Filme polêmico e bilionário sobre Michael Jackson estreia no Prime Video

Chega nesta sexta-feira (23) ao Amazon Prime Video a cinebiografia mais vista do ano: Michael (2026), que arrecadou US$ 1 bilhão nos cinemas — a quarta maior bilheteria da temporada, atrás somente de Homem-Aranha: Um Novo Dia (US$ 2,5 bilhões), A Odisseia (quase US$ 1,8 bilhão) e Toy Story 5 (US$ 1,1 bilhão).

Continua após a publicidade

O êxito de público, no entanto, não encontrou eco na crítica. Muito pelo contrário. Na imprensa, o longa sobre Michael Jackson (1958-2009) acumulou comentários negativos por ser visto como asséptico. É possível afirmar que ele se tornou polêmico exatamente por fugir das polêmicas.

Mesmo assim, Michael pode marcar presença em algumas categorias do Oscar de 2027 — inclusive na principal, ainda que não figure entre os dez mais cotados nas apostas da revista Variety, por exemplo. As maiores chances de indicação estão em melhor figurino e em maquiagem e cabelos. Não convém, porém, desprezar os nomes de Jaafar Jackson como melhor ator e de Colman Domingo como ator coadjuvante.

Continua após a publicidade

Qual é a trama do filme “Michael”?

Michael é o mais recente representante de uma onda que celebra astros do rock e do pop cantado em inglês. O ponto de partida foi Bohemian Rhapsody (2018), que narrou a história de Freddie Mercury, vocalista da banda Queen.

O auge dessa tendência pode ocorrer em 2028, com a estreia dos quatro filmes sobre os Beatles dirigidos por Sam Mendes, cineasta de Beleza Americana (1999) e de 1917 (2019). Cada longa-metragem abordará a trajetória da banda sob a perspectiva de um integrante: Paul McCartney (vivido por Paul Mescal), John Lennon (papel de Harris Dickinson), George Harrison (encarnado por Joseph Quinn) e Ringo Starr (interpretado por Barry Keoghan).

A trajetória do chamado Rei do Pop também não ficará restrita a um único filme. Como anuncia um letreiro ao final, Michael terá uma segunda parte — a Lionsgate pretende começar as filmagens entre o fim deste ano e o começo do próximo.

Glen Wilson / Lionsgate / Divulgação

As expectativas em torno de Michael eram baixas. Primeiro porque o diretor Antoine Fuqua não tem afinidade com cinebiografias musicais. Sua especialidade são filmes de ação, de preferência protagonizados por Denzel Washington, como Dia de Treinamento (2001), a trilogia O Protetor (2014, 2018 e 2023) e a refilmagem de Sete Homens e um Destino (2016).

Segundo porque Jaafar Jackson, intérprete do papel principal, nunca havia atuado. Em resumo, o cantor e dançarino, hoje com 30 anos, foi escolhido por ser sobrinho de Michael Jackson.

E terceiro porque os produtores cortaram o final original, que tratava da acusação de abuso sexual atribuída ao cantor contra um garoto de 13 anos, em 1993. Ou seja, o filme era aguardado com a consciência de que seria uma biografia chapa-branca, interessada apenas em exibir o inegável talento, a invejável genialidade e a estratosférica popularidade do artista.

É verdade que o longa encena momentos de tensão, como o episódio em que o cabelo de Michael pegou fogo durante a gravação de um comercial. No entanto, o roteiro de John Logan, indicado ao Oscar por Gladiador (2000), O Aviador (2004) e A Invenção de Hugo Cabret (2011), evita os escândalos e as polêmicas.

Ou pior: trata com condescendência e encontra maneiras de justificar as excentricidades de Michael, que ao longo dos anos transformou radicalmente sua aparência (aliás, o racismo é tema de apenas uma passagem cômica envolvendo a MTV) e mantinha cobra, chimpanzé, girafa, lhama e outros animais em casa. A mãe do cantor, vivida por Nia Long, nunca enxerga nada estranho no comportamento do filho. Os irmãos apenas fazem uma piada ou outra, sem demonstrar preocupação. Um pouco de controvérsia enriqueceria o protagonista e o próprio filme.

