A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou na quarta-feira (15) novas diretrizes para reduzir o risco de declínio cognitivo e demência no mundo. O documento atualiza as recomendações publicadas em 2019 com base nas evidências científicas mais recentes reunidas nos últimos anos.
Segundo a entidade, 57 milhões de pessoas vivem com demência no mundo, e até 45% dos casos estão associados a fatores de risco modificáveis, como hábitos de vida e condições de saúde que podem ser prevenidas ou tratadas. O percentual não significa, porém, que cada pessoa consiga reduzir individualmente o risco da doença nessa proporção.
No Brasil, o cenário é ainda mais expressivo. A pesquisadora Cleusa Ferri, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante do grupo que participou da elaboração das novas diretrizes, afirma que essa proporção chega a quase 60% no país, um indicador da dimensão do espaço que existe para atuar na prevenção.
A revisão das evidências ampliou o escopo das recomendações e incorporou temas que ganharam relevância científica nos últimos anos. As diretrizes de 2019 já relacionavam a demência a condições como obesidade, diabetes, hipertensão, colesterol elevado, perda auditiva, depressão e alterações relacionadas ao sono. Na atualização de 2026, passaram a integrar o documento novos fatores, entre eles infecção pelo HIV, acidente vascular cerebral, traumatismo craniano, poluição do ar e deficiência visual.
A poluição do ar aparece pela primeira vez entre as recomendações. A OMS orienta reduzir a exposição tanto à poluição ambiental, especialmente às partículas finas (PM2.5), quanto à poluição dentro das residências, como estratégia para diminuir o risco de declínio cognitivo, embora as evidências ainda sejam consideradas limitadas.
Outra novidade é a atenção dada à perda auditiva. A oferta de aparelhos auditivos passou a integrar as recomendações, já que novas evidências apontam a surdez como um dos fatores que podem contribuir para o Alzheimer, sendo um dos poucos fatores de risco sobre os quais é possível agir diretamente. O documento também destaca o papel da vida social, já que a interação social e conversas prazerosas beneficiam o desempenho cognitivo e a linguagem, funcionando como uma barreira preventiva contra o Alzheimer.
Por outro lado, a OMS descarta alguns recursos amplamente utilizados como forma de prevenção. O documento reforça que não há evidências de que suplementos de vitaminas B e E, ômega-3 ou multivitamínicos previnam a demência em pessoas sem deficiência nutricional. A terapia de reposição hormonal também não é recomendada com esse objetivo para mulheres com 65 anos ou mais, enquanto para mulheres mais jovens ainda faltam estudos suficientes para orientar o uso.
Para Cleusa Ferri, o próximo passo é levar essas orientações para dentro das políticas públicas já existentes. O Brasil já desenvolve ações para incentivar a atividade física, combater o tabagismo, reduzir o consumo de álcool e controlar hipertensão e diabetes, e agora é preciso incluir a prevenção da demência nessa estratégia e avaliar quais medidas podem ser incorporadas à realidade do SUS.







