Dominar o repertório sociocultural é essencial para alcançar uma boa nota na Redação do Enem. Para auxiliar os candidatos, O GLOBO consultou especialistas e selecionou cinco temas com chances de aparecer no exame. Para cada um deles, foram escolhidas três referências que podem sustentar diferentes argumentos durante a prova.
Nathan Sena, professor e coordenador de Linguagens do Grupo Elite, parceiro da Amplia Plataforma de Ensino; Amanda Correia, coordenadora de Linguagens do Colégio Alfacem Global Academy; e Isadora Xavier, professora de Linguagens e Redação da Sá Pereira, recomendam bastante cautela com os chamados “repertórios de bolso”.
Essas citações “coringa”, que parecem “guardadas no bolso”, decoradas e pouco aprofundadas pelo aluno, devem ser evitadas, sob risco de perda de ponto, conforme alerta o Inep (autarquia do MEC responsável pelo exame) desde o ano passado:
— O problema não é usar uma referência conhecida, como a Constituição Federal ou a obra de George Orwell, mas apresentá-la sem demonstrar sua pertinência para o debate. É preciso ter consistência argumentativa, e não apenas provar que memorizou uma citação. Uma redação bem construída requer progressão das ideias, relações de causa e consequência e defesa consistente de um ponto de vista — ressalta Nathan Sena.
É indispensável fazer o chamado “uso produtivo” da referência, isto é, integrá-la à sustentação do argumento, em vez de simplesmente inseri-la de maneira “solta”, vazia.
— Referências prontas e decoradas, usadas de forma genérica e sem conexão real com o tema, são consideradas “improdutivas”. Elas enfraquecem a autoria e mostram que o aluno não domina o assunto. O texto fica parecido com milhares de outros. Não zeram a redação, mas impedem as notas mais altas — diz Amanda Correia.
Tecnologia, trabalho e automação
“Tempos modernos”: o filme de Charlie Chaplin critica a mecanização do trabalho e a transformação do ser humano em uma peça da engrenagem produtiva. Com ele, é possível discutir a substituição de trabalhadores por máquinas, a precarização do trabalho e a necessidade de qualificação profissional diante do avanço da inteligência artificial.
“Black Mirror”: alguns episódios exploram as consequências sociais e éticas do uso da tecnologia, da automação e da perda, pelo ser humano, do controle sobre os recursos tecnológicos. A série serve como gancho para abordar a Lei Geral de Proteção de Dados, o isolamento social, as desigualdades e a hipervigilância.
“2001: Uma odisseia no espaço”: o clássico do diretor Stanley Kubrick está prestes a completar 60 anos, mas já apresentava debates atuais, como a ética no uso da tecnologia, a automação do trabalho, a transferência de decisões para as máquinas e os riscos que esse conjunto representa para a vida humana.
Redes, privacidade e proteção de dados
“O dilema das redes”: o documentário ouve especialistas em tecnologia e aborda algoritmos, os mecanismos de recomendação das redes sociais, a coleta de dados e as estratégias de engajamento das plataformas. É útil para discutir o uso compulsivo da internet, a economia da atenção, a exposição perigosa de crianças e adolescentes e a necessidade de um uso consciente das redes.
A Lei Geral de Proteção de Dados: a LGPD disciplina o tratamento de dados pessoais e estabelece princípios e direitos ligados à privacidade. É fundamental para discutir o consentimento, a proteção de informações de menores, a responsabilidade das plataformas e os limites do uso comercial dos dados pessoais.
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital: a legislação, em vigor desde março, estende o ECA e sua proteção integral de crianças e adolescentes ao ambiente virtual. Pode ser citada para tratar de medidas como verificação de idade, vinculação de perfis de menores à conta do responsável legal e vedação de recursos visuais que estimulem o vício.
Inclusão de neurodivergentes

Lei Brasileira de Inclusão: a legislação assegura direitos às pessoas com deficiência e estabelece medidas para eliminar barreiras à participação social. O candidato pode usá-la para discutir acessibilidade, inclusão escolar e combate à discriminação.
“Percy Jackson e os Olimpianos”: a série apresenta Percy, um adolescente com TDAH e dislexia que enfrenta desafios relacionados à aprendizagem e à adaptação escolar. Ela permite discutir a importância de reconhecer diferentes formas de aprender, combater o preconceito e promover estratégias educacionais que respeitem as necessidades de todos os estudantes.
“Atypical”: a série é centrada em um jovem do espectro autista e retrata sua vida em família e na dinâmica escolar. O candidato deve citá-la de forma objetiva, explicando do que se trata e abordando barreiras enfrentadas, capacitismo e formas de contornar os desafios cotidianos em uma sociedade neurotípica, nem sempre aberta a se adaptar aos neurodivergentes.
Desigualdades socioambientais

“Quarto de despejo”: o livro de Carolina Maria de Jesus traz a experiência da autora na favela do Canindé, em São Paulo, expondo a pobreza e a precariedade das condições de vida. Pode ser utilizado para discutir a segregação socioespacial, a falta de saneamento, as moradias precárias e a distribuição desigual da infraestrutura urbana. A relação com o racismo ambiental deve ser construída a partir desses aspectos, sem tratar a obra como um estudo específico sobre o conceito.
“Ideias para adiar o fim do mundo”: o livro de Ailton Krenak critica a visão de que a natureza existe apenas para atender aos interesses humanos. A partir dessa perspectiva, fica fácil argumentar que a exploração predatória dos recursos naturais intensifica os problemas ambientais e ameaça os territórios de povos indígenas e de outras comunidades tradicionais.
“Parasita”: o filme sul-coreano mostra que a mesma chuva que destrói a casa da família pobre é apenas um incômodo para a família rica. É uma imagem direta da vulnerabilidade social diante do clima. A situação retratada encontra paralelo no Brasil, um país com grandes desigualdades dentro da mesma cidade.
Leitura e acesso ao livro

Política Nacional do Livro e Leitura: o candidato pode apontar que o país tem, desde 2003, uma lei específica para incentivar a circulação de livros e a formação de leitores, e dizer que a lei não corrige as desigualdades sociais, que afastam boa parte dos brasileiros da leitura desde a infância até a idade adulta.
MEC Livros: a biblioteca digital pública lançada pelo MEC este ano já conta com mais de 25 mil obras no formato digital e foi acessada, em poucos meses, por mais de 1,3 milhão de usuários. Cada pessoa pode ler quatro obras por mês, gratuitamente. O cadastro pode ser feito por qualquer pessoa que tenha uma conta gov.br.
“Sociedade dos poetas mortos”: o clássico estrelado por Robin Williams fala do fascínio exercido por um professor de literatura de um internato sobre seus alunos. Com métodos não convencionais, ele inspira os alunos a pensar por conta própria e os faz ter outro olhar, mais livre, para o que leem.







