Três filmes de sobrevivência produzidos por estúdios de Hollywood estão em cartaz nos cinemas de Porto Alegre: Dentro da Baleia (2026), que estreou na quinta-feira (15); Coração Selvagem (2026), lançado em 24 de setembro; e Resident Evil (2026), que já completou um mês em exibição. Seriam quatro não fosse o fato de A Queda 2: No Limite (2026) ter encerrado suas últimas sessões em 7 de outubro.
Dentro da Baleia é a adaptação dirigida por Brian Duffield para um romance de Daniel Krauss inédito no Brasil. Na trama, um jovem interpretado por Austin Abrams decide mergulhar no mar bravio da Praia do Monastério, na Califórnia, para tentar encontrar a ossada do pai. O protagonista acaba engolido por uma cachalote de 25 metros de comprimento e 60 toneladas. A partir daí, ele conta com apenas uma hora de oxigênio no tanque de mergulho para achar uma saída antes de morrer sufocado ou ser digerido.
Em Coração Selvagem, de David Ayer, o astro Brad Pitt vive um veterano da guerra do Afeganistão que, ao lado de seu cão de combate, mudou-se para o Alasca em busca de paz, serenidade, uma vida simples e contato permanente com a natureza. Durante uma tempestade, ele sofre um mal súbito enquanto pilotava e perde o controle do monomotor, que despenca em um lago congelado. Daí em diante, protagonista e pastor-alemão enfrentam todo tipo de adversidade para sobreviver e retornar à civilização.
Resident Evil marca o recomeço, sob a direção do cineasta Zach Cregger, da franquia de terror inspirada em um videogame. O filme acompanha a jornada de um entregador de medicamentos comum (papel de Austin Abrams) que, durante uma nevada em Raccoon City, precisa fazer uma entrega no Hospital Geral e acaba preso em uma noite caótica e aterrorizante de surto biológico. Sem habilidades de combate nem preparo para enfrentar as criaturas grotescas que surgem na cidade, ele luta desesperadamente para sobreviver, descobrir a origem do caos e encontrar uma saída.

Coincidência ou tendência?
Como indicam as sinopses, o protagonista de cada aventura precisa encarar desafios praticamente sozinho — ou, ao menos, sem companhia humana. A sequência de três lançamentos levanta a pergunta: é coincidência ou os filmes de sobrevivência viraram tendência? Por que Hollywood está investindo nesse subgênero? E por que histórias assim nos afetam tanto?
— Talvez os filmes de sobrevivência nos mobilizem tanto porque nos colocam diante de uma das experiências mais primitivas e universais da condição humana: o medo de deixar de existir. O medo da morte, da perda, da destruição do mundo como o conhecemos — diz a psicóloga e psicoterapeuta psicanalítica Tatiana Hemesath.
Mas há algo ainda mais profundo nessas narrativas, segundo Hemesath: elas não tratam apenas do esforço para preservar a vida, mas da necessidade de preservar aquilo que nos torna humanos.
— Freud nos ajuda a compreender essa questão ao descrever as pulsões de vida e de morte — prossegue a psicóloga. — Eros, a pulsão de vida, representa justamente essa força que nos impulsiona a conservar, criar, amar e estabelecer ligações. Nos filmes de sobrevivência, vemos personagens que lutam contra ameaças externas, mas que também enfrentam um combate interno: como continuar desejando viver quando tudo aquilo que dava sentido à existência parece ter desaparecido? Há, nessas histórias, uma dimensão importante do luto. Frequentemente, os sobreviventes nos filmes perderam suas famílias, suas referências, suas casas e a vida que conheciam. Não precisam apenas encontrar água, alimento ou abrigo. Precisam encontrar uma maneira de existir depois da perda. Sobreviver, nesse sentido, exige também um trabalho psíquico de reconstrução.