Glen Wilson/Lionsgate / Divulgação

O pai é o grande vilão da história, que começa em 1966, em Gary, Indiana. Joe Jackson (papel de Colman Domingo) era um tirano na função de empresário dos filhos, o grupo The Jackson 5 — seu mantra traduz o lado sombrio do chamado sonho americano: ou vocês são vencedores, ou são perdedores. Ele batia de cinto no pequeno Michael (vivido pelo estreante Juliano Valdi) e chamava o garoto de narigudo. Sem uma infância plena, o menino se refugiava em livros como Peter Pan, no qual fantasiava vingança contra o pai e que inspirou o nome de seu rancho e parque de diversões na Califórnia, Neverland.

A atuação de Domingo está entre os pontos positivos de Michael. Caso concorra de fato ao Oscar, será sua terceira indicação. Antes, ele disputou o prêmio de melhor ator por Rustin, em 2024, e por Sing Sing, em 2025.

Courtesy of Lionsgate / Divulgação

E é preciso admitir que Jaafar Jackson justifica sua escalação como Michael Jackson. Além da semelhança física, ele consegue incorporar o tio na voz — é espantoso quando seu personagem fala pela primeira vez —, nos trejeitos, no canto e na dança. São muito boas as cenas que recriam a gravação em estúdio de Don’t Stop Til You Get Enough (1979), um dos primeiros sucessos da carreira solo de MJ, e as filmagens dos lendários videoclipes de Beat It e Thriller (ambas em 1983). A pulsação em uma sala de cinema pode convidar o espectador a dançar ou até a chorar de emoção.

O problema é que, em determinado momento, o filme abandona a (mínima) atenção ao processo criativo, o desenvolvimento dos personagens e a progressão dramática para cumprir tabela, saltando de um marco na trajetória de Michael Jackson para outro. Alguns bons coadjuvantes, como o produtor e compositor Quincy Jones, interpretado por Kendrick Sampson, são deixados de lado no meio do caminho. Quem conhece um pouco da história da indústria musical da época sabe o quanto a parceria entre os dois mudou o pop e foi decisiva para o sucesso do astro. Outras figuras importantes sequer ganham personalidade: com exceção de La Toya Jackson, é difícil distinguir quem é quem entre os irmãos de Michael.

Kevin Mazur / Lionsgate / Divulgação

Mesmo tentando montar uma espécie de álbum de figurinhas da trajetória de Michael Jackson, o filme deixa de fora momentos bastante marcantes. Não há qualquer menção, por exemplo, à gravação de We Are the World (1985), canção e videoclipe produzidos para ajudar a reduzir a fome na África. Provavelmente porque reconstituir os bastidores daquela noite mágica da música pop dos Estados Unidos daria muito trabalho e custaria caro. Seria necessário obter direitos de imagem e contratar atores parecidos com Lionel Richie, Bruce Springsteen, Cyndi Lauper e Bob Dylan, entre outros.

O desfecho é bastante preguiçoso. Ao emendar duas longas apresentações ao vivo, uma de Human Nature, em 1984, e outra de Bad, em 1988, com closes inúteis em uma plateia de figurantes sem nenhuma cara de anos 1980, Michael já não parece um filme, mas apenas um show de covers.

Continua após a publicidade
Redação
Redação
Redação representa o esforço colaborativo de toda a equipe de jornalistas e editores dO Capixaba. Por meio de um trabalho integrado e multidisciplinar, contextualizando as informações e acompanhando as novidades do momento com agilidade e rigor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
23ºC
Máxima
30ºC
Mínima
21ºC
HOJE
24/10 - Sáb
Amanhecer
05:03 am
Anoitecer
05:46 pm
Chuva
0.14mm
Velocidade do Vento
18.5 km/h

Média
28ºC
Máxima
33ºC
Mínima
23ºC
AMANHÃ
25/10 - Dom
Amanhecer
05:03 am
Anoitecer
05:46 pm
Chuva
5.93mm
Velocidade do Vento
37.98 km/h

Censurado!

Ulisses Mantovani

Leia também