no envio de viaturas.
Embora o perfil de quem passa trotes seja diversificado, os jovens continuam sendo os que mais fazem esse tipo de ligação. Para o porta-voz da corporação, parte deles ainda encara a prática como brincadeira, sem dimensionar os efeitos que um chamado falso pode provocar.
Os trotes mais comuns incluem ligações em que a pessoa não fornece informações, risadas ao fundo, endereços falsos e relatos de ocorrências que não correspondem à realidade.
A corporação pode encaminhar casos às autoridades policiais para investigação. Segundo o porta-voz, a orientação inicial é conscientizar os responsáveis, especialmente quando as ligações são feitas por crianças. Nos casos em que há insistência ou prejuízo ao serviço, outras medidas podem ser adotadas.
Diante da circulação de imagens produzidas ou manipuladas por inteligência artificial, a recomendação é verificar a veracidade das informações antes de compartilhá-las ou acionar os serviços de emergência.
Contreiras afirma que a orientação é basicamente nunca acreditar à primeira vista num vídeo ou numa foto de uma ocorrência. É fundamental que toda informação na internet seja checada.
O porta-voz reforça que o compartilhamento indiscriminado de imagens falsas pode provocar pânico e levar pessoas a acionar os bombeiros inutilmente. A combinação entre conscientização, checagem de informações e identificação dos solicitantes é fundamental para evitar que chamados falsos prejudiquem quem realmente precisa de socorro.







