Uma noite de calor, o Cineteatro São Luiz lotado e duas trajetórias essenciais para o cinema brasileiro contemporâneo no foco da atenção. A abertura da 36ª edição do Cine Ceará, realizada nesse sábado, 07, foi marcada pela homenagem à produtora Emilie Lesclaux e ao cineasta Kleber Mendonça Filho, parceiros na vida e no trabalho em uma filmografia que ganhou projeção no Brasil e no circuito internacional. A cerimônia também foi o momento de exibir Sul de Teerã, curta-metragem mais recente do diretor pernambucano.
Ainda no São Luiz, os dois conversaram com o Papo de Cinema sobre liberdade criativa, mercado, crítica e os caminhos percorridos por seus filmes.
Uma parceria de cinema
Homenageados com o Troféu Eusélio Oliveira, Emilie e Kleber representam frentes complementares de uma mesma trajetória. Francesa radicada no Recife, Emilie é produtora e uma das fundadoras da Cinemascópio, produtora independente pernambucana criada ao lado de Kleber. Ele é diretor, roteirista e também construiu uma carreira anterior como crítico e jornalista de cinema. Juntos, firmaram uma parceria que consagrou títulos como O Som ao Redor (2013), Aquarius (2016), Bacurau (2019), codirigido por Kleber e Juliano Dornelles, e, claro, O Agente Secreto (2025).
O reconhecimento internacional dessa trajetória alcançou uma dimensão especialmente expressiva com este último. O Agente Secreto, com Wagner Moura, recebeu quatro indicações ao Oscar 2026, nas categorias de Melhor Filme, Filme Internacional, Ator para Wagner e Elenco. A campanha internacional também impôs à equipe uma agenda intensa de viagens, encontros e compromissos. Para Emilie, foi um período exigente, mas difícil de resumir sem destacar a experiência humana que acompanhou a repercussão do filme.
“Foi tudo muito desgastante, mas incrível também. Acho que a gente curtiu cada momento. Nunca reclamamos de estar nesse ritmo insano, porque a cada coisa que a gente vivia eram muitos aprendizados, muitas emoções, muita gente incrível. Então foi especial”, conta.
A dupla construiu uma identidade cinematográfica profundamente ligada à realidade brasileira, em especial à cultura, à memória e às contradições sociais de Pernambuco e do Recife. Entre a observação minuciosa do cotidiano, a crítica às estruturas de poder, a investigação das relações humanas e a experimentação com diferentes gêneros, seus filmes combinam uma identidade regional muito particular com questões de alcance universal. Mais do que desenvolver projetos individuais, Kleber e Emilie também ajudaram a fortalecer o cinema independente brasileiro, tanto por meio da Cinemascópio quanto pelo incentivo a novos realizadores.
Essa conexão entre liberdade artística e estrutura de produção apareceu com clareza na conversa. Ao comentar o trabalho desenvolvido ao lado de Emilie, Kleber resumiu uma convicção que atravessa a filmografia da dupla: “Eu acho que até hoje não fizemos um filme em que o realizador ou a realizadora não estivesse profundamente envolvido com o tema e com a ideia de cinema. E acho também que filmes autorais podem ser filmes de mercado, mas que isso não seja a única preocupação do projeto”.
A frase funciona como uma espécie de declaração de princípios. O diretor não vê necessariamente uma oposição entre autoria e alcance comercial, mas defende que o desejo artístico não seja subordinado a uma única expectativa de mercado. Emilie, por sua vez, reforça a autonomia criativa. “Eu acho que a gente não abre mão, eu diria, da nossa liberdade de fazer os filmes que a gente quer, sem imposições criativas”, afirma.
A produtora também destaca que essa independência se estende à relação das obras com as janelas de exibição. “Até agora, pelo menos, a gente nunca abriu mão da janela de cinema, que a gente defende com muita paixão, de ter uma janela a mais longa possível no cinema”, explica.
Fazer cinema no Brasil
Embora tenha nascido na França, Emilie iniciou sua trajetória como produtora no Brasil. Por isso, evita comparar a experiência de trabalhar no audiovisual brasileiro com a de outros países. “Eu não sei como é fazer cinema em outro lugar, porque nunca fiz. Apesar de ser francesa, foi no Brasil especificamente que comecei a fazer filmes”, comenta.
A fala traz uma perspectiva sobre a relação da produtora com o país: sua experiência profissional está inteiramente vinculada à produção brasileira, com as dificuldades e as possibilidades próprias desse contexto. “Como em todo lugar, tem suas dificuldades, mas é maravilhoso também. A gente vive grandes emoções fazendo filmes”, resume.
A homenagem recebida no Cine Ceará também foi um momento especial nesse percurso. Acostumada a atuar nos bastidores, Emilie conta que não esperava o reconhecimento. “Recebi tudo isso com surpresa, porque é a primeira vez que sou homenageada, mas com muita emoção. Estou muito feliz, e é legal poder dividir também com o Kleber, uma homenagem dupla”.
Crítica, influenciadores e Letterboxd
A conversa também abordou as transformações na maneira de comentar, avaliar e recomendar filmes, algo que diz respeito ao mercado e aos caminhos da própria trajetória de Kleber, que conhece esse universo por dentro: antes de se consolidar como cineasta, trabalhou como crítico e jornalista de cinema até o final dos anos 2000. E, embora tenha deixado a atividade profissional, nunca se afastou completamente dela. Continua acompanhando a crítica, procurando opiniões e demonstrando interesse pelas diferentes formas de interlocução entre filmes e espectadores.
“Há mecanismos cada vez maiores e mais numerosos para você procurar uma opinião, um ponto de vista sobre o cinema. E eu não acho de todo ruim toda essa coisa em torno dos influenciadores”, comenta.

Kleber cita o Letterboxd como uma de suas fontes de consulta e destaca o que encontra na plataforma, especialmente em comentários espontâneos de espectadores que vivem fora dos grandes centros. “Eu sou um grande consumidor dessa rede social. Não é uma vitrine onde tudo é perfeito, mas é uma vitrine onde tem muitas ideias maravilhosas. Às vezes até de um menino ou de uma menina que viu um filme, mora no interior e reagiu a esse filme. Eu acho isso maravilhoso”. A abertura ao debate, naturalmente, não significa concordância com tudo o que lê. “Muita coisa eu não gosto, muita coisa me impressiona”, resume.
Sul de Teerã
A noite de abertura do Cine Ceará também reservou espaço para Sul de Teerã, curta-metragem documental de oito minutos dirigido por Kleber Mendonça Filho e produzido por Emilie Lesclaux. O filme acompanha o cineasta iraniano Jafar Panahi e propõe uma reflexão sobre cinema e memória a partir do encontro entre os dois realizadores.
A produção nasceu de uma iniciativa do Film at Lincoln Center, em Nova York, chamada NYFF Encounters. O projeto convida um cineasta com filme selecionado para o Festival de Nova York a realizar um curta original durante o evento, estabelecendo um diálogo artístico entre os participantes daquela edição. Escolhido para inaugurar a iniciativa, Kleber desenvolveu o trabalho a partir de sua aproximação com Panahi, que também estava no festival em 2025.
O resultado estreou mundialmente na edição seguinte do Festival de Nova York, em 2026, e agora integrou a programação especial do Cine Ceará.
Programação
A 36ª edição do Cine Ceará: Festival Ibero-Americano de Cinema segue até o dia 13, em Fortaleza, com sessões gratuitas. A programação ocupa espaços como o Cineteatro São Luiz e o Cinema do Dragão.