Doutor em Comunicação e pesquisador de cinema, Danilo Fantinel lembra que “sobreviver não é apenas um instinto pessoal motivado pela necessidade biológica de darmos continuidade genética a nossos descendentes e à espécie, mas é também uma constante antropológica que nos faz permanecer para além da vida de cada um”.
— Sobrevivemos para mantermos viva justamente a nossa própria existência, a nossa imaginação criadora, as nossas conquistas civilizatórias, as nossas memórias pessoais, familiares e coletivas — afirma Fantinel, que organizou com Ivonete Pinto e Paulo Henrique Silva o livro 100 Filmes Brasileiros Essenciais, da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). — Mas, de fato, a sobrevivência da pessoa individual faz sentido para o cinema comercial mais fundamentado na figura do herói. Se pensarmos em nosso presente incerto, marcado por guerras em dezenas de países, emergência climática, futuras pandemias, polarização política, novo imperialismo e ameaça digital representada nos perigos da inteligência artificial, me parece compreensível o apelo de filmes desse tipo no cinema comercial de hoje.
O herói solitário e o presente incerto
Colunista de Zero Hora e doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS, Rodrigo Lopes aponta que Hollywood sempre refletiu uma característica da política dos Estados Unidos: a identificação de inimigos externos — fossem nazistas, comunistas, o fundamentalismo islâmico ou a China. O cinema permite a alegoria; assim, em muitos filmes os heróis combatem monstros, alienígenas, máquinas implacáveis ou feras selvagens.
— Nesse sentido, os EUA sempre se posicionaram como os representantes do “bem” contra o suposto “mal”. O país se arvorava como o representante da democracia liberal, o bastião do Ocidente, os heróis do mundo — diz Lopes.
Essa representação, ainda que não raro personalizada em um soldado ou em um cidadão, sinalizava para a coletividade americana. O problema é que, na atualidade, há uma descrença no coletivo e nas instituições, analisa Lopes:
— Estão sem credibilidade o governo, o Congresso, a classe política, os sindicatos, o Judiciário, a imprensa. Também não há confiança nas entidades internacionais, como a ONU, a Organização Mundial de Saúde ou o FMI, por exemplo. Ao mesmo tempo, a cooperação entre países vem falhando. Parece haver um egoísmo diante de desafios globais recentes, como a pandemia, a crise energética e as mudanças climáticas, vide a dificuldade de acordos para redução de emissões de gases poluentes. Cada nação, ou seja, cada “personagem” na geopolítica mundial, luta sozinho e só por si. Existe um certo individualismo no ar, uma sensação de que, diante dos problemas políticos que se tem, a forma de atuar é no cada um por si. Essa é uma hipótese que ajuda a explicar a proeminência de filmes sobre o indivíduo que luta solitariamente por sua sobrevivência.
Individualismo e ausência do outro
A psicóloga e psicanalista Luciana Wickert, mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS, acrescenta:
— São narrativas que reforçam o discurso do individualismo e de que existe saída fora da ação coletiva. Se existe este herói, é nele que eu tenho que focar e depositar meus anseios. E este herói não presta contas a ninguém, está autorizado a fazer o que for para sobreviver. A sua necessidade individual justifica qualquer ato. Este tipo de narrativa não leva em conta o outro. Aliás, o outro pode nem existir.
Para Wickert, a ausência de interação humana pode refletir um desejo de reduzir os conflitos inerentes à vida em sociedade:
— É acalentador, apesar de totalmente enganoso, pensar que podemos prescindir do encontro com o outro, esse outro que nos interpela e que nos coloca em dúvida, mas que também nos faz humanos. A ideia de que certas características, como ser forte, ser inteligente etc., poderiam garantir a vida é uma negação da dependência emocional que todos temos. Somos dependentes da interação humana.
A psicóloga Tatiana Hemesath faz uma ponderação:
— É particularmente comovente observar como, mesmo nas condições mais extremas, o ser humano continua procurando o outro. Não podemos nos esquecer do investimento afetivo do personagem de Tom Hanks em uma bola de vôlei, Wilson, no belíssimo filme Náufrago (2000). Esses vínculos nos lembram de algo essencial: não basta ao ser humano estar biologicamente vivo. Precisamos de afeto, de encontro, de companhia, de alguém a quem dirigir nossas palavras e nossos sentimentos. Quando o outro desaparece, procuramos formas de preservar sua presença, ainda que simbolicamente.

Para Hemesath, talvez Hollywood esteja encontrando nesse tipo de filme uma maneira de representar angústias muito contemporâneas. O cinema transforma esses temores, muitas vezes difusos, em histórias concretas, com personagens nos quais podemos nos reconhecer:
— Na segurança de uma sala de cinema, experimentamos simbolicamente o encontro com aquilo que mais tememos. Mas existe também uma dimensão de esperança. Ao acompanharmos alguém que resiste ao aparentemente insuportável, somos confrontados não apenas com nossa vulnerabilidade, mas com nossa capacidade de reconstrução. No fundo, talvez esses filmes nos emocionem porque revelam que o maior desafio humano não é simplesmente escapar da morte. É conseguir, apesar das perdas, continuar encontrando razões para viver. Porque sobreviver é uma necessidade biológica. Mas continuar amando, desejando e buscando o outro é o que dá sentido à sobrevivência.






