A arquitetura do recomeço: Luz e sombra em “A Boa Sorte”, de Rosa Montero

Há momentos na vida em que o peso da própria existência se torna insustentável. Dias em que o desejo mais profundo não é o de viajar, mas o de desaparecer; de dar um reset absoluto na identidade e sumir do mapa. É exatamente nesse limite humano, no limiar entre a ruína e a reinvenção, que a escritora espanhola Rosa Montero constrói “A Boa Sorte”, um romance arrebatador que transita entre o drama psicológico, o suspense e a celebração da vida.

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O ponto de partida é um mistério magnético personificado em Pablo. Ele é um homem que encerra em si mil tensões. Sombrio, exausto e em flagrante fuga de si mesmo, Pablo abdica de uma realidade que muitos cobiçariam: ele é reconhecido como um dos maiores arquitetos de sua geração, um homem cujo ofício sempre foi moldar a beleza e a harmonia no espaço urbano.

No entanto, por razões que o leitor anseia desvendar, ele escolhe como refúgio o exato oposto do belo. Pablo desce do trem em Pozonegro.

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O “Cu do Mundo” como Espelho da Agonia

Pozonegro é um povoado fictício que a autora não hesita em carimbar como “o lugar mais feio do planeta”. Antiga cidade mineira que agoniza desde o fechamento da mina de carvão que a sustentava, Pozonegro é descrita à exaustão com adjetivos implacáveis: sombria, cinzenta, acabada, destruída, abandonada.

Essa cidadela decadente funciona como o cenário perfeito para o isolamento de Pablo. Afinal, por que um esteta, um arquiteto do belo, escolheria a feiura mais radical para se esconder? A resposta a esse primeiro suspense se desdobra lentamente, enquanto a própria cidade atua como um espelho da alma despedaçada de seu novo habitante.

O paradoxo de Pozonegro: É na aspereza do lugar mais feio do mundo que a vida insiste em florescer, provando que a beleza não depende da ausência de cicatrizes, mas da forma como olhamos para elas.

O Encontro das Cores: O Eclipse de Pablo e o Sol de Raluca

Se Pablo é a noite, Raluca é o sol. O coração do livro bate no choque térmico e emocional entre esses dois personagens marcantes.

Raluca surge como uma versão moderna e despretensiosa da clássica Pollyanna. Ela opera o seu próprio “jogo do contente” de forma tão genuína que sequer tem consciência disso. Para Raluca, cada infortúnio, e ela passou por grandes, trazia em seu cerne uma dose oculta de fortuna. Ela não ignora a dor; ela simplesmente escolhe acreditar que a existência, com todos os seus revesses, é um tremendo golpe de sorte.

À medida que as vidas de Pablo e Raluca colidem em Pozonegro, a narrativa se expande para orbitar outros habitantes excêntricos e profundamente humanos:

  • Felipe: Com sua voz enrouquecida e sabedoria calejada.

  • Benito: Dono de pensamentos agressivos e urgentes.

  • Carmencita, Ana Belén e a esquisitona gótica: Cada um carregando seus próprios segredos guardados a sete chaves e expectativas conflitantes.

Uma Polifonia de Segredos: A Arte de Narrar de Montero

Rosa Montero constrói uma experiência de leitura febril através de capítulos curtos e uma estrutura narrativa dinâmica. Começamos guiados por uma voz onisciente em terceira pessoa que, de repente, é invadida pela turbulência psicológica dos personagens.

O leitor é constantemente lançado para dentro da cabeça de Raluca, para os impulsos de Benito ou para as memórias dos demais moradores. Essa costura de fluxos de pensamento cria uma atmosfera de urgência. É um livro para ser “engolido”, onde os gêneros se misturam com maestria: há o suspense da fuga, o drama das perdas, as nuances de uma história de amor improvável e as reviravoltas de uma trama policial.

Reflexões sobre o Bem, o Mal e o Milagre de Estar Vivo

Mais do que um mecanismo de mistério bem azeitado, “A Boa Sorte” nos presenteia com meditações profundas sobre a condição humana. Em um mundo frequentemente bombardeado por notícias tenebrosas, daquelas que lemos nos jornais e nos fazem duvidar do futuro, a obra nos recorda que o Bem e o Mal coexistem, mas a luz tem uma capacidade teimosa de rasgar a escuridão.

O livro se consolida como um manifesto sobre a resiliência. É uma obra para se ler e reler, especialmente naqueles dias em que nós mesmos nos sentimos como Pablo, querendo saltar do trem na primeira estação fantasma para fugir das nossas próprias sombras.

Rosa Montero nos estende a mão através das páginas para lembrar o essencial: apesar das quedas, dos passados mutilados e da feiura que às vezes nos cerca, respirar ainda é o nosso maior privilégio. No fim das contas, temos, quase sempre, uma muito boa sorte por estarmos vivos.

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