Um estudo clínico apresentado nesta semana na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer, em Londres, trouxe um dos resultados mais expressivos já registrados no tratamento de sintomas comportamentais da demência. A pesquisa, batizada de LiBBY, sigla em inglês para “Benefícios do Canabidiol e Tetraidrocanabinol no Fim da Vida”, avaliou uma formulação medicinal combinando THC e CBD em 120 pacientes com idade média de 80 anos, diagnosticados com Alzheimer ou outras formas de demência avançada e elegíveis para cuidados paliativos. O ensaio foi multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, considerado o modelo mais rigoroso disponível para testar a eficácia de um medicamento.
Os resultados surpreenderam até os próprios pesquisadores. Usando o Inventário de Agitação de Cohen-Mansfield, escala validada internacionalmente para medir esse tipo de sintoma, a equipe observou que 83,9% dos pacientes tratados com a formulação apresentaram redução significativa da agitação já em duas semanas, contra 30,5% no grupo placebo. Em doze semanas, a diferença se manteve expressiva, com 87,2% de resposta no grupo tratado contra 23,6% no grupo controle. Segundo Jacobo Mintzer, um dos pesquisadores responsáveis, raramente se observa quase 90% de pacientes respondendo positivamente a um novo medicamento em um ensaio clínico dessa natureza, e a frequência de efeitos adversos foi semelhante entre os dois grupos.
O resultado do LiBBY não surge isolado. Ele se soma a uma série de estudos menores que já apontavam na mesma direção nos últimos anos. Um ensaio clínico randomizado conduzido em Israel, com sessenta pacientes, mostrou que um óleo rico em CBD reduziu a agitação em 60% dos participantes tratados, contra 30% no grupo placebo. Outro estudo americano, conduzido por instituições como Johns Hopkins e Tufts com 75 pacientes, testou o dronabinol, forma sintética do THC já aprovada por agências regulatórias, e encontrou redução de cerca de 30% na agitação em comparação ao placebo. Um estudo observacional suíço, ainda que com apenas dez pacientes, relatou também melhora na rigidez muscular e possibilidade de redução de outros medicamentos psiquiátricos usados por esses idosos.
A explicação biológica por trás desses resultados remonta a pesquisas básicas conduzidas ainda em 2017, quando um grupo de neurocientistas demonstrou que doses muito baixas de THC restauravam padrões de atividade genética e densidade de conexões neurais no hipocampo de camundongos idosos, deixando-os semelhantes aos de animais jovens. A hipótese central é que o sistema endocanabinoide, rede de receptores naturalmente presente no cérebro humano e essencial para o equilíbrio e a plasticidade neural, sofre um declínio natural ao longo do envelhecimento, e que pequenas doses desses compostos ajudariam a compensar essa perda.
Apesar do entusiasmo científico, pesquisadores da área fazem questão de reforçar os limites dessas descobertas. Os estudos com humanos ainda envolvem amostras relativamente pequenas, os efeitos observados costumam se concentrar em sintomas comportamentais, como agitação, e não necessariamente na reversão do quadro cognitivo em si, e qualquer uso terapêutico desses compostos exige acompanhamento médico rigoroso, dado o histórico de efeitos colaterais como sonolência e, em doses elevadas, alterações hepáticas. A expectativa da comunidade científica é que resultados como os do estudo LiBBY sirvam de estímulo para ensaios clínicos maiores, capazes de confirmar, em escala populacional, o que as evidências acumuladas até agora já sugerem com bastante consistência.







