Avisados pelos jornais — tais como A Gazeta (1º de junho de 2026, às 14h10) —, moradores, comerciantes, funcionários e proprietários da Rua Dom Pedro II descobriram que sua tranquilidade, já quase sempre perturbada por questões de segurança pública ou pelo aumento dos custos, terá agora que conviver com trânsito pesado de ônibus, caminhões, motos e outros veículos, ao ver aquele tradicional logradouro ser transformado sem consulta popular e sem respeito à dimensão histórica — tanto social quanto cultural e econômica — do Polo de Confecções da Glória.
O prejuízo não será apenas dos comerciantes e funcionários que perderão negócios e salários, nem apenas dos locatários que perderão seus aluguéis: trata-se de uma agressão à memória social e coletiva local, pois aquele território urbano se constitui em identidade coletiva de compras na região da Grande Vitória — uma construção individual e coletiva de anos, que pode ver parte de si ameaçada por decisões burocráticas que priorizam o fluxo de automóveis em detrimento da segurança física, econômica e social dos pedestres, clientes, locadores e comerciantes.
A atividade econômica da Glória não pode ser reduzida apenas ao cálculo de custo-benefício; nela se inscreve uma longa rede social, política, familiar e de amizades que sustenta longos anos de inovação e apostas comerciais, que transformaram muitas vidas e marcaram a economia capixaba, demonstrando que pequenos, médios e grandes negócios locais e regionais, feitos com planejamento, organização, empreendedorismo, persistência e peleja diária, acabam transformando toda sorte, acaso e contingência em oportunidade de aprendizagem, reconstrução e novos caminhos.
O bairro Glória, com suas camadas históricas, tem muito a nos ensinar, especialmente quanto à sua capacidade de mobilização social e política — hoje dirigida ao chefe do Executivo municipal e ao presidente da Câmara Municipal de Vila Velha, assim como às demais autoridades constituídas e representações de classe e sindicais, para que reconheçam que os impactos negativos sobre o logradouro Dom Pedro II são devastadores, bem longe do título positivado de A Gazeta, quase em tom de publicidade municipal: “Avenida Carioca vai ganhar 3ª faixa e passará a ter ligação com a Lindenberg”.
Esse suposto ganho coletivo, defendido pelo poder municipal em detrimento do trabalho, do emprego, da renda e da história local, comprova o quanto as cidades brasileiras continuam reféns da lógica especulativa e do controle das grandes empreiteiras e consultorias de engenharia e arquitetura, e da ausência de proximidade e escuta das lideranças sociais e políticas, dos cidadãos e dos eleitores.
Ainda temos tempo de reverter esse quadro de ansiedade e de política em que o progresso mostra, visivelmente, o preço de sua afirmação por meio de práticas autoritárias e não democráticas. Por isso, é preciso escuta, diálogo, bom senso e novos encaminhamentos conciliatórios, se ainda for possível — mas a Glória não pode ser descaracterizada em sua identidade primordial, construída com muito esforço: lugar de comprar, o maior shopping ao ar livre do planeta (kkkk).
Eu, que conheci, vivi, passei e convivi com os moradores, e vi parte do seu crescimento, faço saber, infelizmente, no dia do sepultamento de um dos seus maiores entusiastas — que morou por anos na Rua Dom Pedro II —, que essa é uma tragédia urbana recorrente nas cidades brasileiras, que não são construídas para as pessoas!







