Fake news se espalhando como pólvora, milícias ditando regras, fanatismo religioso, racismo estrutural e um conservadorismo sufocante. A descrição parece um retrato brutal do Brasil contemporâneo, mas é, na verdade, o cenário de 1732. Em seu terceiro romance histórico, “Nada digo de ti, que em ti não veja”, a premiada autora Eliana Alves Cruz realiza um feito literário extraordinário: ela viaja ao passado colonial para nos fazer enxergar, com uma lucidez cortante, as feridas abertas do nosso presente.
Se você procura uma leitura que seja ao mesmo tempo um soco no estômago e um deleite narrativo, este livro, o primeiro da autora publicado pela Pallas Editora, é a escolha perfeita.
Uma Trama Eletrizante de Segredos e Cartas Anônimas
Com pouco mais de 200 páginas, o romance tem o ritmo de um thriller de época. A engrenagem da história é movida por um recurso que conhecemos muito bem hoje, mas que ali ganha roupagem setecentista: as notícias falsas e a difamação, orquestradas por meio de cartas anônimas.
Essas correspondências misteriosas começam a circular pela suja e caótica cidade do Rio de Janeiro, ameaçando expor os segredos mais podres e bem guardados de duas famílias aristocráticas. A partir desse cruzamento de interesses, Eliana Alves Cruz tece uma teia de tensões onde ninguém está totalmente seguro e as aparências valem mais do que a vida.
O Pioneirismo de Olhar para as Margens da História
O grande trunfo da obra, contudo, não está apenas na crítica social óbvia, mas na sensibilidade com que a autora resgata vivências que a historiografia oficial tentou apagar. “Nada digo de ti, que em ti não veja” traz para o centro do romance de época temáticas urgentes e raramente vistas em narrativas desse período, com destaque para a transexualidade.
Ao colocar corpos e identidades dissidentes no tabuleiro do século XVIII, o livro quebra o mito de que certas discussões são “modernas demais”. Eliana nos lembra que essas existências sempre estiveram ali, resistindo ao conservadorismo e às violências de uma sociedade hipócrita.
“A obra é um espelho invertido: ao olharmos para o Rio de Janeiro de 1732, reconhecemos os monstros e as belezas de 2026.”
Amor e Resistência
Mas não se engane achando que o livro se resume à crônica da podridão colonial. Como bem adiantou a escritora Elisa Lucinda na apresentação da obra, este também é o relato de um amor impossível, forte e verdadeiro. É justamente esse afeto que serve de faísca e contraponto em meio a um cenário de delações premiadas, intolerância e preconceito. O amor, aqui, surge como o ato definitivo de resistência.
Por Que Indico Esta Leitura?
Ler Eliana Alves Cruz é um exercício de cidadania e um imenso prazer estético. Sua escrita é ágil, precisa e profundamente pesquisada, fazendo com que o leitor sinta o cheiro das ruas da época e o peso da atmosfera de vigilância que pairava sobre os personagens.
“Nada digo de ti, que em ti não veja” é um livro necessário. Ele nos diverte com sua intriga quase folhetinesca, nos apaixona com seus laços genuínos e nos choca ao mostrar que, embora os séculos passem, o Brasil ainda luta contra os mesmos fantasmas. Terminei a leitura com a certeza de que o passado é apenas um espelho do agora e que precisamos urgentemente decifrá-lo se quisermos mudar o futuro.
Coloque este livro na sua lista de próximas leituras. Você não vai se arrepender.







